Filosofia e a festa no apê

Se eu pudesse recomendar, diria pra todo mundo fazer faculdade de publicidade. Depois vai lá fazer o que você realmente queria fazer como carreira, medicina, engenharia, dançarina do Gugu, mas antes, se dá o prazer de fazer o curso de publicidade.

Tenho certeza de que a grade curricular do curso de publicidade foi escolhida por um cara meio reitor / meio mestre dos magos que decidiu juntar todas as matérias mais prazerosas, divertidas e sem-noção num curso só e ver o que daria. E então você tem criação, sociologia, semiótica, fotografia, umas aulas dentro de um supermercado fictício, ó que bacana – e filosofia.

O que me traz ao meu ponto principal. A filosofia, como se pode imaginar, não tem lá muita aplicação pro dia a dia de marketing em multinacional vendendo espuma de barbear, mas ela é boa pra basicamente todo o resto das situações cotidianas. Aliás, se você não foi convencido a fazer um curso de publicidade de quatro anos pelos meus dois parágrafos iniciais, pelo menos me concede um curso online de filosofia.

Eu sei que numa dessas aulas maravilhosas de filosofia às 7 da manhã eu aprendi o conceito de Utilitarismo. Vamos lá, conceituando as coisas, pessoal, porque blog também é cultura: o Utilitarismo é uma teoria da ética normativa que determina que a melhor ação moral a se fazer é aquela que maximiza a utilidade.

‘Mé que é?

Bom, basicamente diante de uma situação de dilema ético, se deveria somar todo o prazer derivado da situação por todas as pessoas envolvidas e diminuir todo o sofrimento também derivado de todas as pessoas envolvidas e com isso decidir que ação tomar. É uma filosofia que se baseia na felicidade ou no bem comum do maior número de pessoas possível, ainda que uma pessoa tenha que sofrer por isso.

Yes, tem um zilhão de questões morais que derivam dessa filosofia, já que ela se baseia numa visão racional pra estruturar as questões éticas. Tipo: “você deveria torturar uma pessoa se essa tortura pode ajudar a salvar várias vidas”? Ou o clássico exemplo: “você jogaria uma pessoa na frente de um trem para pará-lo se isso o impedisse de ter um acidente que mataria muita gente dali a alguns quilômetros?”

Eu sempre entendi a questão moral por traz destes problemas mas ela nunca me incomodou o suficiente pra eu invalidar a teoria filosófica. Provavelmente porque no fundo eu sabia que as chances de eu estar na situação de ter que torturar alguém ou ter que jogar um gordo na frente de um trem pra salvar geral era menos provável do que o Roberto Justus ter sucesso na carreira de cantor.

E pro resto das situações na vida o Utilitarismo vem me sendo bem… útil. Me faz pensar sempre no coletivo e às vezes abdicar de uns prazerzinhos pequenos – como ouvir Justin Bieber no talo no metrô – pensando no impacto pra maioria de pessoas (entendendo que algumas pessoas talvez possam – imagine só – não pirar no menino Justin).

Só que a filosofia é fácil de aplicar quando o esforçim envolvido é pequeno e não tem realmente um impacto negativo na sua vida. Fim de semana passado eu entendi que pra realmente você colocar à prova uma filosofia de vida ela tem que pisar no seu calo, te encher o saco, dar um tapa na sua zona de conforto. Daí a história muda.

Vem comigo.

Tô eu sabadão passado chegando de um aniversário tranquilo na casa de um amigo lá pela meia noite. Entrando em casa eu já fraguei que estava rolando festinha no meu vizinho de cima – do meu apê se escuta cada passo do apê de cima. Táva um barulho alto e complicado pra dormir. Mas como eu fiz 30 anos há pouco tempo e fico querendo dar uma de “tia bacana pra cima da juventude”, encarei com um “ah gente, a vida é pra ser curtir mesmo, YOLO, que essa molecada se divirta”.

Até lá pelas 3 da manhã.

O que se faz as 3 da manhã quando a festinha parece estar no auge, galera pulando de salto alto no quarto em cima do seu e “I got a feeling” tocando pela quinta vez? Eu táva pra botar pantufa e rodar a baiana com o vizinho sem noção quando me veio o pensamento: devem ter umas 30 pessoas nessa festa, curtido pra caralho, felizes demais. E eu aqui, essa pessoinha só que sou, mal humorada. A felicidade de 30 pessoas menos a infelicidade de 1. Puts. Perdi.

Conformada, botei um tapa ouvidos e foquei nessa pessoa maravilhosa que eu estava sendo, deixando geral se divertir. É verdade que a muvuca acabou logo depois e o dia seguinte era domingo e minha principal atividade do dia seria fazer um review das celebridades no baile do Met, mas essa situação me fez pensar em como a nossa noção de moral é bacana naquela situação mais hipotética do mundo ou quando a gente não tem um sofrimento significativo por conta daquilo. Me fez pensar que a minha filosofia de vida, que eu aplico no dia a dia, não deveria considerar “e se EU tivesse que torturar alguém” ou “e se EU tivesse que jogar uma pessoa na frente de um trem” mas sim “e se ME torturassem ou ME jogassem na frente do trem usando uma justificativa filosófica super legalzona?”

Eu fico aqui pensando que em época de crise política e de preconceito religioso pipocando por aí rola de se botar diariamente nos sapatos do outro. E se você fosse pedido pra sair de um avião porque um passageiro te achou suspeito? Se você acha que o cara que apóia o outro partido não merece o direito ao voto porque ele “obviamente não sabe nada de política”, isso valeria pra você também?

Mas se tiver difícil chegar a uma epifania político-social revolucionária, também rola de começa por pensar no vizinho de baixo baixar o volume do som na festinha do fim de semana. É um primeiro passo.

 

 

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Donald Trump – uma teoria

Ultimamente, a pergunta do milhão dos jornalistas aqui nos EUA – e talvez pelo mundo afora, é: como diabos o Donald Trump consegue se manter na crista da onda da popularidade nessa altura do campeonato? O sujeito sai ofendendo mulheres, mexicanos, muçulmanos e até o Papa mais bacana da história e segue aí com mais prestígio que peru na ceia.

Fui outro dia numa palestra de um jornalista político foda daqui, que segue a Casa Branca há um bizilinhão de anos e entende tudo do riscado e ele foi direto: nenhum jornalista político previu que o Donald Trump chegaria aonde ele está agora.

No princípio, ninguém dava crédito pro cara, um cidadão totalmente inexperiente politicamente, sem nenhuma afiliação concreta com o partido e que errava a mão no jet-bronze: um peixe fora d’água. Daí ele foi ganhando visibilidade aqui, popularidade acolá mas ainda não convencia.

E então ele começou a botar a boca no mundo, Trump style. Já no começo da campanha ele foi escrachadamente machista pra cima de uma jornalista. Parece que nesse momento pessoal que acompanhava política de perto já pensou: “perdeu, playboy” – ou algo nessa linha mas algo menos malaqueiro. Nada. Nosso amigo Donald só ganhou foi eleitorado. Depois ele começou a chamar mexicanos de estupradores, veio com a ideia de construir um muro na fronteira e mandar a conta pros próprios… mexicanos. “Puts, já era, essa foi pedir pra sair.” Não, não – o danado só arrebanhou mais voto pro lado dele. E daí foi uma debandada de ofender, ameaçar processar e peidar-na-mão-e-jogar-na-cara pra cima de qualquer entrevistador, adversário político ou líder religioso que passasse pela frente.

