Como o marketing pode salvar o seu 2016. Em 4 passos

Dia desses chuvoso, fui procurar minha lista de metas pra 2015, achando que aquele pedacinho de papel maltrapilho teria se perdido em algum lugar no trajeto Barcelona>SP>BH<SP>MVD<SP>MIA>Boston mas eis que, ao contrário do diploma do mestrado, aquele safado chegou inteirinho até aqui, e táva ali se esbaldando na minha gaveta de papéis, esfregando na minha cara aquela listinha auspiciosa de metas pro novo ano.

Bora revisar essa lista.

Então, foi muito bom não. Das duas uma: ou sou muito incompetente pra cumprir metas – o que eu acho que não é o caso, porque tô super cumprindo o objetivo de assistir 14 episódios de Mad Men em 4 dias – OU, pega o insight!, eu tô precisando é mudar minha maneira de ES-TA-BE-LE-CER metas. Rá!

“Um mês sem álcool no ano”!??! Sem cabimento. Então tô aqui pensando comigo, “Preciso estabelecer metas mais efetivas pra minha vida. Como posso fazer isso?”.

E, insight de novo! – é muito tempo livre – bora estabelecer metas pessoais do ano como se estabeleceria um plano de marketing!

MEO DEOS!

Então eu fiz isso e queria dividir com vocês, porque afinal a gente aprende técnicas e matrizes e ferramentas tão compleeeexas (LOL) na faculdade pra que? Só pra vender xampu? Vamos ampliar a utilidade disso tudo é hoje!
Se você achar uma boa, tenta esquematizar suas metas desse jeito. E olha como você já vai matar de cara a meta de “fazer um curso online de marketing pra impressionar meu chefe babaca na reunião da segunda de manhã”. De nada.
BORA LÁ:

PASSO 1: ANÁLISE DOS 4Ps + BRAINSTORMING

No marketing, a análise dos 4Ps é o ponto de partida da estratégia, vale pra analisar os aspectos mais importantes de uma marca e da concorrência: Produto, Praça, Preço & Promoção (“Praça”!? É, acostuma que essas ferramentas de marketing sempre forçam no nome dos conceitos pra ficar uma sigla bacana. O que eu posso dizer? É marketing).

Pro caso das metas eu estabeleci os 4Ps dos aspectos mais importantes da vida: Produtividade (trabalho/estudo), Pessoas, Prazer, Pessoal (aquelas metas mais amplas, que entram na sua lista de ano novo desde 2006) e fiz umbrainstorming de metas pra cada um, tipo associação livre, fui jogando as ideias mesmo sem filtro pra cada um dos Ps.
Ah, eu acrescentei um P que é pra “Pára de fazer isso. Agora”. Fraga só:

4ps

Boa! Vamos partir dessas metas pra seguir com as análises:

 

PASSO 2: MATRIZ BCG

Então, essas matrizinha porreta normalmente é usada pra analisar o tamanho e a evolução dos mercados nos quais uma empresa atua e qualé a posição de cada uma das suas marca em cada um desses mercados. Basicamente, te ajuda a definir prioridades de investimento.
Daí aqui eu peguei o mesmo princípio mas mudando um tiquim, botando os seguintes critérios: no eixo Y as coisas importantes (tipo, “tem que fazer”) e no X, as coisas legais (“quero muito fazer”). Daí é ir avaliando e colocando as metas lá de cima na matriz. (Sim Camila, poupar dinheiro É mais importante que zerar o Netflix).

Tipo:

bcg

Daí já da pra ver que tem que focar mais nas metas do quadrinho lá de cima (coisas importantes e legais) e parar de fazer de uma vez por todas essas coisas que não são nem importantes pra nossa vida nem são legais de fazer mas que a gente insiste em fazer eu sei lá por que.

 

PASSO 3: ANÁLISE SWOT

Num plano de Marketing, aqui você analisaria as fortalezas e fraquezas específicas da sua marca e as oportunidades e ameaças gerais do mercado. Pega meta por meta do que voce definiu lá em cima, começando pelas prioritárias e vai botando nesse ixquema. Isso vai te ajudar depois a montar um plano de ação bacana, antecipando as dificuldades e o que pode te ajudar a cumpri-las.

swot

Güenta comigo, tamo quase lá!

 

PASSO 4: OBJETIVOS SMART

O pulo do gato! Agora você vai pegar cada meta princípio, já priorizada na matriz e devidamente analisada em todo seu potencial e dificuldade e transformar tudo em metas SMART!

YEAHHH!!

Você quer mudar de emprego agora e vir pro mundo do marketing? Eu sei. Vem pra Boston não, que tá complicado. Mas olha só como se faz: a ideia é garantir que cada meta seja:

Specific, Meaningful, Action Oriented, Realistic, Timely. (não falei? Forçando os nomes dos conceitos de novo. Mas a sigla fica bacana).

smart

 

DONE!

Ahhh muleque! Eu fiz essa análise pra cada meta e depois coloquei tudo num excel, considerando todas minhas tarefas do dia e minhas horas livres e falo pra vocês que tá tudo mais claro, vai rolar post em dezembro de 2016 colhendo os louros do meu mega planejamento do ano!!! Metas alcançadas!! Glória, fama e fortuna!! Ra ra ra!!

Reenvio esse post pra Dilma?

Nada como um natal americano

Se tem alguma aspecto do american lifestyle que eu já posso dizer com certeza que eu vou querer levar pela vida afora é a empolgação que esse povo tem diante da chegada de um feriado temático.

Valha-me deus! Tem umas coisas… Sério. Só eles.

Seja Halloween, Thanksgiving, Natal – tô pra ver ainda dia dos namorados, que vai ser do balacobaco, com certeza – esse povo cria uma expectativa e se prepara pra chegada de feriado como um brasileiro se prepararia pruma final de copa do mundo. No maracanã. Contra a Argentina. Com show de abertura do Luan Santana. E a Adriana Lima sambando nua em cima da taça.

