Donald Trump – uma teoria

Ultimamente, a pergunta do milhão dos jornalistas aqui nos EUA – e talvez pelo mundo afora, é: como diabos o Donald Trump consegue se manter na crista da onda da popularidade nessa altura do campeonato? O sujeito sai ofendendo mulheres, mexicanos, muçulmanos e até o Papa mais bacana da história e segue aí com mais prestígio que peru na ceia.

Fui outro dia numa palestra de um jornalista político foda daqui, que segue a Casa Branca há um bizilinhão de anos e entende tudo do riscado e ele foi direto: nenhum jornalista político previu que o Donald Trump chegaria aonde ele está agora.

No princípio, ninguém dava crédito pro cara, um cidadão totalmente inexperiente politicamente, sem nenhuma afiliação concreta com o partido e que errava a mão no jet-bronze: um peixe fora d’água. Daí ele foi ganhando visibilidade aqui, popularidade acolá mas ainda não convencia.

E então ele começou a botar a boca no mundo, Trump style. Já no começo da campanha ele foi escrachadamente machista pra cima de uma jornalista. Parece que nesse momento pessoal que acompanhava política de perto já pensou: “perdeu, playboy” – ou algo nessa linha mas algo menos malaqueiro. Nada. Nosso amigo Donald só ganhou foi eleitorado. Depois ele começou a chamar mexicanos de estupradores, veio com a ideia de construir um muro na fronteira e mandar a conta pros próprios… mexicanos. “Puts, já era, essa foi pedir pra sair.” Não, não – o danado só arrebanhou mais voto pro lado dele. E daí foi uma debandada de ofender, ameaçar processar e peidar-na-mão-e-jogar-na-cara pra cima de qualquer entrevistador, adversário político ou líder religioso que passasse pela frente.

Enfim, quem vê de fora e não cai na lábia do garoto Trump não entende nada: como assim esse cara me faz umas declarações dessas, dá um tapa na luvas no que é ser politicamente correto e é o líder da candidatura do partido Republicano?

Ninguém sabe muito bem explicar. Ninguém decifrou muito bem qualé a fórmula, como cada vez que parece que o barco vai afundar, ele só navega com mais tranquilidade em direção a uma tragédia anunciada de proporções globais. Pois eis aqui a minha teoria.

Eu me baseio em dois fatos absolutamente não relacionados entre si ou relacionados às eleições americanas mas que me fizeram pensar nesse bizarro e sempre tão surpreendente comportamento humano.

O primeiro é um comportamento costumeiro do meu pai: volta e meia ele está vendo um filme na TV eu chego ali na porta do quarto e pergunto: “e aí pai, tá curtindo o filme?” Às vezes ele está dormindo e não me responde, o que não vem ao caso, mas enfim, pra minha surpresa, às vezes ele me fala: “Tá ruim demais, minha filha. Tô assistindo só de raiva”.

Hm.

Observe, meu caro leitor, quanta complexidade e contradição existe neste deliberado comportamento. A lógica diria que “o filme está ruim” + “gosto de assistir filmes bons” = “logo, mudo de canal e paro de assistir o filme”. E no entanto… não. Se tivéssemos que fazer um gráfico sendo o eixo “x – qualidade do filme” e o eixo “y – vontade de assistir”, ele seria mais ou menos assim:

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Minha teoria é a de que chega um certo ponto em que o filme está tão absurdamente horroroso que uma parte desconhecida e pouco estudada do nosso cérebro descobre um certo prazer naquela atividade. De tão ruim, mas tão ruim, ele fica… bom. A gente não consegue parar de ver.

Ok, fato dois: tô eu fragando o Instagram por recomendação da minha irmã – que surpreendentemente encontra tempo pra fragar Instagram, sabe-se lá como – e acabo, como não, no perfil de Kim Kardashian. Aliás, ainda escrevo um post com minha teoria de que todos os links da Internet levam em última instância ao Instagram da Kim Kardashian.

