Pão, Circo e um tiquim de conteúdo

Eu sempre soube que os EUA era o país do entretenimento.

Afinal a Xuxa e a vovó Mafalda (que, por sinal, era homem, pra quem acha que cross-dressing é coisa de millenial) moldaram a minha personalidade e os meus valores tanto quanto os filmes de polícia do Steve Martin ou aquele da orca assassina vingadora, que me faz ter medo de entrar no mar até hoje.

Mas morando aqui e vivendo o dia a dia desse lugarzinho maravilhoso que é a Americaaa, eu descobri que eu não entendia nada do poder do entretenimento desse povo. A premissa aqui é que tudo é passível de se tornar uma grande fonte de diversão, muito além do que você poderia imaginar. Basicamente, a indústria do entretenimento não se limita a Hollywood e Netflix. Ela é a base, o pano de fundo pras outras indústrias, o arroz com feijão que se combina com qualquer outro ingrediente pra deixar tudo mais divertido, interessante e, na maioria das vezes, comercializável.

Vem cumigo.

 

Evidência número 1: Jogo de hockey do Boston Bruins, TD Garden Arena, Outubro de 2015.

Na teoria segundo a qual eu vivo em atualmente, de que “quem tá na chuva é pra se molhar”, decido ir num jogo de hockey do time aqui de Boston. Não tinha muito ideia do que esperar, nunca tinha visto um jogo de hockey na vida, só tinha chegado até o curling. Minha imagem mental de como seria a partida se resumia ao resultado da equação: jogo do Galo quarta à noite no Mineirão + Gelo. O PF viraria frango frito, mas fora isso, nada fora da normalidade.

Pois então.

Entramos num estádio que deve ter uns 17 andares. Ou 4. Enfim, tudo de mármore, escada rolante e ar condicionado. A cada andar, uma variedade de restaurantes e de lojas dos times não está no gibi – coisa do nível do terminal novo de Guarulhos, pra se botar um benchmark, veja bem. Era como entrar num parque temático da Disney, o Magic Kingdom do hockey.

A partir daí você se dá conta de que o hockey em si é meio secundário. Das duas horas que você passa no estádio, rolam uns 30 minutos de jogo. O resto é show de abertura, show do intervalo, música no talo cada vez que marca gol, só falta Bel entrar num trio elétrico pra virar Axé Brasil. Tem o momento da plateia aparecer no telão, rola uma partida curta entre talentos mirins do hockey, you name it. Tudo, claro, devidamente patrocinado. Pra falar a verdade é uma experiência legal. Tipo, não tem como não ser. O negócio tá programado pra te entreter, pra te manter ligado, pra te seduzir. É a metáfora perfeita do fast food: um exagero tamanho de sal, açúcar e ketchup que não tem como não ser gostoso.

 

Evidência número 2: Final do campeonato de futebol americano universitário. Alabama vs Clemson, 11 de janeiro de 2016. Audiência: 26 milhões de pessoas.

Sim, minha gente, time de esporte de universidade aqui tem mais audiência que a novela da Record. Parece que uns 80 milhões de americanos seguem a liga de futebol americano de universidade regularmente. What!? Tipo além do trabalho, do tempo com a família, do Netflix, da academia e de atualizar o Instagram, 80 milhões de pessoas ainda têm tempo pra seguir o desempenho do Nebraska University futebol clube? Tá de brincadeira comigo. Não sei se foi só minha experiência e tô aqui achando isso tudo muitcho louco, mas pra mim o time da faculdade existe pra gente ir nos Jogos Universitários uma vez por ano, zoar no alojamento e tomar Skol no beer bong.

Eu me dei conta de que esse jogo táva rolando porque passei por acaso na frente de um bar e parecia final de copa do mundo: bar lotado e geral delirando em dois times que, observe, nada têm a ver com Boston. Explica isso? Pois sim, veja só, aqui a liga universitária é mega patrocinada, os estádios mega lotados, rola uma mega audiência e tem sujeito pagando até $300 doletas (nem queira multiplicar pra real…) pra ver um jogo desses. Mais uma vez, Estados Unidos fanfarrão pegando uma coisa que seria bobinha em qualquer outro lugar do mundo e transformando num mega evento em sua fantástica fábrica do entretenimento.

 

Evidência número 3: Debate entre os candidatos à presidência pelo partido republicano, 6 de agosto de 2015.

Ai minha nossa senhora. Eu precisava era fazer um blog paralelo pra cobrir as eleições e dar vazão pra tanto balacobaco junto.

Esse foi o primeiro debate da campanha e rolou um longo burburinho pré-debate, especulação de final de novela mesmo. Eu criei tanta expectativa com isso tudo que assisti o debate no telão, tomando cerveja, comendo pipoca e me jogando na enxurrada de comentários/gifs/memes da cara laranja do Donald Trump no Twitter.

Expectativas a parte, te conto que eleições aqui são mais glamourizadas que final de BBB. Um puta de um show de câmeras, luz, música – estatísticas durante o intervalo com dados reais de buscas no Google sobre os temas sobre os quais os políticos estão comentando. Participação de vloggers famosos fazendo perguntas sobre como os políticos vão engajar com a população jovem; uma plateia que parece animada pelo Roque e um país inteiro dando pitaco pela Internet. E, se perdeu um debate, sem problemas: chega ali depois no Youtube e você vai encontrar vídeos com títulos como “O momento mais vergonhoso de Hillary” ou “O discurso que fez Obama ganhar as eleições”. Tudo bem empacotadinho, do jeito que o consumidor gosta.

 

Eu tenho pensado muito em tudo que isso tudo representa e tem uma parte grande de mim que acha esse troço todo muito estranho, que acha bizarro como tudo acaba ficando industrializado, comoditizado, como tudo tem que ser awesome, fantastic, amazing ou the most shameful – a vida só é bacana no superlativo. E isso é, pra mim, indiscutivelmente uma coisa ruim.

Mas daí também eu comecei a fragar o meu próprio comportamento diante disso tudo. Você acaba sendo atraído sim a ver um jogo de futebol da liga universitária, que seja pra ver se é grande coisa mesmo. Você acaba clicando no “coolest debate ever”, porque com um título desse… né? E querendo ou não eu acabei sim me inteirando assim de coisas sobre a política daqui e me interessando sobre os temas pra querer ir mais a fundo. Querendo ou não, “ser super legal ser jogador de futebol na faculdade” faz o pessoal se interessar por esporte desde cedo.

Enfim, tô querendo jogar um pouco de advogada do diabo aqui, porque que criticar esse sistema da necessidade constante de awesomeness é fácil e eu acordei a fim de ver copo meio cheio. E eu sei que tem milhões de coisas negativas que podem vir disso, mas fiquei pensando, não tem um tiquim só que seja de lado positivo nisso? Não é também uma maneira de dar o açúcar pra criança tomar o remédio? Não?

É muito otimista da minha parte pensar que por trás disso pode existir algo bacana além de “Toma pão e circo por enquanto minha gente, que controle de armas, igualdade social e saúde pública vai demorar um bocadinho mais pra sair”?

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