Eu não tô exagerando. Vem comigo.

Essa malemolência toda começa lá pra outubro, outono, as folhas começam a amarelar, muda assim o clima da cidade.

Batata! TODOS os estabelecimentos em TODO o Estado de Massachusetts (disclaimer: acredito às 12 ruas ao redor da minha casa a representatividade do estado de Massachusetts) enfim, de repente TUDO tem temática de Halloween. Tudo.

Me dá um objeto.

Café? Tem, Starbucks (epa!) Pumpkin Latte.

Batatinha? Ahan, Pringles sabor Pumpkin Pie.

Cerveja? Iiiihhh. Tipo umas 15.

Comida pra cachorro? Opa, Trader Joe’s Dog Pumpkin Treat.

Enfim, dá pra ver onde eu quero chegar.

Todas as decorações, mas eu digo TODAS, de TODOS os lugares é laranja, com abóboras, com folha secas e com bruxas de pano penduradas num fio de nylon com um indefectível cheiro de “estive em um porão com naftalina desde o último Halloween”. Tweets, memes, discussões fervoroooosas no Facebook sobre qual será A ideia mais genial de fantasia, meses de planejamento. Tem casal que planeja fantasia em dupla, briga, mas daí espera pra terminar depois do Halloween só pra não zoar o esquema  da fantasia. True story.

Enfim, o povo vive aquilo com uma fervorosidade que eu, que só tinha ido num Halloween chumbrega na Cultura Inglesa da Savassi aos 11 anos, táva ali fazendo lanterna de abóbora como se não houvesse amanhã.

Eu sei, eu sei, tem um meeeega ponto capitalista dessa história toda, que era pra ser uma tradição, mas se comercializou, e perdeu o sentido, e que o mundo perdeu os valores, esses milllenials de novo, zoando tudo que até então era sólido e moral, eu tô sabendo disso tudo e concordo demais que o negócio pode descambar prum consumismo bizonho. Mas também pode ser só bacana e você pode só curtir aquela empolgação toda e não precisa necessariamente consumir mais, só prova ali o cafezinho pumpkin latte em vez do cafezinho normal não-pumpkin-latte de cada dia.

Pronto. Não tem que se flagelar pensando no carbon foot print do seu Halloween. Pode ser bem inofensivo, só bacana mesmo.

Enfim, depois do Halloween a coisa dá uma esfriada por um, dois dias, mas quando você ainda tá se acostumando ao sabor das coisas pumpkin-free, vem o Thanksgiving e te dá um tapa na orelha! Eu infelizmente não estava em Boston city pra viver esse feriado como deus manda, mas viajei umas 3 semanas antes do feriado e te falo que a essa altura já táva pipocando peru de papel-machê pra tudo quanto é canto.

E aí, quando eu voltei, era a vez do Natal.

Ahh, o Natal.

De cara eu posso dizer que sempre foi meu feriado favorito. Sempre pirei em como o clima da cidade muda, junta aquelas luzinhas pela cidade, com aqueles reencontros com família de longa data, com aquele texto na rádio sobre viver a vida intensamente narrado pelo Pedro Bial, com uma antecipação pelo mês de férias no Espirito Santo; uma época do peru (ha-ha).

Mas te falo que o Natal aqui é outra história – primeiro que tudo relacionado ao Natal foi obviamente pensado prum clima frio, desde o pinheiro, ao Papai Noel todo agasalhado, à ceia mega calórica (sacanagem é estar de biquíni em Guarapari no dia 25 depois de ter jantado a “farofa dos 18 ovos” do meu pai na noite anterior). Então de cara a vibe geral do Natal já faz muito mais sentido.

E daí além disso tem a empolgação americana com feriado que culmina totalmente no Natal e faz com que as pessoas cubram a casa inteira de luzinha amarela e Rudolph de neon num nível que provavelmente dava pra iluminar El Salvador por um mês.

Tá todo mundo tão no clima que rola um cheiro constante de biscoito de canela no ar, uma falta de vergonha consensual pra usar suéter de rena e um loop infinito do CD de Natal da Mariah Carey na farmácia na esquina da minha casa. É lindo.

Então fica a dica, chegando o Natal, se der, dá uma chegadinha ai em Boston e pira comigo nos americanos high on christmas. E se não der, tá de boa: prepara aquela bela rabanada de panetone da Ana Maria Braga, agradece sua tia de coração por mais um sólido ano ganhando meias da Topper e arremata cantando em coro “Como vai você” com seu primo bêbado na reprise do especial de Natal do Roberto Carlos.

 

Se eu aprendi alguma coisa com os americanos, é que o que vale mesmo é a empolgação.

O paradoxo da escolha – ou “a arte de comprar leite”

Eu sempre curti ir no supermercado em países alheios. Entender um pouquinho do hábito das pessoas do lugar pelo tipo de comida que você encontra, pirar nuns ingredientes malucos tipo sorvete de feijão ou se achar a Narcisa Tamborindeguy comprando um Biscuit Marie num supermercado charmosinho francês só pra depois perceber que pagou 4 euros num pacote de biscoito maria.

E eu tive esse alegria chegando aqui nos Estados Unidos, eu fiquei maravilhada com a quantidade de marcas e opções e como qualquer supermercado normal daqui botava até o VerdeMar da BR no chinelo.

Mas quando você começa a ir sempre, pra comprar coisas do dia a dia e não tem 2 horas pra ficar pirando em tranqueiradas (nem dólares suficientes pra ficar provando sorvete de grão-de-bico todo dia) a experiência num supermercado americano pode ser bem sofrida.

O negocio é que é o seguinte: a estrutura do supermercado aqui em princípio é a mesma que a de um supermercado qualquer no Brasil ou na Espanha, no caso, então ele pode até parecer um estabelecimento inofensivo visto de fora, apenas um supermercado legal com bastante variedade, bacana. Mas pra um olhar mais treinado, meu amigo –believe me – isso não é um supermercado comum.

