Revisando conceitos – ou “e você que achava que sabia o que é um currículo”

Vamos revisar uns conceitos hoje pessoal, porque têm algumas coisas que a gente acha que têm um sentido universal mas na prática não têm, mas não têm mesmo. E então é bom a gente entender que umas coisas que são verdade pra gente não são verdade pros outros. No caso, pros gringos.

Vejamos o exemplo de um currículo.

O que é um currículo?

Uma pessoa poderia pensar que de repente um currículo é um documento onde você resume sua experiência profissional e acadêmica de maneira a tentar convencer um futuro empregador de que você é capaz de fazer um certo tipo de trabalho. Pode ser?

Ou seja, um currículo seria então um instrumento fundamental pra quem tá buscando um trabalho. Eu diria até meio que A principal ferramenta dessa pessoa.

Mas num é bem assim não.

Esses nossos queridos amigos americanos, auspiciosos como são, vão lá e – toma! – mais uma vez mudam o sentido da coisa. Dão uma reviravolta naquela coisinha que táva ali bunitinha, estabelecida, positiva e operante e simplesmente tiram todo o sentido pré-concebido daquele objeto.

Mas deixa eu explicar: não é que os americanos não utilizem o currículo. Eles usam sim e dentro do contexto busca de emprego, inclusive. Mas a função do currículo aqui não é te ajudar a encontrar um trabalho. Ninguém nunca jamais em toda a história da América conseguiu um trabalho enviando um documento Word pro departamento de RH de uma empresa. Nunca. A função do currículo aqui é fazer com que a pessoa que está buscando trabalho se sinta produtiva e tangibilize a sua busca de trabalho.

É um instrumento apaziguador do desempregado. E só isso.

E não para por aí, porque você normalmente não só tem que enviar um currículo, o que teoricamente te levaria uns 15 segundos entre redigir um emailzinho e anexar um documento. Nada disso.

O pessoal aqui quer garantir que o desempregado ocupe a maior parte do seu tempo nessa função. Talvez eles acham que quanto mais tempo você fica nessa de enviar currículo, mais você fica tranquilinho, achando que tá fazendo alguma coisa realmente produtiva pra conseguir um trabalho.

Então você, além do currículo, tem que enviar uma carta de apresentação personalizada, explicando porque você especificamente tem interesse naquela empresa, especificamente. Já dá um trabalhinho. Tem que pesquisar a empresa, pensar em como você se encaixa ali e tal.

Daí você junta a isso um questionário que foi elaborado por psicólogos muito competentes e sádicos pra deixar o candidato desajuizado de agonia. Esse tal questionário te pergunta não só vários dados pessoais completamente irrelevantes (signo? Praia ou montanha? Prato favorito? Livro favorito do Paulo Coelho?) mas ele te faz preencher a mão TODA a informação que JÁ ESTÁ no currículo anexado. WHAT? Sim, você tem que digitar sua experiência profissional: onde trabalhou, de quando a quando, quais eram suas funções… TUDO. Digitar TUDO que já está no currículo de novo. Coisa de louco.

E como cereja no bolo, ele encerra com aquelas perguntas típicas que os americanos sempre tem que fazer por conta de alguma lei que existe por aí. Como: “Você se considera latino o descendente de europeus?” Raaa, e aí brasileirada, sinuca de bico ou num é?

Enfim, você sabe que a probabilidade de conseguir um trabalho indo por esse processo é a mesma de cruzar com a Beyoncé no metrô, mas isso é o que você tem nas mãos, então você entra na dinâmica, não tem outra.

Mas então, você me pergunta, COMO se consegue um trabalho nos EUA? Ahhh meus amigos, a palavra é networking. Você tem que ir a todo tipo de evento minimamente relacionado com a sua área, pregar uma etiqueta que diz “Hello, I’m Camila!” no peito (o que pra mim sempre gera um desconforto inicial de “como assim está todo mundo olhando pro meu peito, que isso?” e daí eu lembro da etiqueta e fico tranquilo) e sair puxando papo geral.