Enfim, quem vê de fora e não cai na lábia do garoto Trump não entende nada: como assim esse cara me faz umas declarações dessas, dá um tapa na luvas no que é ser politicamente correto e é o líder da candidatura do partido Republicano?

Ninguém sabe muito bem explicar. Ninguém decifrou muito bem qualé a fórmula, como cada vez que parece que o barco vai afundar, ele só navega com mais tranquilidade em direção a uma tragédia anunciada de proporções globais. Pois eis aqui a minha teoria.

Eu me baseio em dois fatos absolutamente não relacionados entre si ou relacionados às eleições americanas mas que me fizeram pensar nesse bizarro e sempre tão surpreendente comportamento humano.

O primeiro é um comportamento costumeiro do meu pai: volta e meia ele está vendo um filme na TV eu chego ali na porta do quarto e pergunto: “e aí pai, tá curtindo o filme?” Às vezes ele está dormindo e não me responde, o que não vem ao caso, mas enfim, pra minha surpresa, às vezes ele me fala: “Tá ruim demais, minha filha. Tô assistindo só de raiva”.

Hm.

Observe, meu caro leitor, quanta complexidade e contradição existe neste deliberado comportamento. A lógica diria que “o filme está ruim” + “gosto de assistir filmes bons” = “logo, mudo de canal e paro de assistir o filme”. E no entanto… não. Se tivéssemos que fazer um gráfico sendo o eixo “x – qualidade do filme” e o eixo “y – vontade de assistir”, ele seria mais ou menos assim:

donald trump teoria.jpg

Minha teoria é a de que chega um certo ponto em que o filme está tão absurdamente horroroso que uma parte desconhecida e pouco estudada do nosso cérebro descobre um certo prazer naquela atividade. De tão ruim, mas tão ruim, ele fica… bom. A gente não consegue parar de ver.

Ok, fato dois: tô eu fragando o Instagram por recomendação da minha irmã – que surpreendentemente encontra tempo pra fragar Instagram, sabe-se lá como – e acabo, como não, no perfil de Kim Kardashian. Aliás, ainda escrevo um post com minha teoria de que todos os links da Internet levam em última instância ao Instagram da Kim Kardashian.

O que rola é que a Kim Kardashian posta fotos absurdas no seu Instagram. Tudo é tão absurdamente curado e maquiado e preparado e posado que faz com que o cabelo do Silvio Santos pareça uma ode à naturalidade. Entre o closet com uma quantidade “vergonha-alheia” de roupas pra ir pra academia, à maquiagem de salão-em-dia-de-casamento que ela usa pra ir pegar um Starbucks na esquina às poses semi-nuas provocantes numa periodicidade semanal, é tudo tão absurdo que você não consegue parar de olhar. Você quer ver a próxima foto sem noção, o próximo exagero. Voltando àquela curva do exemplo anterior, ela passa esse umbral de absurdidade extrema e pimba! Te pegou.

Então daí vem a minha teoria sobre o Trump: o sujeito consegue ser tão, mas tão absurdamente polêmico, sem noção, ofensivo, polarizante, extremo, tão da pá virada que ele… prende sua atenção. Quase como quem espera pela 5a temporada de House of Cards, o sujeito se pega esperando pela 2a temporada do Show do Trump – A Presidência. Pra mim ele foi tão rápido passando de “candidato sem chance nenhuma” a “você viu o que que o Trump falou ontem?” que ele conseguiu saltar a impopularidade e o desinteresse e alcançar esse efeito de: “Não gosto. Mas vejo de raiva”. E daí todo mundo, a favor ou contra o Trump se pega vendo debate republicano, lendo entrevista com ele no jornal e tuitando as suas “frases célebres” só pra alimentar essa safada dessa raivinha-prazerosa.

Eu acho que assim ele conseguiu duas vantagens: primeiro, ganhar a atenção da mídia e do público de maneira alucinante, atingindo uma audiência maior do que qualquer campanha paga poderia chegar e aumentando as chances de converter um punhado de gente dentro dessa audiência; e segundo: espetacularizar a campanha. Independente de que se o que ele está falando tem sentido ou não, o público quer manter ele na corrida só pela vontade de ver o que vem pela frente, só pra ver o circo pegar fogo.

E viciada nessa série tragicômica, a população vai encaminhando pra assinar um mês mais de Netflix, digo, escolher o futuro presidente.

 

 

 

Sobre copos de papel e o sonho americano

Não sei se sou só eu, mas olhando de fora, eu pensava que a vida nos EUA não seria tão diferente da vida na Europa. Talvez porque meu olhar brazuca dividia o mundo entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento, daí que o estilo de vida, o conforto e a segurança da galhiera desenvolvida, do hemisfério norte, do G7 ou qualquer outra denominação que tivessem em comum, me fazia achar que era tudo farinha do mesmo saco. Tirando o centro histórico antigão, o jamón de primeira e as festas com touros muitcho loucos correndo soltos pela rua, eu táva achando que minha vida nos EUA seria basicamente como a minha vida na Espanha, só que sem filme dublado no cinema.

Ahh minha gente, vou te falar uma coisa. A vida muda da água pro vinho – ou do vinho pra coca-cola, talvez? – quando se muda da Espanha pros EUA. Tipo, seria como se um gringo achasse que a vida no Peru, no Brasil, no Timor Leste ou em Ghana seria a mesma coisa, só porque são países assim meio na pindaíba e com um clima tropical. Sim, esse nível de nada a ver.

Enfim, esse descobrimento de que qualquer semelhança entre (o sul da) Europa e EUA é mera coincidência não te vem na forma de um tapa na cara quando você desembarca do avião. Não, não. Eu tô falando de pequenez mesmo, coisa miúda do dia a dia que parece besteira, mas que vai acumulando igual uva passa no canto do prato.

Uma delas é a cultura do descartável. Vem aqui pros EUA rapidinho e entra em qualquer lanchonete de esquina. Pede um prato pra comer no restaurante mesmo, sentadinho ali na mesa, nada de take away. Quê que eles vão te trazer? Um lanche servido num prato de papel e um talher de plástico. No refeitório da universidade, centenas e centenas de pessoas comendo todo dia em – prato de papelão, talher descartável e copo de cartolina. Soma isso ao canudinho, devidamente embalado um a um em embalagem de papel e pira na quantidade de lixo que se acumula nesse país a cada dia.

Nem me vem com o argumento de que essa quantidade absurda de embalagem é “mais ecológico” do que a quantidade de água e sabão que se usaria pra lavar um prato que até a Dilma me inventa desculpa melhor que essa. A verdade é que dá uma pena danada ver uma quantidade alucinante de papel se acumulando no lixo no final do almoço na faculdade. E argumentos ecológicos à parte: me diz qualé a graça de tomar um vinho numa taça de plástico ou de ficar espetando a lasanha porque o garfo fubá perdeu uns dois dentes tentando pescar a cenoura?

E eu fico querendo olhar essa experiência aqui nos EUA com um olhar antropológico, “linkar” as coisas pequenas à grande filosofia de vida do país. E vou chegando à conclusão de que essa cultura do descartável é um reflexo muito claro de dois aspectos mais profundos da sociedade – aham, sim, estou tirando conclusões profundas sobre o estilo de vida americano depois de ter passado um ano morando em apenas uma cidade do país e convivendo 90% desse tempo com estrangeiros. É meu blog então é isso aí mesmo.