Vamos ao exemplo porque com exemplo fica tudo mais fácil de entender: seção de leite num supermercado brasileiro. Num supermercado padrão você tem uma seção de leite que normalmente se limita a talvez umas 8 marcas e dentro de cada marca tipo desnatado, semi, integral. Pronto. A humanidade precisa de mais diversidade de uma commodity tão banal como leite? Não precisa gente, tá mais que suficiente.

Só que não, vem comigo porque pra o sujeito poder navegar pela seção de leite nos Estados Unidos, nossa ele tem que ter um entendimento pelo menos básico da teoria dos jogos, um conhecimento intermediário de tabela dinâmica e de preferência ter feito Kumon na quarta série.

O negócio não é pra qualquer um não.

Pra começar, que a seção do leite totalmente se duplica entre leite Uht e leite fresco. Aqui, isso são dois mundos completamente diferentes. E dentro de leite fresco, por exemplo existem sub-seções: tipo com lactose e sem lactose.

Mas afinal, o que é um leite sem lactose, não é mesmo? Ele pode ser leite de amêndoas. De soja. De favas. De vaca mesmo, só que tirando a lactose (que aliás, WHAT?), de caju, de coco, de arroz, de hemp (que aliás, WHAT?) e por aí vai indo. E dentro de cada sub-sub seção de leite sem lactose, digamos de amêndoas, você tem umas 8 marcas e cada uma dessas 8 marcas por sua vez tem uma sub-sub-sub opção de 1% de gordura, 2% de gordura, 5% de gordura, 17,3% de gordura e daí pro infinito. E dentro do sub-sub-sub-sub-sub conceito de leite sem lactose de amêndoas da marca Almond Dream 3,1415% de gordura, você pode querer de repente “com 30% mais Ômega 3” ou “15% mais cálcio”. Ou os dois, juntos! Porque não? Totalmente existe um mercado proeminente de pessoas intolerantes a lactose que curtem amêndoas, se preocupam – moderadamente – com a ingestão de gordura mas querem um boost de Ômega 3 e cálcio. Tipo, eu mesmo conheço, altas pessoas.

Tá sentindo o drama?

Não vem botando a mão na minha cabeça dizendo que isso é lindo, que é maravilhoso ter essa variedade incrível de opções, que o consumidor americano é um privilegiado e tentar me convencer de que o capitalismo nasceu mesmo foi pra satisfazer  aquele consumidor cujo grande sonho de consumo é sempre foi o soymilk-gluten-free-0,2%fat-vegan-VitamineCenhanced.

Não.

Essa quantidade absurda de opção, ela deixa de ser ótima e passa a gerar uma dor de cabeça, uma ansiedade, uma inquietude, uma sensação de incompetência e impotência por nunca, JAMAIS saber se você fez a melhor escolha dentro das 317 opções de leite disponíveis – e aqui eu tô falando só de l-e-i-t-e. É foda.

Então fica aqui a mensagem pra você, meu amigo que vai comprar leite na padaria da esquina e só encontra um Itambé Integral. Pra você, que só tem que decidir entre desnatado ou semi. Pra você que achava que leite sem lactose era um mito, tipo melancia sem semente. Você, que pode dizer “vou ali um minutinho comprar leite”. Você é um abençoado e não tá sabendo. Aproveita esse momento de simplicidade plena de escolha. Curte o fato do supermercado não ser o momento mais mentalmente desafiador do seu dia.

E quando vier pros Estados Unidos, nem passa no supermercado, só toma o café com leite no Starbucks mesmo, pra simplificar.

Ah, isso sim: vai querer Mocha, Chai, Capuccino, Pumpkin Latte, Cinammon Latte, Macchiato ou um Salted Caramel Mocha Frapuccino?

Visita

Visita é a melhor coisa que tem pra tem tá morando longe. É uma maneira de ter um pedacinho de casa ou de uma lembrança, de uma história, por um tempinho só que seja, de novo, na sua vida.

Aliás, se você conversar com qualquer pessoa que mora fora do seu país, e que te diz que morre de saudades, que pensa em voltar, que vive num limbo e num conflito eterno sobre essa questão de morar fora do país, essa pessoa com certeza vai te falar que se levassem a família e os melhores amigos pra cidade onde ela está vivendo, onde quer que seja no mundo, acabô. Resolveu o conflito, todos vivem felizes para sempre e ninguém mais sobe num avião transatlântico ou peleja com as falhas de conexão das ligações com vídeo no skype.

Então sim, a gente fala que sente falta do guaraná diet, do pão de queijo congelado, de tomar café da manha assistindo Mais Você, mas isso tudo são detalhes muito pequenos da saudade. A gente sente falta mesmo é das pessoas.

Então quando tem visita é uma maravilha, porque é aquele sonho que você adoraria realizar de ‘lugar bacana que eu moro + pessoas bacanas que eu amo’ por uma fração pequena da vida que vira realidade.

É lindo.

Mas tem coisa que visita faz que irrita.

E não são as visitas que vem na minha casa. Ou na sua casa. São visitas. Conceitualmente. Eu e você faremos essas coisas quando formos visitas. Porque é assim que funciona.

Tudo começa quando a visita te pergunta como estará o clima na cidade quando ela estiver visitando. Daqui a um mês e meio. Você não tem nem ideia. Obviamente. Então você vai fazer o que a visita deveria ter feito que é consultar o Google weather. E aí pronto.

A partir desse momento a visita vai te ter como um guru,  como uma fonte de informações inesgotáveis sobretodos os aspectos da sua cidade. Ela vai te jogar indiscriminadamente todas as perguntas e as dúvidas que ela tiver ao longo da viagem.

Vocês vão entrar em um restaurante que você nunca tinha ido antes e ela vai perguntar “você sabe onde é o banheiro?” ou “será que as porções aqui são grandes?”.  Hm.

Ela também vai te perguntar informações de prédios e construções em geral na cidade, qualquer coisa que ela for vendo na rua. Tipo “que que é aquele prédio alto, bege ali?”. Nem ideia. Porque no caso, não, você não conhece a história e razão de ser de cada prédio na cidade onde você mora há poucos meses.