Meu deus, tem algo mais desconfortável do que essa situação? Fica aquele um speed date trabalhístico, você tem que ficar pensando em assunto; em como resumir sua experiência de trabalho em 3 frases e ainda parecer amaaaziiing; em como abordar cada pessoa e como dar uma desculpa quando percebe que o cara ta olhando pro seu peito por mais tempo do que o necessário para ler seu nome na etiqueta.

Eita sisteminha safado de buscar trabalho, tá loco!

Pra que sujeitar as pessoas a isso, gente? Eu digo, voltemos ao bom e velho sistema de enviar o Word pro RH resumão da vida, bate o olho e já dá pra ver se o candidato é bom pra vaga ou não, olha que beleza!

Agora deixa eu ir que eu encontrei a Beyoncé ali no metrô e ela veio aqui em casa me ajudar a enviar uns currículos.

Como comprar remédio, American Style

Ok, ok, eu sei que eu venho bitching about vários aspectos da adaptação nos Estados Unidos.

E isso não é legal, porque os Estados Unidos tem muita, muita coisa boa também e eu tô aqui e tô sendo super bem recebida e tudo mais e daí eu volto pra casa e fico escrevendo coisas meios ruinzinhas sobre o país, de acordo com a minha perspectiva.  E não é porque eu tô achando que esse país só tem coisas ruinzinhas, mas não mesmo. É só porque essas coisas são as coisas legais de escrever.

Mas chega, bora mudar isso hoje!

Então, ok, Estados Unidos tem coisas não super bacanas, como todo país tem suas coisas pouco bacanas. Tipo, banheira do Gugu. Tipo calçada esburacada. Né? Ou a profissão de amolador, que é uma pessoa tem que ficar gritando na rua e acaba interrompendo cochilos da tarde. Ou tipo uma cidade onde as pessoas falam 2 idiomas e você só fala um desses idiomas e as pessoas cismam em se comunicar com você justo no idioma que você não fala.

Enfim, esse tipo de coisa. Mas os Estados Unidos tem umas coisas incríveis, fodas mesmo. E elas te pegam de surpresa, e te fazem ignorar todas as coisas não bacanas e você pensa “porra, esse país é foda”.

Uma das coisas mais impressionantes que eu vivi até agora é o sistema americano de comprar remédio. Vamos fazer um pouquinho de role playing aqui comigo:

Como se compra remédio no Brasil:

Você marca hora no médico, chega no médico, espera. Espera. Lê uma Caras inteira. Espera. Faz a consulta, faz um exame. Marca outra hora pra voltar, pra pegar o resultado. Volta. Espera. Folheia a mesma Caras da consulta passada. Espera. Tem uma consulta que dura 10 minutos que é basicamente o médico falando “Tem que tomar 2 semanas de Amoxilina, 1 cápsula de manhã e duas de noite”. Ok. Pega a receita com o médico. Pega o carro. Vai na drogaria Araújo da Av. do contorno. Não tem onde parar o carro. Para meio na fila dupla. Entrega a receita pro moço da farmácia. Ele não entende a letra do médico. Chama o outro moço, outra menina também chega. Juntos, eles concluem que provavelmente deve ser Amoxilina. Você pensa ‘jesuis’ e pede o remédio. Você precisa de 42 cápsulas mas o moço diz que só tem em embalagem de 60. Ele pode pedir na central pra chegar dali a uns dias. Você: “Não, daí a de 60 mesmo”. Volta pro carro chega em casa, esquece como que tinha que tomar o remédio. Liga pro médico, fala com a secretária, espera ele ligar de volta. Ele te liga. Boa, ok esclareceu. Começa a tomar o remédio.

Procedimento pa-drão de compra de remédio no Brasil. Nem te passa pela cabeça que pode existir outra maneira de se conseguir remédios no mundo.

Pois chego nos Estados Unidos.

E como se compra remédio por aqui:

Você marca hora no médico. Chega na consulta. É atendido (!?!). Faz a consulta, faz um exame. Depois de 3 dias o médico te liga, falando: “Saiu o resultado aqui, já sei que remédio você tem que tomar. Qual a farmácia mais conveniente para você?” Você diz que tem uma farmácia CVS na rua da sua casa, mas não sabe direito o número. O médico consulta alguma fucking awesome database do tinhoso e diz: “Claro, a CVS número 546”. Você incrédulo não consegue nem responder. O médico te diz que em meia hora você pode passar na farmácia.