 

A primeira, é de que essa cultura do descartável reflete como o americano não tem muito essa de cultivar a joie de vivre, o dolce far niente, o “relaxing café con leche” dos países do sul da Europa – quer prova maior do que a falta de expressões gringas pro assunto? Parece que a ideia por aqui é estar sempre on-the-go, sempre indo fazer algo, cumprir um prazo, produzir. Até porque o próprio lugar de se tomar um café com leite e supostamente relaxar – pense num Starbucks ou similar – já virou lugar de trabalho por aqui. A ideia de sentar com os colegas do trabalho pra fazer um almoço de uma hora e “comentar la jugada”, reclamar do cliente sem noção ou discutir os comentários da Glória Pires no Oscar parece completamente despropositada. Não que não exista um coleguismo bacana por aqui, claro que sim. Mas é mais no vapt-vupt. Então tanto faz se o talher é de plástico, o prazer da refeição em si fica mais secundário. Parece que ninguém tá ali só pra curtir o momento, inclusive nos programas de lazer mesmo. Parece que rola um fenômeno de DDA coletivo, onde ninguém tá lá muito concentrado numa coisa só ao mesmo tempo. Já comentei por aqui a quantidade de TV que rola nos restaurantes, o nível alucinante de entretenimento nos intervalos dos jogos de basquete, tem sempre mil estímulos acontecendo ao mesmo tempo e até o momento de ficar de boa tem que ser extremamente entertaining – tipo a tela da Bloomberg, quanto mais conteúdo, melhor. Me parece que não tem muito essa história de só sentar pra tomar uma, pedir um petisco, bebericar um vinho – numa taça de verdade – e deixar a noite passar marota. Até porque depois de cada cerveja o garçom já vai trazer a conta pra mesa – “no pressure, guys”.

A segunda, e mais óbvia, é a ideia de que esse hábito do descartável reflete uma cultura que ao mesmo tempo idolatra e banaliza o consumo. Esse descaso com a quantidade de embalagem que se joga fora pra mim reflete o descaso com o objeto em si. Quebrou? Compra outro no próximo Black Friday. Enjoou da roupa que nunca usou? Chega ali no outlet e compra umas 5 mais. A combinação de uma oferta enorme de produtos relativamente baratos ao fato de que a cada semana você recebe uma oferta de cartão de crédito pré-aprovado pelo correio é um coquetel molotov pro bom senso no consumo. No princípio, eu achava incrível como por aqui é super fácil devolver alguma coisa que você comprou e que simplesmente desistiu de ter. Hoje em dia eu vejo como isso banaliza a compra. Você acaba levando pra casa porque pode trocar quando quiser, então, whatever.

Sigo achando que esse país tem coisas muito fodas, incríveis, legais pra caramba? Sim. Principalmente depois de ter assistido a 4a temporada de House of Cards, é muita competência pra produzir conteúdo, valha-me deus.

Mas também vou vendo aos poucos que esse american dream parecia mais bonito nos filmes de adolescente que eu assistia na sessão da tarde do que na vida real. Tem muita coisa que, de longe, parece lindo – mas vendo de perto assim, pegando na mão mesmo – a gente vê que é tudo meio… descartável.

 

 

O post mais incrível já escrito*

*disclaimer: na opinião do meu pai.

Tenho uma má notícia para quem quer morar em Boston: aqui não se pode lamber paredes. Puts, foda, eu sei. A prática de lamber paredes taí tão difundida por esse mundão afora e o cidadão chega aqui e me encontra um impedimento desses, onde já se viu!?

Achou o parágrafo aí de cima meio surreal!? Eu também. Mas eu de fato tive que assinar um documento, junto com o contrato de aluguel do meu apartamento, dizendo que eu estava consciente do risco de lamber paredes de apartamentos na cidade de Boston, já que a tinta usada nas paredes há uns 90 anos tinha uma quantidade de chumbo que poderia ser nociva para a saúde.

A pergunta que me veio a cabeça foi: qual a chance? Quantas pessoas já devem ter lambido a parede do apartamento pra essa cláusula ter sido incluída no contrato? Minha gente, eu tenho duas sobrinhas de 2 anos e meio: até elas sabem que parede, ao contrário do balanço do parquinho, não se lambe. O negócio é que basta uma pessoa fazer algo que contradiz o bom senso e o pensamento minimamente crítico, se dar mal, processar e ganhar uma grana preta – porque afinal “ninguém me avisou que eu podia queimar a língua com café quente” – pruma enxurrada de situações bizarras entrarem pra lista de disclaimers – ou Avisos Legais – do produto em questão.

Então sim, provavelmente alguém, em algum momento, lambeu uma parede, passou mal pra caceta, achou aquilo o fim da picada e meteu um processo na corretora irresponsável que tinha esquecido de mencionar uma instrução tão relevante.

Ok. A gente assina o documento, sem problemas.

Mas agora imagina a lógica da lambida de parede aplicada a TODOS os produtos e serviços prestados nesse país? Eu entendo que a ideia por trás do disclaimer é, em princípio, proteger o consumidor: é pensando no consumidor que o copo de papel no Dunkin’ Donuts tem um aviso parecido a um “Epa, cuidado! Este café está quente. Café quente pode queimar a língua. Sua língua pode ser queimada por este café”. Mas a gente encontra tanto disclaimer pelo caminho que aquilo já vira ruído branco, vira Facebook de ex-BBB – com o tempo todo mundo deixa de prestar atenção.

Nesse momento a prerrogativa se inverte e o esquema vira um “lavo minhas mãos” por parte do fabricante. Não leu o artigo 118 das condições de risco sobre comer um muffin de chocolate na padaria da esquina e passou mal? Azar o seu. O dono tá cobertinho desde um ponto de vista legal e é isso que importa.

Assumir que todo mundo vai ler todos os avisos – do tipo, “não aproximar este material ao fogo” em letra Arial 5 na etiqueta interior da calça jeans, é um desatino. E acaba tirando o poder de argumentação do consumidor já que ele, em teoria, foi avisado.

Ok, talvez isso não tenha um impacto muito relevante no caso da “lambeção” de parede – querendo acreditar que 99,9% da população já não ia fazer isso mesmo – o bicho pode pegar quando a gente fala de serviço de empréstimo ou hipoteca.

O anúncio de rádio pra esse tipo de serviço por aqui se divide entre 25 segundos de uma mensagem bacana, promissora e confiável, seguidos de 5 segundos em que se cospem 17 disclaimers sobre os riscos do serviço e juros-do-capeta no caso de atraso no pagamento. A ideia é até bacana: é obrigatório que os disclaimers sejam efetivamente locutados por uma pessoa, não pode gravar e botar a fita pra acelerar na hora de passar o anúncio. Mas te juro que os bancos e as seguradoras contratam ex-narrador de rinha de galo pra essas locuções, porque na prática o texto é basicamente ininteligível pros ouvidos do cidadão médio.

O resultado: uma população mal informada e totalmente desprotegida legalmente.

E pra mim essa história toda mostra um lado meio esquisito do modus operandi gringo: em vez de estimular o senso crítico e trabalhar para que cada dia menos pessoas pensem que lamber parede ou tacar uma calça jeans no fogão aceso é uma boa ideia, se decidiu foi tapar o sol com a peneira. O caminho escolhido foi o de simplesmente botar um novo disclaimer na lista a cada processo milionário que um cidadão meio sem noção ganha contra uma empresa. Mas será o benedito, desenvolver o bom senso da população não seria um tiquinho mais eficiente?

Afinal de contas, não estamos falando mais do perigo do meu vizinho não ter senso crítico pra manusear uma calça jeans e acidentalmente tacar fogo no segundo andar do prédio.

Estamos falando que, na falta de senso crítico, ele acidentalmente pode eleger o Trump.