E com certeza a pessoa também não sabe esse tipo de informação sobre a própria cidade onde ela mora há anos, mas ela ainda assim vai te dar um olhar de soslaio de “que falta de interesse você tem sobre sua nova cidade”. E você vai se sentir mal, você vai se sentir culpado mesmo.

Um fenômeno que não acontece com 100% das visitas, mas com um percentual bem relevante é o fato de que as pessoas quando vão visitar um amigo ou um parente elas agem de uma maneira muito diferente de quando elas vão viajar sozinhas pra ficar num hotel. No sentido de que quando alguém vem te ver ela normalmente não pesquisa absolutamente nada sobre o lugar.

E ela não tem interesse em realmente entender como se locomover no lugar.

Então ela só te segue, ela é incapaz de entender placas, sinais ou ler um mapa de metrô.

Ela acorda cada manhã com a pergunta: “E aí o que vamos fazer hoje?” esperando um itinerário elaborado do dia à la programação de verão de hotel fazenda (e você quase se sente coagido a imprimir um flyer indicando que o dia começa com o encontro na recepção para uma caminhada ecológica as 7 da manhã).

Um comportamento também muito recorrente é que a pessoa pode ficar o tempo que for na sua casa, tipo 6 meses hospedado na sua casa, ela vai inevitavelmente lembrar de alguma coisa que ela esqueceu de comprar pra prima dela no último dia de viagem, à tarde. E vocês vão sair como loucos de casa procurando essa coisa, vai ser um stress desnecessário. Mas acontece.

Muita visita também se recusa a adaptar a algumas normas locais. Por exemplo, nos Estados Unidos, tem que dar gorjeta. Tem que dar. E de tipo 15, 20%. E isso é muita coisa, eu sei, ainda mais quando você tá multiplicando tudo por 3,20 por causa do dólar que sobe todo dia. E então visita normalmente não dá gorjeta. Ela arredonda a conta, se enganando de que esta deixando uma gorjeta, mas ela tá deixando um 2% de gorjeta, que não vale nada, na verdade.

Já quando eu morava na Espanha a visita brasileira normalmente não entendia o espanhol como um idioma diferente do português. Então ela simplesmente falava português com as pessoas. Jogando um sotaque ali, umgracias acolá. E aí aconteciam coisas do tipo pedir vinho tinto e vir um mojito, pedir frango e vir um petit gateau e outras anedotas que nunca impediram a visita de mudar a dinâmica dos pedidos, mesmo quando o garçom tentava mudar pro inglês.

Mas nada disso importa.  São detalhes pequenos, anedotas. Visita é sempre bom demais e eu só fico lembrando dos “perrengues” pra ver se alivia a saudade.

Como dar feedback, American style

Como bem já se sabe, o sistema de encontrar trabalho a la american style não tem sido lá meu amigo e entre uma enviada de currículo e outra (#euaindaacreditonoRH), eu tenho muito tempo pra ir em aula, palestra, conferência, torneio de buraco e – meu tipo de evento preferido: apresentação de livro.

Mas vejam bem, não estou falando de evento tipo coquetel, happy hour, noite de autógrafos ou qualquer nome que se queira botar pros eventos estilo “vem aqui comprar meu livro que o folhado de camarão é por minha conta”.

O que rola é o seguinte: você chega lá, numa livraria qualquer, e não tem nada de aperitivo. Fica todo mundo sentado enquanto o autor lê uns trechos do livro, botando o tom dele na leitura, fazendo uns comentários de pé de página que não estão no pé de página, meio que interpretando os personagens do livro mesmo. É bacana. Mas até aí ok, nada demais.

Mas é que daí depois disso eles abrem o espaço pra perguntas. Ah… as perguntas.

Antes de continuar, um parênteses: pra mim tem várias coisas da cultura americana que não fazem muito sentido, uns troços que se contradizem. Mas se tem uma coisa que os Estados Unidos diz (diz?dizem?? nunca sei) que é e, de fato, é assim mesmo, é o fato de ser um país livre. Me parece que aqui realmente todo mundo faz meio o que tiver afim, contanto que seja legal. Então geral sai de pijama na rua pra levar menino na porta da escola, vai soltando comentário sobre a roupa alheia no ponto de ônibus, genuinamente troca ideia com o mendigo na porta do supermercado e coisas do tipo. Então o que eu vou contar a seguir já não deveria ser surpresa pra mim. Mas sempre é.

Pega só: o que rola é que sempre, mas eu digo SEMPRE que abre pro pessoal fazer pergunta, necessariamente vai ter pelo menos um sujeito que vai levantar a mão, pegar o microfone e falar algo do tipo: “seguinte: seu livro não tá bom não. Achei meio mal escrito, não curti o personagem principal, o final foi nada a ver”.

Ok, normalmente é alguma versão mais elaborada disso.

Nesse momento, eu que tava presenciando essa pilantragem pela primeira vez, pirei. Eu comecei a olhar pros lados, esperando uma reação de choque da platéia, uns cochichos, um pessoal indignado. Nada! Galera de boa, achando aquilo ali bacana mesmo, o autor na tranquilidade, reagiu com um “beleza, não curtiu? Quis expressar sua opinião livremente? Tamo num país livre, cumpadi, vai nessa mesmo, #respect. Próxima pergunta”.

Gente. Fala se não tem um valor incrível nisso?

Eu me dei conta de como eu vinha de duas culturas (pelo menos na minha experiência, tanto no Brasil quanto na Espanha) de feedback modelo ursinhos carinhosos, que quando a gente quer criticar o trabalho de uma pessoa você acaba falando mais tempo das coisas ‘super bacanas e positivas’ que você achou pra no final dizer que “talvez, quem sabe, se a pessoa refizer todo o trabalho seria uma oportunidade de fazer algo ainda melhor”. Pois é. A definição do termo bullshit.