Você vai na farmácia a pé de boa, chega, meio que sem saber o que tá acontecendo e só joga assim no ar: “Oi eu sou a Camila, será tem algum remédio aí pra mim? Porra! Se tem. Eles te entregam simplesmente um tubinho com exatamente o número de pastilhas que você vai ter que tomar, etiquetado com seu nome, o nome e telefone do seu médico e as instruções de como tomá-lo.

O que acabou de acontecer?

Eu não sei. Não sei até hoje, não sei como, como o médico se comunica com a farmácia ali da minha esquina, como um sistema tão elaborado com pode ser feito num fluxo tão pleno? Aliás, falando sobre aceitar que alguns países fazem as coisas melhor do que outros: mundo, bora adaptar o sistema americano de conseguir remédios.

Esse país é foda ou num é?

 

A farsa do churrasco

Dia desses me convidaram pra um churrasco.

Então, a primeira coisa que se tem que entender é que aqui nos Estados Unidos não é todo dia que se recebe um convite pra churrasco. Num existe essa convidação de um pra casa do outro todo fim de semana, menos ainda pra ficar comendo carne igual louco, bebendo cerveja e se jogando bêbado na piscina alheia.

Isso pode parecer um fim de semana default na vida de um brasileiro, mas não é o caso por aqui.

Mas eu também tenho que esclarecer que antes de mudar pros Estados Unidos eu fui imoralmente mimada por um grupo de gaúchos em Barcelona que SIM fazia churrasco bem regularmente, daqueles que a picanha fica maturando na churrasqueira por 14 horas e fica aquele festival lindo e fluido de carne rolando até acabar o vinho e daí o pessoal vai comprar mais vinho no supermercado até que o supermercado fecha em algum momento e daí é a hora de ir pra casa. Bons tempos.

Então por mais que o convite pro churrasco tenha atiçado toda uma nostalgia e saudosismo, também existia uma expectativa bastante alta da minha parte.

É com essa premissa que a gente chega no churrasco.

Primeira diferença crucial num programa de churrasco EUA vs. Brasil – a hora da chegada. O brasileiro médio, como todo mundo bem sabe – sim, somos eu e você – ele entende o convite com hora marcada como uma coisa mais simbólica, uma referência vaga, uma abstração mesmo. Então o convite pra duas da tarde prum almoço com churrasco, pode totalmente ser entendido por um brasileiro como “chega aí às 2. Ou às 6 e meia, já almoçado e meio bêbado e traz aí uns amigos se quiser”. E é isso ai, a gente leva a coisa dessa maneira e como todo mundo meio que pensa igual então acaba dando certo mesmo.

Mas num vem fazer isso aqui não. Tá loco? Aqui um atraso de 15-20 minutos é entendível, depois disso, e melhor tu ter um álibi foda pra não ficar mal com o seu amigo, porque ele vai te perguntar, genuinamente preocupado, o que que foi te aconteceu. Vai estar todo mundo te esperando pro almoço começar. Tipo, encara um convite pra comer na casa de alguém com a seriedade de quem vai pegar um vôo internacional, que tem que chegar direitinho na hora – não vale atrasar porque senão, nem precisa aparecer.

Bom, mas sem problemas, chegamos lá, bonito, 2:14.

Primeira surpresa:  churrasqueira apagada. Medo. Quê que tá acontecendo?

Isso não estava previsto. Você tomou só um suco leve de laranja de manhã justamente porque você estava indo pra um churrasco, e você não queria gastar barriga com fruta, aveia e pão francês com philadelphia.

E você sabe bem que churrasco já demora pra começar a rolar e se a churrasqueira não está nem acessa, você calcula que o pão de alho vai começar a sair lá pelas 4 da tarde a picanha então, lá pelas 8:30. Pânico. O que fazer?