A universal arte do embromation

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Tô aqui eu, pessoa séria e comprometida que sempre fui, sentada na biblioteca tentando encontrar alguma lógica por trás da declinação de adjetivos sem artigos nessa língua delícia que é o alemão e me pego constantemente distraída pela moça sentada na minha frente, duas cadeiras pra direita.

Eu devo estar na biblioteca há umas 3 horas, tempo necessário pra começar a molhar o dedo do pé nos conceitos básicos da gramática alemã e quando eu cheguei a dita menina já estava ali, sentadinha. Livro, caderno e caneta à frente, nossa querida companheira de biblioteca, acredita em mim, me passou todo este tempo teclando no celular, batendo papo. Ok, existe uma pequena possibilidade dela estar lendo Guerra e Paz na telinha do Iphone5, e escrevendo comentários super acadêmicos e fodas, mas eu e você sabemos que ela tá é no Whatsapp, pra não dizer Tinder.

Eu não tenho nenhum problema em passar 3 horas batendo papo no Whatsapp. Ontem mesmo eu vi 4 episódios seguidos de The Office, então ninguém aqui tá podendo jogar pedra no time management alheio. Mas o que eu não sou capaz de entender é porque a pessoa troca de roupa, sai de casa, pega o ônibus, chega na biblioteca, escolhe o livro, abre o caderno e tira a Bic 4 cores da mochila se a intenção era só trocar ideia com os amigos e ler os hashtags do #HappyBirthdayJustinBieber no Twitter. Por quê que faz isso?

Tem um espírito meu de justiça e ‘nerdisse’ que se irrita com o fato de que essa pessoa vai encontrar com o amigo pra almoçar daqui a pouquinho e vai reclamar do tanto que táva ralando na biblioteca nas últimas 3 horas, e daí vai se dar mal pra caralho na prova, o amigo vai achar isso tudo uma injustiça, uma sacanagem, vai arranhar o carro do professor com a chave do escaninho e uma pessoa perfeitamente inocente vai ser mais uma vítima da síndrome da procrastinação disfarçada de trabalho, também conhecida como embromation.

A embromation é um fenômeno antigo e estima-se que 100% da população sofrerá um surto de embromation em algum momento da vida. Seja na sexta-feira às 6:30 da tarde quando você está esperando o chefe te pedir as últimas mudanças (jamais serão) no power point da apresentação de segunda; na quinta-feira no escritório depois do almoço quando a ressaca daquela saideira bater ou naquele trabalho de grupo com o coleguinha que vai acabar refazendo tudo do jeito dele. Mais cedo ou mais tarde, vai rolar.

Mas acontece que o advento do smart phone banalizou a embromation e possibilitou que ela se espalhasse pra âmbitos jamais esperados da nossa sociedade, tipo academias, bate papo no bar ou até no trânsito, pra citar aqui só uns exemplos da ponta da língua.

Fala se não é cada vez mais frequente a cena do sujeito que chega na academia, faz ali um abdominal, 15min de Facebook. Puxa ali um pesinho, bora postar vídeo no Snap. E nessa, a pessoa passa 2 horas na academia, sai com aquela leveza de “malhei demais”, posta um #ralação, #segundaédia, #nopainnogain no Insta e ficou por isso mesmo. Você pode me dizer que 5 abdominais ou 15 minutos caminhando na esteira é melhor que nada, né não? Sim. Mas acontece que o tiro no pé da embromation é que muitas vezes ela deixa o próprio embromador com a sensação de dever cumprido. E daí esse sujeito me sai da academia e manda ver num whopper com batata grande porque ele realmente acredita que malhou como deus manda.

Assim como aquele brother que encontra com a galera pra tomar uma e fica metade do tempo meio ali meio no Whats, meio no Face, meio no Tinder, dá uma passadinha rápida no Insta da Gabriela Pugliese e retwitta um meme engraçadinho do Leonardo DiCaprio no Oscar. Amigo, isso não é passar tempo com as pessoas. Não se engane achando que tá super curtindo a galera, investindo na amizade com o pessoal do colégio, o nome disso é embromation social. E a grande ironia é que, nesse esquema, a vida pode passar a ser uma grande embromation, porque você tá no trabalho falando com os amigos, tá com os amigos respondendo um e-mail do seu pai, tá com o seu pai dando um like na foto da namorada e por aí vai.

Ah, que nostalgia daquele tempo em que embromar era deixar o Excel aberto numa planilha de 2003 e ficar mentalizando o encontro com o paquera no finde.

A embromation deixou de ser um passatempo inofensivo do trabalho e virou um estilo de vida.

E o negócio é o seguinte: a embromation não é bacana pra ninguém. Ok, talvez pro Mark Zuckerberg. Com certeza pro Mark Zuckerberg. Mas além dele, ela só deixa vítimas pelo caminho, é uma tristeza danada. Tanto pra pessoa que tá achando que tá fazendo alguma coisa mas num tá nada, tá só se auto-dando-um tapinha-nas-costas de dever-cumprido e depois vai se frustrar porque o resultado daquele esforço todo não chegou; quanto pras pessoas que tão ali de peito aberto, sem querer saber de embromação, a fim de ter uma conversa bacana, de estudar tranquilo. Porque elas acabam perdendo o tempo conversando com uma pessoa que só te responde “Aham. Top.” ou te distraem de uma coisa séria e bacana que é estudar a declinação de adjetivos sem artigos do alemão pra escrever um post desses, vê só.

Então, o seguinte: você, que já sabe que tem tendência à embromação e está passando por uma fase embromadora, faz um favor: fica em casa. Guarda essa procrastinação safada vestida de interesse e proatividade pra você. Fala pro chefe que acaba a planilha no fim de semana, vai ser melhor pra todo mundo. E não precisa se sentir culpado. A procrastinação é normal, faz parte da vida mesmo.

O perigo é achar que só sair etiquetando #workhardplayhard pela vida afora vai realmente mudar alguma coisa.

 

 

Compro, logo existo

Alguns posts atrás eu falei sobre como os EUA são especialmente foda em viver feriado como nenhum outro lugar. Pode ser Natal, Thanksgiving, Halloween ou o que a Coca-Cola decidir inventar a seguir; esse povo se joga de cabeça na vibe temática e vive aquilo com uma satisfação que dá gosto. Dá pra antecipar qualé o feriado ou a data comemorativa que tá vindo pelo sabor do latte edição limitada no Starbucks, a decoração do supermercado coreano da esquina e pela parafernália de objetos de consumo de teor do mais variado que se encontra na farmácia.

E eu disse que acho sim que isso tudo pode desandar prum consumismo do tinhoso e fazer a gente acumular poeira no armário em cima da geladeira com peru de papel machê, abóbora de plástico e Rudolph de neon. Mas também acho que dá só pra curtir a empolgação americana com feriado sem entrar nessa de comprar bugiganga e sem se endividar caindo na pegadinha do pack especial de dia dos namorados do bistrozinho descolado.

Mas sim, tenho que admitir que a ideia por trás dessa overdose de celebração é motivar o consumo. Pensar em todos os produtos e serviços que poderiam meramente se relacionar com o feriado da vez e botar num pacotinho bacana, subir uma propaganda com a Kendall Jenner no Youtube e – pimba! Fica quase irresistível querer dois de cada.

Na minha inocência, eu considerei que com um tiquim de bom senso, com valores sólidos e com as prioridades arrumadinhas na cabeça qualquer cidadão poderia, de livre e espontânea vontade, se esquivar da tentação de comprar um urso de pelúcia abraçando um coração quando se está pelejando pra pagar o aluguel no fim do mês.