Eu sei que aquilo de sair dando pitaco no livro alheio abriu minha cabeça de uma maneira linda!

Poder falar, na frente de uma galera e de um autor que trabalhou uns 10 anos escrevendo o caraleo do livro que você não curtiu mesmo, que você não concorda, que achou fraco. Falar na lata mesmo, sem desrespeitar, claro, mas sem encher linguiça. Maravilhoso!

Pois eis que eu, franga que sou e encantada com a proeza desses indivíduos de espírito livre, resolvo dia desses pegar o microfone, levantar na frente de umas 40 pessoas e do autor ali, logo na minha frente e soltar um: “é, então, curti não”. (ou alguma versão mais elaborada disso).

Eu sei, eu sei. Não tava dando feedback pro secretario geral da ONU, nem tava na frente da platéia de um show da Taylor Swift. E mesmo assim eu me senti prestes a ter uma dos momentos mais cara de pau da vida, frio na barriga.

E num é que eu falei ali que que eu achava mesmo, sem meias palavras, e foi de boa? Ninguém olhou feio, o autor achou de boa, partiu pra próxima, a vida de todo mundo ali seguiu exatamente como se nada tivesse acontecido.

Só eu própria que tava pirando com aquilo, achando o máximo, mais libertador que nadar no mar pelado. Sentei triunfante na minha cadeira, sentindo que inclusive podia sim de repente bater um papo reto com o secretário geral da ONU, porque não?

Então fica aqui a dica: quer levar um tiquim do estilo americano de viver pro dia a dia? Taca-lhe menos Lattedo Starbucks e mais opinião direta nessa vida!! É libertador.

Sobre a arte de viajar

Tava papeando outro dia com um fellow Americano, comentando um tiquim as coisas que me pareciam “curiosas”, “interessantes, não é mesmo?” sobre o dia a dia em Boston, falando sobretudo sobre detalhes que eu curto da minha vida aqui. Aliás, eu acredito que quando for se falar do país alheio pro digno morador desse país, prevalece a regra de xingar-mãe-do-outro-não-vale: por mais que se fale de verdades universally acknowledged, “epa, epa, quem pode falar mal do meu país aqui sou eu”.

E até porque sem dúvida tem coisas maravilhosas da vida Bostoniana pra se falar, desde você ter acesso a aulas incríveis, dos assuntos mais variados, numas das Universidades mais tretas do país; a uma programação cultural constante e foda; ao transporte público bem bacana.

Mas me peguei comentando mesmo sobre umas coisas pequenas dessa vida: como todo mundo abre a porta pra todo mundo – gentileza boba, mas que sempre faz meu dia; como a temperatura das manhãs de outono é oficialmente A MAIS prazerosa a ser registrada no planeta; como não tem nada mais legal do que sentar ao ar livre no campus de Harvard no começo do semestre, e ir fragando os alunos novos super empolgados, sentindo uma nostalgia dessa época de faculdade – e uma invejinha ligeira desse povim safado que tem 10 anos menos e 2 startups mais que você.

Pois o americano em questão, num descaso que só vendo, me diz que “ihhh, povo em Boston é antipático, galera gente fina mesmo tá é no Texas” e que “cruz-credo do outono, odeio ter que sair de luva em novembro, trocava Boston por Miami”.

Vendo a animosidade do cidadão diante dos meus comentários super-bacanas-escolhidos-a-dedo, escapei do papo antes do vinho subir e eu já querer entrar na discussão do “me conta então como você lava seu banheiro sem ralo”. Mas fiquei pensando em como aquele rapaz tava perdendo, todo dia, a oportunidade de ver as coisas mega bacanas do lugar onde ele mora. E como tem gente que viaja de longe só pra ver essa cidade que, pra ele, não fede nem cheira.

Dias depois, tô embarcando numa viagem de 27 horas de avião (fato que se escreve com mais tranquilidade do que se faz), com um livro que, bem a propósito, me deram de presente debaixo do braço: “A arte de viajar”, do Alain de Botton.

Ok, antes de mais nada, recomendo esse livro pra qualquer pessoa que vá fazer qualquer viagem nos próximos meses (Natal taí, minha gente!), de Aspen a Guarapari. Esse autor consegue elaborar de um jeito muito genial as expectativas e frustrações que todo mundo já passou numa viagem e te dá uma perspectiva bem foda sobre como apreciar a beleza dos lugares que a gente visita.

E ele vai mostrando como na real, fato é que essa beleza está mais na nossa perspectiva do que na viagem em si: fácil fácil a viagem pra Pousada Golfinho Encantado em Guarapari pode ser mais sensacional que as férias num resort em Aspen.

No final do livro, o cara fala justamente sobre como essa perspectiva que a gente tem quando viaja, de “achar um café em Chicago super charmoso” ou “pirar numa ruazinha de lojas em Melbourne” é simplesmente, meu amigo, porque a gente tá com o “grama do vizinho é mais verde” mode on. A gente tem uma perspectiva de fora que faz a gente saber apreciar cada detalhe bacana do lugar que a gente está conhecendo.

Porque, quem diria, no nosso próprio bairro, na nossa própria cidade, chances are, tem um café – talvez até o seu café, onde você toma todo dia o pingado com pão de queijo – que um visitante de Chicago vai pirar e uma ruazinha charmosa que você cruza passivamente no caminho pro trabalho que o Melbourniano desavisado vai curtir demais.

Trust me, já presenciei o brilho nos olhos de um francês diante de um PF com ovo frito. Pegou a ironia?

Pois enfim, volto pra Boston com esse comichão, com uma vontade de cruzar com o americano aí de cima e falar “meu amigo, descobri uma coisa: Boston é de fato, foda demais, tu é que já se acostumou e não tá sabendo olhar!” assim como BH, Barcelona, Aspen ou Guarapari.

Uma das frases finais do livro é uma citação de Nietzsche (rá, enfim um nome mais complicado de soletrar que Massachusetts!) que vai mais ou menos assim: “…e ficamos tentados a dividir a humanidade entre uma minoria daqueles que sabem como fazer muito de pouco e de uma maioria daqueles que fazem pouco de muito”.