O que rola é que a Kim Kardashian posta fotos absurdas no seu Instagram. Tudo é tão absurdamente curado e maquiado e preparado e posado que faz com que o cabelo do Silvio Santos pareça uma ode à naturalidade. Entre o closet com uma quantidade “vergonha-alheia” de roupas pra ir pra academia, à maquiagem de salão-em-dia-de-casamento que ela usa pra ir pegar um Starbucks na esquina às poses semi-nuas provocantes numa periodicidade semanal, é tudo tão absurdo que você não consegue parar de olhar. Você quer ver a próxima foto sem noção, o próximo exagero. Voltando àquela curva do exemplo anterior, ela passa esse umbral de absurdidade extrema e pimba! Te pegou.

Então daí vem a minha teoria sobre o Trump: o sujeito consegue ser tão, mas tão absurdamente polêmico, sem noção, ofensivo, polarizante, extremo, tão da pá virada que ele… prende sua atenção. Quase como quem espera pela 5a temporada de House of Cards, o sujeito se pega esperando pela 2a temporada do Show do Trump – A Presidência. Pra mim ele foi tão rápido passando de “candidato sem chance nenhuma” a “você viu o que que o Trump falou ontem?” que ele conseguiu saltar a impopularidade e o desinteresse e alcançar esse efeito de: “Não gosto. Mas vejo de raiva”. E daí todo mundo, a favor ou contra o Trump se pega vendo debate republicano, lendo entrevista com ele no jornal e tuitando as suas “frases célebres” só pra alimentar essa safada dessa raivinha-prazerosa.

Eu acho que assim ele conseguiu duas vantagens: primeiro, ganhar a atenção da mídia e do público de maneira alucinante, atingindo uma audiência maior do que qualquer campanha paga poderia chegar e aumentando as chances de converter um punhado de gente dentro dessa audiência; e segundo: espetacularizar a campanha. Independente de que se o que ele está falando tem sentido ou não, o público quer manter ele na corrida só pela vontade de ver o que vem pela frente, só pra ver o circo pegar fogo.

E viciada nessa série tragicômica, a população vai encaminhando pra assinar um mês mais de Netflix, digo, escolher o futuro presidente.

 

 

 

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Sobre copos de papel e o sonho americano

Não sei se sou só eu, mas olhando de fora, eu pensava que a vida nos EUA não seria tão diferente da vida na Europa. Talvez porque meu olhar brazuca dividia o mundo entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento, daí que o estilo de vida, o conforto e a segurança da galhiera desenvolvida, do hemisfério norte, do G7 ou qualquer outra denominação que tivessem em comum, me fazia achar que era tudo farinha do mesmo saco. Tirando o centro histórico antigão, o jamón de primeira e as festas com touros muitcho loucos correndo soltos pela rua, eu táva achando que minha vida nos EUA seria basicamente como a minha vida na Espanha, só que sem filme dublado no cinema.

Ahh minha gente, vou te falar uma coisa. A vida muda da água pro vinho – ou do vinho pra coca-cola, talvez? – quando se muda da Espanha pros EUA. Tipo, seria como se um gringo achasse que a vida no Peru, no Brasil, no Timor Leste ou em Ghana seria a mesma coisa, só porque são países assim meio na pindaíba e com um clima tropical. Sim, esse nível de nada a ver.

Enfim, esse descobrimento de que qualquer semelhança entre (o sul da) Europa e EUA é mera coincidência não te vem na forma de um tapa na cara quando você desembarca do avião. Não, não. Eu tô falando de pequenez mesmo, coisa miúda do dia a dia que parece besteira, mas que vai acumulando igual uva passa no canto do prato.