O negócio é que assumir que a grande massa da população teve uma base sólida pra construir esses valores é lorota. Ainda mais morando num país onde a mídia tem um poder do caramba, onde no evento esportivo mais celebrado do ano rola mais comercial do que esporte. A pressão externa é tão absurda que entendo como tem muita gente que acaba cedendo. Acaba aceitando a oferta de – yet another – cartão de crédito que chega pelo correio cada semana e acaba acumulando uma dívida bizonha pra ter aquela satisfaçãozinha tão momentânea do consumo.

O mercado entende isso e o grande desafio vira descobrir como, cada ano, vender mais e mais caro. Aqui nos EUA, como em qualquer outro lugar desse mundão afora, estagnar não é uma opção. E eu achei que, nesse quase ano de viver em terras gringas, já tinha visto de tudo. Não mesmo.

Se há de dar crédito ao povo americano por uma coisa: eita povim creativo.

Um exemplo aqui de Boston – e de quebra uma palhinha de história: aqui foi onde se iniciou o movimento do “Boston Tea Party” em 1773, com os Sons of Liberty jogando no mar o equivalente a $700.000 de chá como maneira de protestar contra a tirania dos impostos ingleses. Pois hoje em dia você pode ir no porto de Boston e – por apenas $25! – reviver a experiência de 1773! Simule que você mesmo está jogando caixas de chá no mar! Fala se não é brilhante? Esse povo não tá de brincadeira não.

Mas o que mais me chamou a atenção, o que me fez entender que não existe limite em se tratando de fazer circular doletas no mercado, rolou no dia dos namorados.

Vai me dizer que você achava uma caixinha de trufas da Cacao Show era um presente bacana? Caiu naquele truque do urso de pelúcia com coração afinal? Shame on you. Para quê comprar rosas se você pode comprar… uma estrela?!

Não é metáfora não, tô falando de estrela mesmo, esses corpos celestes brilhantes que tão aí no céu há tanto tempo dando bobeira pra virar mercadoria.

Pois a partir de $54 você pode “comprar” ou “dar de presente” uma estrela. Ou pelo menos isso é o que a propaganda diz. Na verdade se trata de dar o nome que você quiser a uma estrela aleatória do universo e receber um certificado de que rola uma estrela na profundidade do cosmos (ou provavelmente a luz de uma estrela que já não existe há milhares de anos, aliás) nas coordenadas xyz com o seu nome. Ó que bacana.

Ah, bom, ok, esse é o preço do pacote básico. Por que não fazer logo um upgrade pro deluxe e receber o certificado em uma moldura dourada metálica e um cartão pra levar no bolso com as coordenadas da sua estrela, em caso de emergência? Dá pra comprar constelação e botar o nome de cada membro da família. Bota a coordenada da estrela num pingente de coração, já que tamo nessa mesmo. As oportunidades são tão infinitas como… bom, como o universo mesmo.

Eu sei que enquanto pra muita gente essa oferta disparatada de consumo só atiça aquela vontade de lascar a mão no cartão de crédito, pra mim tem cada vez mais gerado o efeito contrário. Quanto mais eu me dou conta da banalização do consumo, mais eu quero comprar menos. Acho que rola um medo de me deixar levar se eu cedo um pouquinho e uma antipatia de me pegar caindo em tentação sabendo como tá tudo programado pra me fazer escorregar na armadilha. Eu fico sem saber se quero comprar aquele troço mesmo ou se me deixei influenciar de alguma maneira e acabo deixando tudo no provador e indo embora de mão vazia.

Proponho aí o desafio pra quem tá vindo pros EUA de férias, quem vai passar uma semana em NY, uns dias em Miami. Entra nessa não. Pensa bem se você precisa mesmo comprar tanta coisa, vai usar quando? Não tem outro parecido? Volta pra casa com a mesma mala que trouxe, larga mão do outlet e se esmera pra ver as outras mil coisas legais que se pode fazer por aqui.

E se pegar um vôo noturno voltando pra casa, da uma espiada no céu estrelado pela janelinha do avião – aproveita que olhar ainda é de graça.

Felicidade é questão de benchmark

Fim de semana passado eu descobri um fato novo interessante pra dividir com aqui vocês, pessoal: -40 graus é a temperatura onde celsius e fahrenheit se encontram.

Ó que bacana.

E você pode me perguntar, “mas que loucura gente, como é que funciona a equação que relaciona celsius e fahrenheit então?”. Mas o que você deveria estar me perguntando, até porque eu obviamente não teria noção de como te responder uma pergunta dessas, #soudehumanas, é: “why the hell você perdeu tempo pesquisando quanto é -40 graus em celsius, moça?” E a resposta é simples: Google me disse que a sensação térmica em Boston este fim de semana seria de -40 fahrenheit e eu pensei por um segundim só que de repente isso poderia significar +22 em celsius, vai que.

Pois é, não. Resignada e de pé gelado, eu acordei no sábado e fui checar o tempo no aplicativo do celular pra ver se o clima ainda estava humanamente suportável pra sair pra comprar leite condensado pra fazer canjica. É aquele velho ditado: “Se a vida te der -40 graus, faça uma canjica”.

Agora, contexto: em dezembro eu viajei pra Colômbia e, pra ficar a par do clima por lá eu adicionei “Cartagena” à minha lista de cidades no aplicativo de Tempo no celular.

Não façam isso. Jamais.

Cartagena é uma cidadezinha sem-vergonha onde o clima, durante todo o fuckin’ ano, varia entre 26 e 35 graus, com sol. Todo o ano. Spoiler: se você for pra Cartagena nesse inverno, vai fazer 26 graus à noite e 35 graus ao meio dia. Por conta de uma preguiça marota, eu deixei aquela cidade ali, gravadinha na memória do aplicativo do celular. E então cada vez que vou olhar a temperatura em Boston, o que eu encontro é: Cartagena: 28 graus, Boston: -7. Cartagena: 32 graus, Boston: -12. E cada vez que eu penso que tem alguém em Cartagena arrastando havaiana e tomando mojito enquanto eu tô me mumificando em cachecol pra ir ao supermercado da esquina eu fico um tiquim mais triste. Não é uma tristeza profunda não, é só aquele mini-segundo mesmo de bater-mindinho-na-esquina-da-mesa, depilar-canela-com-cera-fria que logo vai embora. Mas acontece cada vez.

Ok. Voltemos ao sábado de manhã. De saco cheio dessa raivinha diária – principalmente por saber que Boston nem no verão vai se vingar de Cartagena, resolvi adotar uma nova tática: lasquei o delete em “Cartagena: 34 graus” e busquei uma cidade ali no meio da Sibéria, que fossa razoavelmente habitada e que tivesse um inverno nos trinques: Novosibirsk. Um milhão e meio de pessoas moram nessa beleza de cidade. Um milhão e meio de pessoas estão, agora, a -22 graus. Boston: -5, Novosibirsk: -22. Boston: -12, Novosibirsk: -28.

Muahaha!!

Desde então, tô de lua de mel com Boston. Que clima mais agradável. Temperatura amena. Que sorte a minha! Em Novosibirsk, sol nasce: 11AM. Sol se põe: 11:17AM. E Boston com essa claridade até 4 da tarde, que luxo!

Agora observe, meu caro leitor, que básica, ingênua e cretina é a felicidade humana. Observem que absolutamente NADA mudou nas circunstâncias do meu dia a dia. Não é que tá fazendo mais calor em Boston, percebe? Só mudei o benchmark, a base de comparação mesmo. Na tentativa de me aclimatar a esse inverno do tinhoso, olhe veja: descobri um atalho mutreta pra felicidade!