Bora tentar fazer parte dessa minoria, né não?

 

 

 

Check list de compatibilidade com a vida americana

Os Estados Unidos são um país incrível, maravilhoso, diverso, foda e tudo mais. Mas também é um lugarzinho, digamos, muito polarizante. Têm algumas características do dia a dia nos Estados Unidos, do americano e da cultura daqui em geral que se tornam muito marcantes na sua vida quando você mora aqui.

Com certeza cada país tem a sua maneira de ser, seus costumes e tal, mas têm algumas coisas nos Estados Unidos que são tão, mas tão presentes, que você tem que considerar se estiver pensando em mudar pra cá.

Porque uma vez que você já estiver aqui, vai ser difícil tentar se esquivar dessas coisas. Não são coisas ruins. São coisas. Então assim, é bom saber já, por que daí você já se prepara e já sabe o que esperar.

Então aí vai, um checklist pra você verificar a sua compatibilidade com a awesome! american life.

  1. TV: Com certeza, número 1 da lista. É um aparelhinho do tinhoso que vai cruzar seu caminho uma média de 17 vezes por dia. E como, você me pergunta, se eu não passar por 17 lugares diferentes num dia? Ahá! Aí é que tá. Num ambiente normal de boteco/restaurante/banco/supermercado você vai encontrar umas 8 TVs ligadas ao mesmo tempo. Papel de parede pra quê quando se pode pendurar uma tela plana?
  1. Boné: Não tem que gostar de usar boné. Se gostar, ótimo e aliás um plus pra fazer amigos e se passar como local neste país. Mas na verdade você só tem que estar ok com o uso alheio de bonés. À noite, povo de boné. Restaurante, galera de boné. Cinema! Geral de boné. É uma coisa que você pode imaginar que não vai te afetar em nada e nem deveria estar sendo listado aqui. Mas quando a quantidade de bonés no seu campo visual eé tão fora da normalidade, aquilo tem que ser digerido por você de alguma maneira. E se você odiar boné, é complicado.
  1. Sociabilidade extrema de pessoas alheias: Se você se incomoda em ter pessoas puxando papo com você ou interagindo na sua conversa de bar com um amigo, melhor vai pro Canadá (nem sei como é no Canadá, tô chutando que é menos ultra-sociável que os Estados Unidos, por mera probabilidade). Aqui, se prepara pra ouvir alguns comentários aleatórios – sempre simpáticos, por sinal – de pessoas igualmente aleatórias na rua.
  1. Carro: Boston eu acho que é das poucas cidades que dá pra se locomover ou de carro ou caminhando e dá pra se virar bem. Mas saiu do perímetro urbano, meu amigo, você vai estar dentro de um carro, necessariamente.
  1. Leve 16 pague 12: A não ser que você tenha uma ressalva aguda em relação a compra em “bulk”, ou em outras palavras, compra tamanho família/ leite no galão/ latas de atum na dúzia, você vai se apaixonar por este conceito. Você vai cultivar uma dispensa invejável E aprender pelo menos umas 24 maneiras diferentes de comer atum enlatado.
  1. Ar condicionado no talo: Eu li uma matéria aqui outro dia sobre a questão do ar condicionado – sempre no talo absoluto em supermercados, restaurantes e hotéis. Segundo a matéria, quando mais “fancy” o lugar, teoricamente mais frio o ar condicionado no verão. Mito. tenho que ir pro supermercado fubá coreano da esquina de polainas em pleno agosto. Se prepara pra choques térmicos importantes.
  1. Kim Kardashian: É tipo a Giovanna Antonelli dos EUA. Prepare-se para vê-la na grande maioria das capas de revista na fila do supermercado e nas (lembrando – múltiplas) TVs espalhadas por cada canto da cidade, enquanto não estiver rolando baseball.
  1. Discussão eleitoral: Tema constante, já que quando um presidente se elege já é hora de começar a campanha (e a correspondente cobertura midiática) das próximas eleições.
  1. Copo de café de 1litro: notem que eu não quero dizer: gostar de tomar litros de café. A relevância não está na bebida em si, meu caro, MAS no fato de ter sempre, invariavelmente, um copo descartável de um litro de café na mão. Não precisa estar cheio de café. Pensa como se fosse mais um item pessoal, praticamente uma vestimenta, como uma bolsa ou um relógio legal. Para fit in logo no começo aconselho já descer do avião carregando um copo descartável do Starbucks do aeroporto de Guarulhos. E, porque não, bota também um boné.

 

A safadeza da data invertida

Tem coisas grandes que mudam na sua vida quando você muda de país. Coisas relevantes mesmo às quais você tem que se adaptar por mais diferentes que elas sejam do seu estilo de vida anterior. Você escolheu mudar, você se adapta.

Por exemplo, eu tenho que me adaptar à maneira de transporte nos Estados Unidos, que é muito diferente da Espanha – aqui o transporte público é muito mais limitado. Principalmente se você quer sair da cidade, não dá com transporte público.

Ou dá, mas demora umas 3 horas, 2 metrôs e 4 ônibus pra chegar num lugar onde você chegaria em 20min de carro. Outro esquema. E isso influencia muito o dia a dia.

Outra coisa: o preço das coisas. A vida nos Estados Unidos (ou Boston, no caso) é muito, mas muito mais cara do que em Barcelona. Em números absolutos, que é como eu tenho que analisar os preços já que eu ainda não tenho um salário gringo, tudo é 3 vezes mais caro. Mesmo. 3 vezes, pá, assim, tudo. E isso também, grande impacto na vida.

Isso tudo eu táva meio que esperando já, são coisas pras quais eu já tinha me preparado – ok, talvez mais emocionalmente do que financeiramente.

Mas tem umas coisinhas, uns detalhes da vida que te pegam de surpresa, porque são detalhezinhos pequenos, mas que vão gerando pouco a pouco uma ligeira e constante irritação no dia a dia.