Você olha ao seu redor: ninguém parece preocupado, tá todo mundo sussa, tomando seu vinhozinho, sua cerveja. Será que você aborda o dono da casa? De repente ele esqueceu de acender o fogo. De repente o fogo apagou e ele num tá sabendo. De repente um esquilo tropeçou e ligou a mangueira sem querer, acidentalmente apagando o fogo da churrasqueira e o dono da casa não percebeu e você avisa ele e ele te agradece muito e reacende a churrasqueira e tudo volta ao normal e você ganha a primeira fornada de pão de alho por ter avisado sobre a churrasqueira apagada. Vai que.

Mas daí o dono da casa comenta que ele vai esperar uns fulanitos chegarem pra começar a preparar o churrasco (ahá, tá vendo como você pode azedar o almoço alheio chegando tarde aqui??). Você não tem saída e aquele apetite guardado com todo carinho pra alcatra com farofa é desperdiçado numas Pringles sabor barbecue (quanta ironia…) que você tem que comer pra não se jogar no vinho de barriga vazia. Porque claro, se não tem carne, vamos pelo menos tomar todas para gerar uma ilusão mínima de que estamos, efetivamente, num churrasco.

Mas, vem comigo, que esse atraso na churrasqueira não foi nada.

É quando a churrasqueira acende que cai a ficha da crucial diferença do churrasco Americano: ele não é um churrasco.

Raaaa ilusão essa de ir num churrasco em pleno Boston, organizado por gringos! O que eu estava pensando? Que ilusão vaga, vadia, vã. A churrasqueira não precisa ser acendida com tempo, porque ela não tem o propósito de “churrascar”, ela é nada mais que uma grelha pra assar hambúrguer e esquentar um pão com gergelim. Podia ser uma churrasqueira tanto quanto podia ser um forno, uma George Foreman, uma misteira de canto de cozinha.

O ASPASchurrascoASPAS consiste em basicamente deste hambúrguer com salada, milho, bolo de milho e macarrão de forno com queijo.

Ok, eu não tenho problema com isso. Foi uma comida ótima, de verdade, o macarrão tava incrível, a salada! – eu curto salada. Eu não tenho problema com a comida. Meu problema é chamar de churrasco. Por que? É como eu te dizer “chega aí que eu vou fazer sushi” e eu cozinho um macarrão a bolonhesa. “Vem aí tomar um vinho” e eu te faço uma limonada e fica por isso mesmo. Tem que fazer isso? Tem que gerar essa expectativa falsa no coração de um pobre brasileiro?

Pois então ficam aqui dois pedidos: primeiro, uma sugestão de um nome que se adeque melhor a uma refeição que consiste de hambúrguer, milho e macarrão, só pra gente esclarecer melhor as coisas e amenizar relações diplomáticas Brasil-EUA. E segundo, por favor, que alguém me passe o contato de algum brasileiro em Boston, de preferencia gaúcho e que faça churrascos como deus manda.

 

 

De novo no Ikea

Tempos atrás eu fui apresentada ao conceito de não-lugar. O não-lugar é, ironicamente, qualquer lugar que te dá a sensação de que você pode estar naquele exato momento em qualquer cidade do mundo, de São Paulo a Governador Valadares a Paris. Exemplos típicos de não-lugar são um McDonald’s ou um Starbucks (ou uma churrascaria Fogo de Chão, como eu recentemente descobri), enfim, qualquer lugar que foi desenhado especificamente com a ideia de te dar a sensação de “já estive aqui”. Nesses lugares você se sente em casa e você sabe exatamente o que esperar daquela experiência – ou que café-com-preço-de-caviar você vai pedir.

O Ikea é assim, e quando você entra nessa de ficar mudando de país, ele passa a ser um não–lugar bem habitual.

Pra quem não sabe, o Ikea é uma empresa gigante sueca que fabrica móveis de design com preço bem acessível. Se você mora na Europa ou nos Estados Unidos, não pretende ficar na mesma cidade por muito tempo e tem um salário chinfrim/está desempregado – no meu caso: check, check, check! – o Ikea é ouro.

Mas o processo todo de ir ao Ikea é foda, sempre. Eu acho que o dono do Ikea pensou que tava moleza demais te permitir comprar aquelas belezuras de móveis por um milésimo do preço de uma loja normal de móveis-belezura e decidiu zoar um pouco o processo, porque sim.