“Então, ok, mas o que eu posso tirar disso se eu moro em Belo Horizonte, Barcelona ou Palmas e não preciso me comparar com Novosibirsk pra ficar feliz sobre a temperatura na minha cidade?”

Aí que tá. O negocio é que a técnica do benchmark pode ser utilizada pra tudo nessa vida. E digo mais, ela JÁ modela nossa visão de felicidade sem a gente saber. Truco que a maioria de nós, que chegou até este post através do Facebook sofre com a exposição silenciosa ao “benchmark destrutivo”, que pouco a pouco – no caso, post a post – faz com que a gente pense que a nossa vida é a menos legal, nossas férias as menos bacanas e nossos amigos os menos parceiros de shot de tequila.

Essa filtrada de informação que rola através do Facebook-da-vez faz com que a vida alheia seja uma constante Cartagena enquanto a nossa é Boston no inverno. E não é justo isso, porque, por lógica, veja bem, se muitos de nós sentimos isso, isso não pode ser verdade. Mas como ninguém posta o momento “Peidando de cueca vendo reprise de Seinfield” e todo mundo posta “Fim de semana com os melhores amigos do mundo esquiando nos alpes suíços” a gente fica com aquele ranço no fundo da garganta de que a nossa vida é meio… medíocre.

E eu acho que o maior problema aqui é que a gente não se dá conta disso. Até eu trocar o Cartagena por Novosibirsk eu não tinha percebido o tanto que aquela comparação estava afetando o meu humor no dia a dia. E eu acho que aqueles 15 minutos de patinar o indicador na timeline podem parecer inofensivo mas eles são perverso pra caramba. Cada mochilão alheio pela Europa, cada amigo que curte um job novo do trabalho como quem curte o aniversário do sobrinho, cada Fulanito que corre 5,3km com Nike vai acumulando uma tristezinha que, na minha opinião, contribui pra uma geração inteira se pressionando pra “viver intensamente”, “trabalhar com o que ama”, “ser feliz hoje como se fosse o último dia da vida”. Porque nessa história a gente se ilude que tem muita gente, ou pior – muito dos nossos amigos, os nossos colegas da faculdade, o cara da baia do lado – que está o tempo todo surfando na crista da onda dessa vida.

Te contar uma coisa: um bocado de gente que mora em Cartagena de vez em quando fica de saco cheio do calor. Então assim, vamos parar de fantasiar que a vida alheia é – só – maravilhosa em 3,2,1?

Ah, claro, mas como faz? Rola de adicionar aquele conhecido que passa férias em num hotel fazenda em Brumadinho pra se sentir melhor sobre seu carnaval pra Cabo Frio? Ok. Rola de convidar o amigo desempregado pra te fazer mais felizim no Linkedin? Adiciona lá meu perfil!

Mas enquanto eu acho que a tática é eficaz (íssima!) pra apaziguar o mau-humor com o inverno, aconselho algo mais longo-prazo pras questões mais importantes da vida: se compara menos com o amigo do colégio, especula menos sobre a vida alheia, deleta o aplicativo do facebook do celular e… olha que bonito – seja seu próprio benchmark!

É possível?! Confere, produção?! Hell, yeah!!

Tá se sentindo meio “socorro, acordei em Boston no inverno”? Pensa o tanto que você cresceu no trabalho desde que o chefe sem noção entrou no ano passado; pega como seu espanhol melhorou desde que você começou a assistir Narcos; gasta um pouquinho mais de tempo revendo fotos de viagens boas antigas do que no Instagram da Giovanna Ewbank; se compara menos com o amigo que é profissa no snowboard e lembra que pra quem há um ano tremia nas bases quando botava um esqui, descer a pista de criança é foda pra caralho (se precisar de benchmark pra se sentir melhor no esqui, tenho uns vídeos pessoais que eu posso te mandar).

E eu sei que isso tem cheiro de papo nostálgico de “antes do iphone todo mundo era brother no metrô” mas não é nada disso, não acho que a culpa é toda do menino Zuckerberg. Acho que esse impulso de se comparar com o coleguinha do lado faz parte da natureza humana mesmo, só que com facebook e instagram fica mais fácil o acesso à “intimidade” alheia e à recauchutada da imagem que a gente projeta, então a gente precisa fazer um esforço maior pra vida do vizinho não ocupar muito espaço no nosso imaginário.

Mas enfim, se nada disso der certo, meu amigo, não se avexe: compra um vôo pra Cartagena que tudo se resolve.

 

Pão, Circo e um tiquim de conteúdo

Eu sempre soube que os EUA era o país do entretenimento.

Afinal a Xuxa e a vovó Mafalda (que, por sinal, era homem, pra quem acha que cross-dressing é coisa de millenial) moldaram a minha personalidade e os meus valores tanto quanto os filmes de polícia do Steve Martin ou aquele da orca assassina vingadora, que me faz ter medo de entrar no mar até hoje.

Mas morando aqui e vivendo o dia a dia desse lugarzinho maravilhoso que é a Americaaa, eu descobri que eu não entendia nada do poder do entretenimento desse povo. A premissa aqui é que tudo é passível de se tornar uma grande fonte de diversão, muito além do que você poderia imaginar. Basicamente, a indústria do entretenimento não se limita a Hollywood e Netflix. Ela é a base, o pano de fundo pras outras indústrias, o arroz com feijão que se combina com qualquer outro ingrediente pra deixar tudo mais divertido, interessante e, na maioria das vezes, comercializável.

Vem cumigo.

 

Evidência número 1: Jogo de hockey do Boston Bruins, TD Garden Arena, Outubro de 2015.

Na teoria segundo a qual eu vivo em atualmente, de que “quem tá na chuva é pra se molhar”, decido ir num jogo de hockey do time aqui de Boston. Não tinha muito ideia do que esperar, nunca tinha visto um jogo de hockey na vida, só tinha chegado até o curling. Minha imagem mental de como seria a partida se resumia ao resultado da equação: jogo do Galo quarta à noite no Mineirão + Gelo. O PF viraria frango frito, mas fora isso, nada fora da normalidade.

Pois então.

Entramos num estádio que deve ter uns 17 andares. Ou 4. Enfim, tudo de mármore, escada rolante e ar condicionado. A cada andar, uma variedade de restaurantes e de lojas dos times não está no gibi – coisa do nível do terminal novo de Guarulhos, pra se botar um benchmark, veja bem. Era como entrar num parque temático da Disney, o Magic Kingdom do hockey.

A partir daí você se dá conta de que o hockey em si é meio secundário. Das duas horas que você passa no estádio, rolam uns 30 minutos de jogo. O resto é show de abertura, show do intervalo, música no talo cada vez que marca gol, só falta Bel entrar num trio elétrico pra virar Axé Brasil. Tem o momento da plateia aparecer no telão, rola uma partida curta entre talentos mirins do hockey, you name it. Tudo, claro, devidamente patrocinado. Pra falar a verdade é uma experiência legal. Tipo, não tem como não ser. O negócio tá programado pra te entreter, pra te manter ligado, pra te seduzir. É a metáfora perfeita do fast food: um exagero tamanho de sal, açúcar e ketchup que não tem como não ser gostoso.

 

Evidência número 2: Final do campeonato de futebol americano universitário. Alabama vs Clemson, 11 de janeiro de 2016. Audiência: 26 milhões de pessoas.

Sim, minha gente, time de esporte de universidade aqui tem mais audiência que a novela da Record. Parece que uns 80 milhões de americanos seguem a liga de futebol americano de universidade regularmente. What!? Tipo além do trabalho, do tempo com a família, do Netflix, da academia e de atualizar o Instagram, 80 milhões de pessoas ainda têm tempo pra seguir o desempenho do Nebraska University futebol clube? Tá de brincadeira comigo. Não sei se foi só minha experiência e tô aqui achando isso tudo muitcho louco, mas pra mim o time da faculdade existe pra gente ir nos Jogos Universitários uma vez por ano, zoar no alojamento e tomar Skol no beer bong.