No caso dos Estados Unidos pra mim é como todo o sistema de medida de tudo é diferente. Você tem: fahrenheit no lugar de celsius, pés no lugar de metros, ounces no lugar de alguma coisa que eu ainda nem entendi o que é, pounds no lugar de quilos, uma escala totalmente nada a ver com o resto do mundo pra sapatos e roupas e uma medida diferente pra quantidade de café. Pra quem estiver vindo pros EUA, fica aqui a informação de que a tradução de “small coffee” em bom português é: “tamanho garrafa térmica familiar”.

Mas o que mais me irrita, de tudo isso: a tal da data invertida.

Por quê? Por quê inverter um padrão tão estabelecido no mundo inteiro pra uma coisa que é usada no dia a dia de todas as pessoas? Isso já é querer gerar confusão, é querer ver o circo pegar fogo, ver a cobra fumar.

Eu imagino o tanto de erro que já deve ter acontecido por essa mania de inverter a data. Porque quando você fala de algum sistema de medida mais formal, normalmente você coloca a escala que você tá utilizando. Então não tem tanta confusão. Tipo “6 feet tall”. Ahh tá, não é metro, é pés. Ok, entendi.

Mas na data não rola essa marcação, e é super confundível. Tipo você vai fazer um negócio com um brasileiro, tá falando por e-mail e diz que a mercadoria x vai chegar no porto, sei lá, dia 08-07-15. O brasileiro tá achando que vai chegar dia oito de julho. Mas não, você, americano, tá falando que vai chegar dia sete de agosto.

Pega a treta que vai dar. Por quê?

E parece uma coisa simples de se adaptar, mas você já tá tão acostumado a pensar de um jeito, já tem aquele sulco feito no cérebro, aquele caminho mental, que te faz pensar dessa maneira tão logica que é dia > mês > ano (tipo do mais pequeninho ao maior. A lógica em sua plenitude) que requer um esforço tão tremendo forçar a cabeça a pensar mês > dia > ano. Valor médio, volto pro pequeno e vou pro grande. Confuso demais. Tipo escovar o dente com a mão esquerda, faz isso não.

Então é isso, só queria desabafar, porque diariamente eu fico me culpando por não conseguir me adaptar a essa história de mês>dia>ano, mas eu percebi que não é minha culpa. É esse povo que fica inventando inverter as coisas pra complicar a vida alheia, zoar os negócios internacionais e fazer você chegar 2 meses mais tarde pra sessão de jet-bronze que tinha marcado. Me diz pra quê isso?

 

 

A safadeza da gorjeta

Meses atrás meu pai veio me visitar. Agora, meu pai é um cara tolerante, compreensivo, boa praça, sujeito bacana mesmo. Tem pouca coisa nesse mundo que tira ele do sério.

Descobri que uma delas é o sistema americano da gorjeta.

Pensa o seguinte: pra começar, meu pai chega em Boston já tendo que multiplicar o preço de tudo por 4. Quatro! O café da Starbucks (olha ele aqui ‘traveiz!) que já é caro pra qualquer assalariado classe média americano fica, pro turista brasileiro, com preço de filé mignon. Vai um café com leite por R$20?

Então o sujeito já chega ressabiado, doído de pedir uma Budweiser long neck por 8 dólares (yep, 32 reais. Só em Boston e no terminal internacional de Guarulhos) e quando vai acertar a conta, olhe veja: tem que pagar na verdade $9,50. Isso mesmo, passa pra cá mais 6 reais assim, de graça, deixa pro santo.

O-QUÊ?!

Tenho que dizer também que meu pai é… assertivo com dinheiro, então qualquer tentativa de golpe, tumé ou pegadinha do Malandro nesse sentido ele já roda a baiana. E nessa situação não deu outra, ele ficou indignado – não só pelo preço absurdo da cerveja pra começo de conversa– mas por sentir que não estavam sendo honestos com ele botando “Budweiser – $8” no cardápio. Porque já não dizer $9,50? Que palhaçada é essa?

Então bora explicar pro papi uma das primeiras lições que eu aprendi chegando aqui: acontece que na maioria das vezes, o preço que você vê em restaurantes, lojas e lugares de consumo em geral, não inclui impostos. No caso da cerveja aí de cima, o imposto é de uns 6%, que já dá uns 50 centavos. Num sei porque é assim, só sei que é. Então você pouco a pouco vai se acostumando a calcular uns 5-10% no preço inicial da etiqueta ou do cardápio. Ok.

Só que além disso, quando você vai pra qualquer – digo QUALQUER – bar, restaurante, botequim, muquifo, lanchonete, café, food-truck e variedades hipster do gênero – qualquer estabelecimento pra comer ou beber alguma coisa, automaticamente, você vai incluir na conta 15% de gorjeta. Não é gentileza, simpatia, não depende da malemolência do garçom. A não ser que o serviço tenha sido absolutamente fubá, leia-se cuspe no hambúrguer, espera de 2 horas pela comida ou o garçom ofendendo a sua mãe, esses 15% do serviço são simplesmente esperados.

E pasmem: no caso de você chegar diretamente pra sentar na bancada do bar e pedir uma singela Budweiser long-neck, e ter o “serviço” braçal de valor imensurável do sujeito abrir a garrafa pra você, o que acontece? Pimba! $1 PRA CADA CERVEJA que você pedir. Uhum.

Então imagina só a indignação do meu pai ao perceber que o esquema da gorjeta é esperado 100% das vezes é incluído no preço original das comidas no cardápio…nunca! What? Ou, na reação mais precisa do meu pai: Uai!?

Concordei demais, não faz o menor sentido. Eu tentei argumentar que garçom nos EUA recebe de salário fixo menos que a mesada semanal da minha prima de 7 anos, que é um pessoal que tá ali trabalhando pra pagar a dívida do empréstimo da faculdade, que eles podiam estar roubando, podiam estar matando, podiam estar tocando flauta peruana no seu trajeto de 50min no metrô pro aeroporto, mas estão ali, ralando pra tentar ser algo na vida e contam com o dinheiro da gorjeta pra pagar o aluguel.