Pois eis aqui a dor e a delícia de ir a um Ikea:

O dia tem que começar cedo. Você vai calcular inicialmente que uma ida ao Ikea vai demorar 4, 5 horas no máximo. Rá! Não. Você pode estar mobiliando só um quarto ou ir só pra comprar uma coisinha muito específica, mas uma visita ao Ikea dura no mínimo umas 9 horas, necessariamente.

Você provavelmente vai alugar uma van ou um carro grande pra ir ao Ikea. Principalmente se você for comprar cama, sofá, armário e quer manter algo da visão do retrovisor no caminho de volta.

O visitante rotineiro do Ikea sabe que tem que levar uma barrinha de cereal ou um sanduíche pro “passeio” – bota aspas nisso – para não acabar comendo um cachorro-quente de $1 com gosto de meia.

O trajeto de uma pessoa pelo Ikea é uma experiência interessantíssima, porque ela é capaz de trazer a tona todas as reações mais profundas do temperamento humano. Você começa com uma excitação: você está decorando uma casa nova, esta super animado, se inspira nos ambientes decorados da loja, anota bonitinho as referências de tudo que você gosta com aquele mini-lápis que você vai acabar colecionando em casa. Tá tudo ótimo.

La pelas tantas, vem uma angústia. Tem muita opção, muita gente, muito barulho, você não sabe bem como combinar o sofá com a mesa de jantar, o armário de que você gostou é caro, mas o armário barato é feio e aí você se paralisa e fica alguns minutos incapaz de tomar qualquer decisão.

Daí vem o cansaço. De repente você percebe que já esta há 4 horas no Ikea e não tem quase nada no carrinho, só umas referencias aleatórias de móveis anotadas num papelzinho amassado. Nessa altura você provavelmente está lá pela sessão de colchões, então você deita, relaxa, esvazia a mente. E prossegue.

Você aproveita pra acelerar pela sessão de “cozinha planejada” que não interessa a ninguém, nem sei porque tá ali, eu diria que quem tem dinheiro pra fazer cozinha planejada não é o consumidor médio do Ikea – e daí o ânimo renasce e você recupera a sensação de “you can do this”. Até porque você chegou na parte legal de acessórios decorativos. É aqui que você se joga nos guardanapos, nos utensílios desnecessários pra cozinha e nas velas com aroma de banana. Até chegar na etapa final que é pegar os móveis no armazém.

Esse momento é o verdadeiro desafio pra mim e poucas vezes eu consegui manter uma atitude zen-positiva-bacana nessa etapa, porque ela junta o cansaço extremo de estar dentro da loja há o que já são a essa altura umas 7 horas ao esforço braçal de ter que carregar uma estrutura de uma cama de madeira da prateleira pro carrinho. Foda.

É aquela sensação de estar num avião em turbulência, que você pensa “porquê eu estou aqui? Porquê? Não quero mais, nunca mais vou pegar um avião, nunca mais passo por isso de novo” e o momento passa e você esquece e você volta a pegar avião. Como você volta ao Ikea.

Enfim, agora não tem como desistir, seria morrer na praia. Você faz um esforço final, pega todos os móveis, paga e ainda encontra um chorume de energia pra ir na lojinha de comidas do Ikea comprar um pacote de salmão defumado congelado extremamente barato!!

Acabou.

Não. Está apenas começando.

O que segue daí é um põe-tudo-no-carro, tira-tudo-do-carro, sobe com tudo pra casa, desempacota tudo e acumula uma quantidade absurda de papelão em casa, monta móveis que são mais complicados de montar do que parecem, sempre, toma uma cerveja e come um sanduiche de salmão defumado pra relaxar, esfola o dedo de tanto parafusar móveis com ferramentas obviamente não aptas pra isso, ignora os parafusos que você encontrou na caixa depois que o móvel já está montado e lembra de uns 4 itens essenciais que “como assim você esqueceu de comprar” e vai ter que voltar ao Ikea. De novo.

É complicado. E cansativo, e trabalhoso, e umas 87% das casas que você vai visitar daqui pra frente vão ter a mesma cadeira Poang que você achou super original pra decoração da sua casa.

Mas o pior é que a gente muda de novo. Precisa de móveis de novo e velas com aroma de frutas exóticas. E volta pro Ikea. De novo.