Eu me dei conta de que esse jogo táva rolando porque passei por acaso na frente de um bar e parecia final de copa do mundo: bar lotado e geral delirando em dois times que, observe, nada têm a ver com Boston. Explica isso? Pois sim, veja só, aqui a liga universitária é mega patrocinada, os estádios mega lotados, rola uma mega audiência e tem sujeito pagando até $300 doletas (nem queira multiplicar pra real…) pra ver um jogo desses. Mais uma vez, Estados Unidos fanfarrão pegando uma coisa que seria bobinha em qualquer outro lugar do mundo e transformando num mega evento em sua fantástica fábrica do entretenimento.

 

Evidência número 3: Debate entre os candidatos à presidência pelo partido republicano, 6 de agosto de 2015.

Ai minha nossa senhora. Eu precisava era fazer um blog paralelo pra cobrir as eleições e dar vazão pra tanto balacobaco junto.

Esse foi o primeiro debate da campanha e rolou um longo burburinho pré-debate, especulação de final de novela mesmo. Eu criei tanta expectativa com isso tudo que assisti o debate no telão, tomando cerveja, comendo pipoca e me jogando na enxurrada de comentários/gifs/memes da cara laranja do Donald Trump no Twitter.

Expectativas a parte, te conto que eleições aqui são mais glamourizadas que final de BBB. Um puta de um show de câmeras, luz, música – estatísticas durante o intervalo com dados reais de buscas no Google sobre os temas sobre os quais os políticos estão comentando. Participação de vloggers famosos fazendo perguntas sobre como os políticos vão engajar com a população jovem; uma plateia que parece animada pelo Roque e um país inteiro dando pitaco pela Internet. E, se perdeu um debate, sem problemas: chega ali depois no Youtube e você vai encontrar vídeos com títulos como “O momento mais vergonhoso de Hillary” ou “O discurso que fez Obama ganhar as eleições”. Tudo bem empacotadinho, do jeito que o consumidor gosta.

 

Eu tenho pensado muito em tudo que isso tudo representa e tem uma parte grande de mim que acha esse troço todo muito estranho, que acha bizarro como tudo acaba ficando industrializado, comoditizado, como tudo tem que ser awesome, fantastic, amazing ou the most shameful – a vida só é bacana no superlativo. E isso é, pra mim, indiscutivelmente uma coisa ruim.

Mas daí também eu comecei a fragar o meu próprio comportamento diante disso tudo. Você acaba sendo atraído sim a ver um jogo de futebol da liga universitária, que seja pra ver se é grande coisa mesmo. Você acaba clicando no “coolest debate ever”, porque com um título desse… né? E querendo ou não eu acabei sim me inteirando assim de coisas sobre a política daqui e me interessando sobre os temas pra querer ir mais a fundo. Querendo ou não, “ser super legal ser jogador de futebol na faculdade” faz o pessoal se interessar por esporte desde cedo.

Enfim, tô querendo jogar um pouco de advogada do diabo aqui, porque que criticar esse sistema da necessidade constante de awesomeness é fácil e eu acordei a fim de ver copo meio cheio. E eu sei que tem milhões de coisas negativas que podem vir disso, mas fiquei pensando, não tem um tiquim só que seja de lado positivo nisso? Não é também uma maneira de dar o açúcar pra criança tomar o remédio? Não?

É muito otimista da minha parte pensar que por trás disso pode existir algo bacana além de “Toma pão e circo por enquanto minha gente, que controle de armas, igualdade social e saúde pública vai demorar um bocadinho mais pra sair”?

Assunto sério, urgente e importante

A gente as vezes utiliza nossa capacidade criativa prumas coisas que não têm muito sentido, não é mesmo? Elas podem até ser engraçadinhas, simpáticas, te fazem dar aquele “hen” acompanhado de um sorriso amarelo, enquanto você está perdido em algum lugar obscuro da sua timeline mas elas não mudam muito a nossa vida.

Tipo os memes da Renata Sorrah roubando a taça da copa do mundo depois do jogo contra a Alemanha ou o vídeo no Youtube da Dilma falando sobre “estocar vento” versão remix. Diz se aquilo tem algum impacto na vida?! Tem não. E ainda assim alguém passou uma quantidade boa de tempo fazendo aquilo, um tempo que poderia ter sido empregado pra tipo fazer coleta seletiva, pruma discussão realmente profunda sobre política, pra fazer tutorial de como se lava banheiro sem ralo. Quantas árvores poderiam ter sido plantadas naquele tempo, eu me pergunto!? Mas daí eu penso que a gente também precisa desse bom humor, a gente precisa ter um vídeo desses guardado no celular pra ficar vendo no mute durante a convenção de vendas da empresa. Pode não ser o propósito mais nobre, mas ele tem lá seu sentido.

Mas tem umas coisas que a gente pode tentar olhar com a melhor boa vontade do mundo, mas que simplesmente não tem como encontrar um sentido praquilo. Algumas coisas pras quais a gente deve falar: chega, humanidade. Pa-rô, pessoal. Vamos deixar agora de tentar ser criativo com isso e ficar inventando moda porque isso não tá levando a absolutamente lugar nenhum.

Pois bem, desde que cheguei nos EUA, eu tenho percebido a diversidade descabida de criatividade e tecnologia aplicadas a banheiros públicos que rola por aqui. Desde o sinal de Homem/Mulher da porta, até métodos dos mais variados de descarga, maneiras impensáveis de se abrir uma torneira e sistemas mil pra se secar as mãos. E eu fiquei pensando aqui por que o pobre coitado do banheiro atrai tanto capital criativo? Que ânsia é essa das galera do design de expressar o espírito inovador o “thinking out of the box” justo no lavabo? Por que isso?

Então vamos lá, vamos dar uma analisada e estabelecer umas regras aqui porque o negócio ta descambando e tá passando da hora de alguém fazer alguma coisa a respeito.

Primeiro: Indicador de banheiro feminino e masculino. Como fazer? Vamos estabelecer aqui de uma vez por todas: homem/mulher. Ou feminino/masculino. No máximo damas/cavalheiros, porque já começa aí a ficar uma rocambolescada desnecessária, até porque qual foi a última vez que você comentou que “Aquele cavalheiro ali roubou meu lugar na fila” não é mesmo? Então não vale eles/elas, azul/rosa, desenho de flor de pupunha/cravo da Índia. Não tem porque. A regra tá estabelecida já, ela não precisa ser melhorada. Todo mundo entende, ninguém quer ser surpreendido com um desenhozinho gracioso porém confuso de um flamingo no pôr-do-sol e ter que tentar adivinhar se tá entrando no lugar certo. O-key?! Diretor de criação, cancela o job: mete ali um homem/mulher em letra Arial 36 e morreu assunto.

Mas isso não é nada. Porque a cada banheiro que você entrar, você vai se deparar com certeza com uma tecnologia nova, que era pra ser super bacana, prática e higiênica mas que no fundo só te impede de fazer um xixizinho ali em paz.