Mas o argumento de papis é claro: porque colocar impostos e gorjeta como algo a parte? Porque essa enganação pro consumidor gente fina, honesto, falando que a cerveja vai custar $8 se necessariamente o preço final vai ser $9,50? É pai, tô contigo. Mais uma pra antologia de “Mistérios da cultura americana”.

Tô passando umas semanas de visita na Austrália e, devo dizer, recuperei o prazer em comprar comida. Vejo “Sanduíche por $9”. Pago $9. Café $3,50? Táqui três-e-cinquenta. Sim, o Universo faz sentido outra vez.

“É, aproveita, minha filha, que Boston te espera. Com impostos, gorjetas… e um frio de -20”.

 

Esse grande mistério que nos une

Imagina isso: você esta andando pela rua, num país qualquer que não seja o Brasil e vem vindo um grupo de brasileiros. Ou um casal, ou uma pessoa sozinha – qualquer brasileiro em qualquer circunstância.

O que vai acontecer:

Você vai sentir uma sensação inexplicável, uma certeza profunda e louca de que aquela pessoa é brasileira.

Num impulso incontrolável, você vai se aproximar daquela pessoa, porque você quer comprovar sua hipótese. Mesmo que aquilo não tenha nenhuma relevância na sua vida. Você não precisa nem falar com a pessoa, mas tem algo que te move a se aproximar daquele brasileiro só pra comprovar sua tese. Você chega mais perto e – batata! Tá falando português. “É. É brasileiro. Eu sabia”.

Sim, esse fenômeno pode parecer completamente despropositado, mas ainda assim é muito fascinante, não da pra negar. É um mistério que une a todos nós, brasileiros, no exterior. Então bora explorá-lo.

Vamos lá, primeiro: você não é a única pessoa capaz de identificar pessoas do seu país na rua. Eu sei, você sabe, seus amigos sabem, seu primo sabe. Todo mundo sabe isso. A gente meio que nasce sabendo. Ao parecer nosso cérebro tem uma areazinha pequena, um cantinho ali, destinado a “identificar-pessoas-do-nosso-país-de-origem-na-rua-quando-estamos-no-exterior.” Curioso? Específico? Inútil? Sim. Fascinante, de qualquer maneira.

Segundo, isso não é uma “capacidade” exclusiva dos brasileiros. Porque eu sei que você já vinha teorizando sobre como você é capaz de identificar conterrâneos. Talvez você tenha pensado “ brasileiro sempre anda de tênis de academia quando faz turismo”. Uhum, pode ser, boa parte sim, mas não é um critério fundamental. Talvez porque “brasileira costuma ter cabelo comprido-liso-com-luzes. Logo, viu esse perfil, é brasileira” Uhum, também, verdade, muita brasileira é assim, mas tá bem longe de ser todo mundo, obviamente. Então de novo, não existe na real um critério comum.

Até porque, meu amigo, eu te digo que como um brasileiro enxerga outro de longe, um alemão faz a mesma coisa. Oh yeah. Um coreano, igual. Ingleses, também. E enfim, eu tenho bastante certeza de que russos, argentinos e papua-nova-guineanos também tem esse mesmo feeling. Bizarro, eu sei.

Então vamos lá, por que diabos o nosso cérebro decidiu dedicar um punhado de neurônios nessa funçãozinha tão pilantra? Acho que a gente precisa entender, porque a gente poderia estar lendo mentes com esses neurônios, aprendendo a jogar xadrez, investindo na bolsa e ganhando dinheiro, mas não, estamos por aí nessa de ficar identificando turistas brasileiros, e pra quê? A gente tem que achar uma função pra isso.

A minha suposição é que nessa história toda o nosso cérebro tá super bem intencionado, a gente que não tá sabendo fazer bom uso dessa habilidade.

Se você parar pra pensar, ser capaz de identificar uma pessoa do seu país na rua, te dá duas possibilidades que, quando bem utilizadas, podem sim ser incrivelmente relevantes.

A primeira é no caso de você, como turista, de fato querer encontrar alguém que fale o seu idioma, entenda sua cultura e possivelmente saiba onde encontrar uma churrascaria rodízio nas proximidades (ou um Biergarten, ou um Pub ou o como quer que se chame “bar típico” pra galera da Papua-nova-guiné).

Nesse caso, o que você não percebeu talvez é que você não precisa sair perguntando informação inadvertidamente pra qualquer pessoa na rua e ficar recebendo chega pra lá de gringo que não entende o seu sotaque.

Usa o feeling, mermão! Vai pra uma rua movimentada, posicione-se numa localização central e só começa a observar as pessoas. Dentro de minutos o feeling de “aquele ali é” vai vir a tona. E você pode ir já lascando um português sem medo e vai ser bem acolhido pelo conterrâneo! Vai conseguir informação, vai começar uma amizade, experiência super satisfatória. Lindo.

A segunda é no caso de você não querer correr o risco de se juntar com pessoas da sua nacionalidade enquanto está passando suas férias em Paris e acha que seu estilo blasé vai te fazer passar por local, e você acha isso glamuroso e bacana. (Aliás, essa história de “aff-pessoas-da-minha-nacionalidade-dão-vergona-alheia-quando-são-turistas” também é uma sensação bastante universal).

Nesse caso e só ficar de olho, quando o alarme de “opa, lá vem vindo um” acionar, cruza a rua, olha pro chão, solta umas palavras soltas num idioma qualquer e, maravilha, evitou o approach.

Taí, pronto, solucionado o mistério. Não tem nada de subconsciente coletivo, de brasilidade que ultrapassa fronteiras, de uma união mágica entre pessoas que estão destinadas a se encontrar pelo mundo.

E só nosso cérebro. Cumprindo seu papel.

Reagindo num instinto bem básico de querer poupar a gente de pagar mico no exterior. Só isso.