Sobre copos de papel e o sonho americano

Não sei se sou só eu, mas olhando de fora, eu pensava que a vida nos EUA não seria tão diferente da vida na Europa. Talvez porque meu olhar brazuca dividia o mundo entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento, daí que o estilo de vida, o conforto e a segurança da galhiera desenvolvida, do hemisfério norte, do G7 ou qualquer outra denominação que tivessem em comum, me fazia achar que era tudo farinha do mesmo saco. Tirando o centro histórico antigão, o jamón de primeira e as festas com touros muitcho loucos correndo soltos pela rua, eu táva achando que minha vida nos EUA seria basicamente como a minha vida na Espanha, só que sem filme dublado no cinema.

Ahh minha gente, vou te falar uma coisa. A vida muda da água pro vinho – ou do vinho pra coca-cola, talvez? – quando se muda da Espanha pros EUA. Tipo, seria como se um gringo achasse que a vida no Peru, no Brasil, no Timor Leste ou em Ghana seria a mesma coisa, só porque são países assim meio na pindaíba e com um clima tropical. Sim, esse nível de nada a ver.

Enfim, esse descobrimento de que qualquer semelhança entre (o sul da) Europa e EUA é mera coincidência não te vem na forma de um tapa na cara quando você desembarca do avião. Não, não. Eu tô falando de pequenez mesmo, coisa miúda do dia a dia que parece besteira, mas que vai acumulando igual uva passa no canto do prato.

Uma delas é a cultura do descartável. Vem aqui pros EUA rapidinho e entra em qualquer lanchonete de esquina. Pede um prato pra comer no restaurante mesmo, sentadinho ali na mesa, nada de take away. Quê que eles vão te trazer? Um lanche servido num prato de papel e um talher de plástico. No refeitório da universidade, centenas e centenas de pessoas comendo todo dia em – prato de papelão, talher descartável e copo de cartolina. Soma isso ao canudinho, devidamente embalado um a um em embalagem de papel e pira na quantidade de lixo que se acumula nesse país a cada dia.

Nem me vem com o argumento de que essa quantidade absurda de embalagem é “mais ecológico” do que a quantidade de água e sabão que se usaria pra lavar um prato que até a Dilma me inventa desculpa melhor que essa. A verdade é que dá uma pena danada ver uma quantidade alucinante de papel se acumulando no lixo no final do almoço na faculdade. E argumentos ecológicos à parte: me diz qualé a graça de tomar um vinho numa taça de plástico ou de ficar espetando a lasanha porque o garfo fubá perdeu uns dois dentes tentando pescar a cenoura?

E eu fico querendo olhar essa experiência aqui nos EUA com um olhar antropológico, “linkar” as coisas pequenas à grande filosofia de vida do país. E vou chegando à conclusão de que essa cultura do descartável é um reflexo muito claro de dois aspectos mais profundos da sociedade – aham, sim, estou tirando conclusões profundas sobre o estilo de vida americano depois de ter passado um ano morando em apenas uma cidade do país e convivendo 90% desse tempo com estrangeiros. É meu blog então é isso aí mesmo.

 

A primeira, é de que essa cultura do descartável reflete como o americano não tem muito essa de cultivar a joie de vivre, o dolce far niente, o “relaxing café con leche” dos países do sul da Europa – quer prova maior do que a falta de expressões gringas pro assunto? Parece que a ideia por aqui é estar sempre on-the-go, sempre indo fazer algo, cumprir um prazo, produzir. Até porque o próprio lugar de se tomar um café com leite e supostamente relaxar – pense num Starbucks ou similar – já virou lugar de trabalho por aqui. A ideia de sentar com os colegas do trabalho pra fazer um almoço de uma hora e “comentar la jugada”, reclamar do cliente sem noção ou discutir os comentários da Glória Pires no Oscar parece completamente despropositada. Não que não exista um coleguismo bacana por aqui, claro que sim. Mas é mais no vapt-vupt. Então tanto faz se o talher é de plástico, o prazer da refeição em si fica mais secundário. Parece que ninguém tá ali só pra curtir o momento, inclusive nos programas de lazer mesmo. Parece que rola um fenômeno de DDA coletivo, onde ninguém tá lá muito concentrado numa coisa só ao mesmo tempo. Já comentei por aqui a quantidade de TV que rola nos restaurantes, o nível alucinante de entretenimento nos intervalos dos jogos de basquete, tem sempre mil estímulos acontecendo ao mesmo tempo e até o momento de ficar de boa tem que ser extremamente entertaining – tipo a tela da Bloomberg, quanto mais conteúdo, melhor. Me parece que não tem muito essa história de só sentar pra tomar uma, pedir um petisco, bebericar um vinho – numa taça de verdade – e deixar a noite passar marota. Até porque depois de cada cerveja o garçom já vai trazer a conta pra mesa – “no pressure, guys”.

A segunda, e mais óbvia, é a ideia de que esse hábito do descartável reflete uma cultura que ao mesmo tempo idolatra e banaliza o consumo. Esse descaso com a quantidade de embalagem que se joga fora pra mim reflete o descaso com o objeto em si. Quebrou? Compra outro no próximo Black Friday. Enjoou da roupa que nunca usou? Chega ali no outlet e compra umas 5 mais. A combinação de uma oferta enorme de produtos relativamente baratos ao fato de que a cada semana você recebe uma oferta de cartão de crédito pré-aprovado pelo correio é um coquetel molotov pro bom senso no consumo. No princípio, eu achava incrível como por aqui é super fácil devolver alguma coisa que você comprou e que simplesmente desistiu de ter. Hoje em dia eu vejo como isso banaliza a compra. Você acaba levando pra casa porque pode trocar quando quiser, então, whatever.

Sigo achando que esse país tem coisas muito fodas, incríveis, legais pra caramba? Sim. Principalmente depois de ter assistido a 4a temporada de House of Cards, é muita competência pra produzir conteúdo, valha-me deus.

Mas também vou vendo aos poucos que esse american dream parecia mais bonito nos filmes de adolescente que eu assistia na sessão da tarde do que na vida real. Tem muita coisa que, de longe, parece lindo – mas vendo de perto assim, pegando na mão mesmo – a gente vê que é tudo meio… descartável.

 

 

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