Aqui nos EUA por exemplo tá rolando bem uma fase de descargas automáticas. Pipocando descarga com sensor pra tudo quanto é canto. Aham, ótima ideia. Imagino a reunião de diretoria no silicon valley com a galera do departamento de engenharia apresentando essa grande inovação pro diretor de marketing. Aplausos, lágrimas de emoção. Teve alguém que virou CEO por causa da descarga com sensor com certeza absoluta. Na prática, te conto que uma das duas opções vão acontecer: ou a descarga vai ser acionada 8 vezes durante os 45 segundos do seu xixi, espirrando água adoidado, ou você vai ter ficar sambando na frente da privada por uns bons minutos até ter a sorte de ativar o famigerado do sensor.

“Ok, vambora, vamo lavar a mão e sair desse lugar pelo amor de deus”.

Quem disse?

A inovação maior, o foco máximo da criatividade e esforço da engenharia do século 21, não é self-driving-car, meu amigo, nem nada de Google glass, nada disso. É configuração de pia de banheiro público.

MEU DEUS.

Eu comecei a contar desde a semana passada e já vi 17 maneiras diferentes de se abrir uma torneira em banheiros públicos por aqui: tem o sensorzinho também, tecnologia queridinha dos designers de banheiro, ao parecer. Tem o que você aperta e daí: ou fica rolando água, sem parar, e não tem como fazer parar e você fica mal com o desperdício absurdo de água que você ta causando; ou sai aquele fiozinho minguado de água que só ajuda a fazer mais espuma no sabonete e melecar a mão. Tem um que você puxa um pino pra cima. O old school, que você abre mesmo. O que ativa com o pé – com certeza o hit da convenção de designers de banheiro de 2009. Mas o problema não é tanto que eles normalmente não funcionam bem. O problema é que você não consegue identificar de cara diante de qual tecnologia você está e fica meio que rebolando a mão, meio apertando tudo, meio tentando um comando de voz até que acaba desistindo e ficou por mesmo. Tá pegando a seriedade do assunto?! Questão de higiene e saúde pública.

Enfim, queridos amigos do design. Engenheiros do meu coração. Faz isso não. Seja a voz da mudança na sua comunidade e diga: basta! Vamo parar de inventar coisa inútil, tanto talento, gente! Vamos aplicar tipo na popularização da energia solar, numa caneta bic que não estoura na bolsa, numa função search pro chat do whatsapp.

Vamos parar de perder tempo e vamos usar nossa vida pra resolver alguma questão realmente urgente, séria e importante pra sociedade.

Tipo esse post, por exemplo.

O dia em que eu descobri que Belo Horizonte é Nova Iorque


Belo Horizonte é uma cidade bacana pra se morar quando se é criança. Ela tem ali seus pontos fracos, como qualquer lugar, mas é um lugar legal. Rola um clima de cidade grande mas ao mesmo tempo tá tudo logo ali meio perto; tem sempre padaria com Todinho e pastel de queijo no caminho entre sua casa e a escola de balé; tem capivara na lagoa da Pampulha; tem voo direto pra Cabo Frio. Enfim, vantagens das mais variadas.

E daí você vai crescendo, viaja um pouco aqui, vai numa exposição bacana em SP acolá e BH começa a ficar pequena. Você percebe que acaba indo sempre nos mesmos lugares, com as mesmas pessoas, fazendo a mesma coisa: tomando cerveja, petiscando amendoim e trocando ideia sobre a questão 2 da prova de geografia. E você começa a fantasiar sobre um mundão maravilhoso lá fora, onde pessoas realizam feitos grandiosos, fazem programas incrivelmente legais e variados e tem papos geniais sobre o futuro da humanidade.

Tem uma parte sua que tem uma invejinha de quem tem a sorte de curtir uma vida espetacular neste outro mundo. Mas tem outra parte que já se satisfaz só de pensar que ele existe.

Daí você sai de BH.

No meu caso, eu fui pra São Paulo, e, adivinha só: tapa de luvas, por supuesto.

Spoiler alert para quem nunca morou em SP. Lá também as pessoas estão sempre com os mesmos amigos, nos mesmos lugares, tomando cerveja breja, petiscando amendoim e discutindo a questão 3 da prova de sociologia. Só muda um tiquim o sotaque mesmo.

Então aquela sensação gostosa de “o mundo é um bufê de comida japonesa, e eu só tenho que sair de BH pra curtir a vida adoidado” já foi por agua abaixo. SP pode ter mais opções de coisas pra fazer sim, mas na essência não deixa de ser uma versão maiorzona de BH.

Daí você sai de SP.

Ok, ok, não moro em NY, mas moro em Boston, que tá a uma distancia relativamente pequena de lá (mais perto que BH – Cabo Frio, pra se ter uma referência), fui algumas vezes de visita na cidade no último ano e fico mais por dentro do que rola na cidade desde que moro aqui.

Acho que quando morava em BH, pensar em NY era como ter 15 anos e olhar pro seu primo bacanão de 27 achando que ele era a pessoa mais legal do mundo. Você sonhava em um dia chegar lá e, quando chegasse, tudo seria fluido, lindo, perfumado e bem sucedido. Até que você chega aos 27 e vê que não tem nada disso.

Ainda em BH, lembro de abrir o Jornal da Pampulha – um semanário grátis com as últimas noticias e frissons da vida belo-horizontina – no domingo de manhã, chegar à seção de “Casamentos” e ter, naquele momento, a certeza de que BH era a cidade mais provinciana do planeta.

Porquê? Bom, a descrição dos casamentos no jornal ia mais ou menos assim: “A bela fulanita, filha do juiz fulanito e da jornalista fulanita brilhou em um espetacular desenho da maison Aguida Chaves em suntuosa celebração no Buffet Catarina neste sábado. O descontraído noivo…”. Enfim, segue uma elaborada descrição de como os noivos “abrilhantaram a pista” na “recepção digna de um filme de Hollywood”. Pegou um tom meio cafona e um bairrismo excessivo?

Aquilo pra mim era a prova máxima, o “I rest my case” de que, tristeza do destino: BH era, de fato, incrivelmente provinciana e, por tanto, um fim de mundo. A seção de Casamentos do Jornal da Pampulha me garantia de que nada de fantástico, incrível e maravilhoso poderia acontecer em BH.

Pois eis que, já em Boston, pra mostrar toda minha erudição e interesse pelas notícias do mundo aos meus vizinhos do prédio, eu começo a assinar o jornal New York Times do domingo.

E eis que no domingo passado, às exatas 10:37AM, sentada placidamente na poltrona da sala, café com leite em mãos, abro a seção Sunday Styles do jornal. Minutos depois, chego à pagina 11.

Neste momento, olhe bem, me deparo com o seguinte texto, em tradução livre: “A jovem fulanita, filha de fulanito, sócio na firma de advogados x e da fulanita, diretora de eventos da Universidade x, se casou neste sábado em uma belíssima cerimônia com Ciclanito. Um seleto grupo de elegantes convidados compareceu à idílica recepção ao cair da tarde na propriedade do avô da noiva, um importante magnata da indústria local…”

Oh. No.

Neste momento me dei conta de que era questão de traduzir o New York Times pro português, trocar a tal “firma de advogados x” por “MRV Engenharia” e de repente Nova Iorque se mostrou tão bairrista quanto… BH.

Por um lado, uma tristeza: nada disso de mundão lá fora pra ser descoberto. Esse sentimento provinciano é tão meu quanto do sujeito que mora num loft bacana no Brooklin e que deve ler ressabiado a página 11 do Sunday Styles todo domingo.

Por outro, um alívio: não tem essa de se preocupar em ir morar em NY, Paris ou Singapura pra poder viver uma vida fantástica como deus manda. Esse tal “mundão maravilhoso” é a gente mesmo quem faz, dentro do nosso próprio mundinho provinciano mesmo, onde quer que seja.

Em BH, SP, NY ou Cabo Frio.