Filosofia e a festa no apê

Se eu pudesse recomendar, diria pra todo mundo fazer faculdade de publicidade. Depois vai lá fazer o que você realmente queria fazer como carreira, medicina, engenharia, dançarina do Gugu, mas antes, se dá o prazer de fazer o curso de publicidade.

Tenho certeza de que a grade curricular do curso de publicidade foi escolhida por um cara meio reitor / meio mestre dos magos que decidiu juntar todas as matérias mais prazerosas, divertidas e sem-noção num curso só e ver o que daria. E então você tem criação, sociologia, semiótica, fotografia, umas aulas dentro de um supermercado fictício, ó que bacana – e filosofia.

O que me traz ao meu ponto principal. A filosofia, como se pode imaginar, não tem lá muita aplicação pro dia a dia de marketing em multinacional vendendo espuma de barbear, mas ela é boa pra basicamente todo o resto das situações cotidianas. Aliás, se você não foi convencido a fazer um curso de publicidade de quatro anos pelos meus dois parágrafos iniciais, pelo menos me concede um curso online de filosofia.

Eu sei que numa dessas aulas maravilhosas de filosofia às 7 da manhã eu aprendi o conceito de Utilitarismo. Vamos lá, conceituando as coisas, pessoal, porque blog também é cultura: o Utilitarismo é uma teoria da ética normativa que determina que a melhor ação moral a se fazer é aquela que maximiza a utilidade.

‘Mé que é?

Bom, basicamente diante de uma situação de dilema ético, se deveria somar todo o prazer derivado da situação por todas as pessoas envolvidas e diminuir todo o sofrimento também derivado de todas as pessoas envolvidas e com isso decidir que ação tomar. É uma filosofia que se baseia na felicidade ou no bem comum do maior número de pessoas possível, ainda que uma pessoa tenha que sofrer por isso.

Yes, tem um zilhão de questões morais que derivam dessa filosofia, já que ela se baseia numa visão racional pra estruturar as questões éticas. Tipo: “você deveria torturar uma pessoa se essa tortura pode ajudar a salvar várias vidas”? Ou o clássico exemplo: “você jogaria uma pessoa na frente de um trem para pará-lo se isso o impedisse de ter um acidente que mataria muita gente dali a alguns quilômetros?”

Eu sempre entendi a questão moral por traz destes problemas mas ela nunca me incomodou o suficiente pra eu invalidar a teoria filosófica. Provavelmente porque no fundo eu sabia que as chances de eu estar na situação de ter que torturar alguém ou ter que jogar um gordo na frente de um trem pra salvar geral era menos provável do que o Roberto Justus ter sucesso na carreira de cantor.

E pro resto das situações na vida o Utilitarismo vem me sendo bem… útil. Me faz pensar sempre no coletivo e às vezes abdicar de uns prazerzinhos pequenos – como ouvir Justin Bieber no talo no metrô – pensando no impacto pra maioria de pessoas (entendendo que algumas pessoas talvez possam – imagine só – não pirar no menino Justin).

Só que a filosofia é fácil de aplicar quando o esforçim envolvido é pequeno e não tem realmente um impacto negativo na sua vida. Fim de semana passado eu entendi que pra realmente você colocar à prova uma filosofia de vida ela tem que pisar no seu calo, te encher o saco, dar um tapa na sua zona de conforto. Daí a história muda.

Vem comigo.

Tô eu sabadão passado chegando de um aniversário tranquilo na casa de um amigo lá pela meia noite. Entrando em casa eu já fraguei que estava rolando festinha no meu vizinho de cima – do meu apê se escuta cada passo do apê de cima. Táva um barulho alto e complicado pra dormir. Mas como eu fiz 30 anos há pouco tempo e fico querendo dar uma de “tia bacana pra cima da juventude”, encarei com um “ah gente, a vida é pra ser curtir mesmo, YOLO, que essa molecada se divirta”.

Até lá pelas 3 da manhã.

O que se faz as 3 da manhã quando a festinha parece estar no auge, galera pulando de salto alto no quarto em cima do seu e “I got a feeling” tocando pela quinta vez? Eu táva pra botar pantufa e rodar a baiana com o vizinho sem noção quando me veio o pensamento: devem ter umas 30 pessoas nessa festa, curtido pra caralho, felizes demais. E eu aqui, essa pessoinha só que sou, mal humorada. A felicidade de 30 pessoas menos a infelicidade de 1. Puts. Perdi.

Conformada, botei um tapa ouvidos e foquei nessa pessoa maravilhosa que eu estava sendo, deixando geral se divertir. É verdade que a muvuca acabou logo depois e o dia seguinte era domingo e minha principal atividade do dia seria fazer um review das celebridades no baile do Met, mas essa situação me fez pensar em como a nossa noção de moral é bacana naquela situação mais hipotética do mundo ou quando a gente não tem um sofrimento significativo por conta daquilo. Me fez pensar que a minha filosofia de vida, que eu aplico no dia a dia, não deveria considerar “e se EU tivesse que torturar alguém” ou “e se EU tivesse que jogar uma pessoa na frente de um trem” mas sim “e se ME torturassem ou ME jogassem na frente do trem usando uma justificativa filosófica super legalzona?”

Eu fico aqui pensando que em época de crise política e de preconceito religioso pipocando por aí rola de se botar diariamente nos sapatos do outro. E se você fosse pedido pra sair de um avião porque um passageiro te achou suspeito? Se você acha que o cara que apóia o outro partido não merece o direito ao voto porque ele “obviamente não sabe nada de política”, isso valeria pra você também?

Mas se tiver difícil chegar a uma epifania político-social revolucionária, também rola de começa por pensar no vizinho de baixo baixar o volume do som na festinha do fim de semana. É um primeiro passo.

 

 

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