Procura-se tutorial sobre como limpar banheiro sem ralo

A minha sina do ralo, ou no caso da falta de ralo, não começa nos Estados Unidos.

É uma luta que vem me acompanhando já há anos, desde que eu me mudei pra Espanha há 6 anos atrás eu venho sofrendo com esse grande desafio, esse calvário que é limpar um banheiro sem ralo.

E ao longo de todos esses anos todos, eu passei por muitas fases psico-neuróticas-somáticas diferentes. Teve primeiramente a surpresa, é claro. Aquela primeira vez que você lava o banheiro como deus manda, como você acha que tem que ser feito, como sempre se fez desde sempre, desde a Grécia antiga, ou seja, jogando baldes de agua na parede, no teto, no chão, em você mesma, porque faz parte, em tudo.

E aí você descobre que não tem ralo e que aquele riozinho que você mesmo criou no seu próprio banheiro, ele não tem pra onde escoar. E então não tem outra solução a não ser passar as próximas 3 horas e meia passando pano e mais pano e mais pano até que  se acabam os panos secos que você tinha, você pega sua toalha, você pega o lençol da pessoa que divide o apartamento com você ate chegar num nível digno de secagem e ainda tem que fazer um acabamento com o papel toalha. São horas.

Ai vem a negação. Tipo não pode ser que não tem ralo. Que banheiro falho é esse sem ralo. E você começa a observar que não existe ralo nunca. Em nenhum lugar. Jamais. Vem a aceitação. Você tem que lidar com isso.

Mas aí na Espanha meu amigo, você tem uma ferramenta pra responder a essa falta de ralo. Pra compensar esse erro grotesco de engenharia que vem se perpetuando ha séculos naquele continente. É a fregona. A fregona é incrível porque ela te permite encher um balde de agua com o produto de limpeza mas ela tem um device, uma estrutura tal que da pra tirar o excesso de água antes de esfregar o chão. Então é um processo mais longo que o do ralo , mas satisfatório. Você esta em paz com você mesmo no ato de lavar o banheiro.

Então eu me adaptei. Não era o ideal, mas dava pra deixar o banheiro bem limpinho e viver feliz.

Daí eu vim pros Estados Unidos.

E você acha que essa coisa de não ter ralo é uma coisa europeia, da revolução francesa, dos bolcheviques, sei lá. Mas não. Eu tô começando a achar na verdade que só no Brasil tem ralo. Porque aqui não tem também não.

Só que aqui não tem fregona.

Então como faz? Não sei.

É a verdade e a razão pela qual eu estou aqui, fazendo esse apelo, esse pedido sincero através da internet que é essa rede maravilhosa que liga todos nós com o objetivo último e final de transmitir conhecimentos e conselhos sobre fatores tão essenciais da vida como limpar dignamente o banheiro sem ralo.

Vocês podem perguntar: tentou youtube? Tentei.

Tem tutorial de limpeza nos Estados Unidos, mas eu não gosto da ideia de passar só um paninho no banheiro. Não acho que tá limpo. Não tá limpo.

Tentou você mesma usar técnicas diferentes, vanguardistas controversas? Sim.

Dá pra limpar. Mas leva muitas horas, muita água, muito ficar ajoelhado secando o riozinho que se forma no chão com  muito pano. Não pode ser a solução. Não pode ser.

Tentou perguntar pra um Americano como eles fazem? Não.

Não tentei porque eu não tenho intimidade com nenhum Americano suficiente pra perguntar: e aí, windex ou ajax? Esponjinha ou pano? Você também se ajoelha e fica secando o riozinho do seu banheiro cada semana? Não tenho intimidade pra isso, na verdade eu mal conheço Americanos, eu acabei de chegar e eu não quero arriscar essa amizade que tá ainda numa linha tênue trocando informações sobre limpeza de banheiro sem ralo. Eu nem sei como fala ralo em inglês, pra começar (diz google translate que é drain. Tem a palavra pra quê, se num tem o ralo?)

Então fica aqui o pedido de um tutorial sério, comprometido, real sobre como se lava um banheiro lavando mesmo, sem ser só paninho. E sem ralo.

Grata.

Sobre calcinhas e aceitação

Deixa eu ver seu eu me explico: tem algumas coisas no mundo que alguns países simplesmente fazem melhor do que outros. Então assim, um país começa a fazer uma coisa, e começa a fazer essa coisa muito bem. E os outros países reconhecem isso, tomam aquele pais como referência e começam a fazer mais ou menos igual. Tipo: a Franca com o vinho. Opa! Sucesso. Eles começaram a fazer vinho, há muito tempo atrás, o negócio foi dando certo, dando certo, dando certo e hoje em dia se você pensa em qual deve ser o melhor vinho do mundo, te vem um vinho francês na cabeça. E como isso tem vários exemplos pelo mundo, tipo vodka é a da Russia, o jamón tem que ser ibérico, o melhor iogurte é grego e o melhor marido, alemão. Boa e velha otimização de recursos, sobrevivência do mais forte ou o que quer que seja.

São coisas que com o passar do tempo, o resto do mundo foi vendo que AQUELA maneira que AQUELE país tinha de fazer AQUELA coisa era A melhor maneira. E ponto. Então ótimo, não tem razão pela qual achar isso ruim, ficar com inveja do outro país, insistir na sua versão local que é pior, mas só porque é a sua versão, onde já se viu? Vamos abraçar essa versão melhor que o outro país criou sem drama, bola pra frente.

E eu sempre achei que isso já estava muito estabelecido com a calcinha brasileira.

Todo mundo sabe que por décadas as mulheres Europeias e Americanas viveram nas treeeevas da dualidade entre calçolão e fio dental.

Uma história triste.

De um lado, aquele calçolão de vó, que marcava da maneira mais antiestética qualquer calça ligeiramente mais justa que você botava. Aquela calcinha que sim, era confortável, era acolhedora mas deixava até a Adriana Lima meio brochante.

Do outro, a calcinha fio dental. Uma calcinha que talvez possa ser vista como sexy (nhem.) mas que inevitavelmente ficava entrando dentro do seu ser em tamanha profundidade e com tamanho desconforto que era simplesmente impossível manter o bom humor – e a elegância. Impraticável.

E, enquanto isso, em terras tupiniquins, olhe veja: uma calcinha desenhada à perfeição! Um equilíbrio lindo entre conforto e estética, de uma simplicidade e eficiência surpreendentes, uma ode a compreensão plena do que é o ser feminino no seu âmago mais profundo!!! A calcinha brasileira.

Daí nos últimos anos, globalização, internet, e essa coisa toda divulgou a calcinha brasileira pelo mundo. E o que você esperava? Obviamente a extinção de qualquer outro modelo meia-boca e redondamente inadequado de calcinha. Nunca mais veríamos um calçolão ou alguém vergonhosamente desenterrando uma calcinha fio dental na vida. Certo?

Bom, na Espanha eu te digo que a tendência é bem assim – você ainda encontra alguns modelos calçolões, e algum resquício de fio dental mas o que bomba mesmo é o modelo “brasileñas”. Óbvio.

Pois então essa semana lá vou eu aqui em Boston fazer o que é essa tarefa banal de comprar simples “calcinhas de algodão para repor calcinhas  velhas” e o que eu encontro???

Dúzias e dúzias de calçolões de vovó.

Pilhas de calcinhas fio dental.

Gente, juro eu tentei. Eu rodei muita loja, tentei outlet, loja de lingerie, pensei que talvez na Victoria’s Secrets, que é mais pra frentex eu encontraria alguma versão mais abrasileirada, um modelo experimental… em vão.

E então eu me pergunto, por quê, EUA? Meu povo Americano! Obama!

Vocês são referencia mundial pra tanta coisa! Vocês tem Hollywood! Nasa! A George Foreman grill! Las Vegas!

Por quê não deixar de lado essa bobagem, encarar que nesse quesitozinho tão ínfimo o modelo Americano falhou e assumir de uma vez por todas a superioridade brasileira no design de calcinhas? É hora de deixar pra trás o que não deu certo, o que foi superado, deixar a calcinha brasileira conquistar o espaço que merece nesse país!

Eu deixo aqui o meu apelo. Vai que o Obama lê o post.