Uma delas é a cultura do descartável. Vem aqui pros EUA rapidinho e entra em qualquer lanchonete de esquina. Pede um prato pra comer no restaurante mesmo, sentadinho ali na mesa, nada de take away. Quê que eles vão te trazer? Um lanche servido num prato de papel e um talher de plástico. No refeitório da universidade, centenas e centenas de pessoas comendo todo dia em – prato de papelão, talher descartável e copo de cartolina. Soma isso ao canudinho, devidamente embalado um a um em embalagem de papel e pira na quantidade de lixo que se acumula nesse país a cada dia.

Nem me vem com o argumento de que essa quantidade absurda de embalagem é “mais ecológico” do que a quantidade de água e sabão que se usaria pra lavar um prato que até a Dilma me inventa desculpa melhor que essa. A verdade é que dá uma pena danada ver uma quantidade alucinante de papel se acumulando no lixo no final do almoço na faculdade. E argumentos ecológicos à parte: me diz qualé a graça de tomar um vinho numa taça de plástico ou de ficar espetando a lasanha porque o garfo fubá perdeu uns dois dentes tentando pescar a cenoura?

E eu fico querendo olhar essa experiência aqui nos EUA com um olhar antropológico, “linkar” as coisas pequenas à grande filosofia de vida do país. E vou chegando à conclusão de que essa cultura do descartável é um reflexo muito claro de dois aspectos mais profundos da sociedade – aham, sim, estou tirando conclusões profundas sobre o estilo de vida americano depois de ter passado um ano morando em apenas uma cidade do país e convivendo 90% desse tempo com estrangeiros. É meu blog então é isso aí mesmo.

 

A primeira, é de que essa cultura do descartável reflete como o americano não tem muito essa de cultivar a joie de vivre, o dolce far niente, o “relaxing café con leche” dos países do sul da Europa – quer prova maior do que a falta de expressões gringas pro assunto? Parece que a ideia por aqui é estar sempre on-the-go, sempre indo fazer algo, cumprir um prazo, produzir. Até porque o próprio lugar de se tomar um café com leite e supostamente relaxar – pense num Starbucks ou similar – já virou lugar de trabalho por aqui. A ideia de sentar com os colegas do trabalho pra fazer um almoço de uma hora e “comentar la jugada”, reclamar do cliente sem noção ou discutir os comentários da Glória Pires no Oscar parece completamente despropositada. Não que não exista um coleguismo bacana por aqui, claro que sim. Mas é mais no vapt-vupt. Então tanto faz se o talher é de plástico, o prazer da refeição em si fica mais secundário. Parece que ninguém tá ali só pra curtir o momento, inclusive nos programas de lazer mesmo. Parece que rola um fenômeno de DDA coletivo, onde ninguém tá lá muito concentrado numa coisa só ao mesmo tempo. Já comentei por aqui a quantidade de TV que rola nos restaurantes, o nível alucinante de entretenimento nos intervalos dos jogos de basquete, tem sempre mil estímulos acontecendo ao mesmo tempo e até o momento de ficar de boa tem que ser extremamente entertaining – tipo a tela da Bloomberg, quanto mais conteúdo, melhor. Me parece que não tem muito essa história de só sentar pra tomar uma, pedir um petisco, bebericar um vinho – numa taça de verdade – e deixar a noite passar marota. Até porque depois de cada cerveja o garçom já vai trazer a conta pra mesa – “no pressure, guys”.

A segunda, e mais óbvia, é a ideia de que esse hábito do descartável reflete uma cultura que ao mesmo tempo idolatra e banaliza o consumo. Esse descaso com a quantidade de embalagem que se joga fora pra mim reflete o descaso com o objeto em si. Quebrou? Compra outro no próximo Black Friday. Enjoou da roupa que nunca usou? Chega ali no outlet e compra umas 5 mais. A combinação de uma oferta enorme de produtos relativamente baratos ao fato de que a cada semana você recebe uma oferta de cartão de crédito pré-aprovado pelo correio é um coquetel molotov pro bom senso no consumo. No princípio, eu achava incrível como por aqui é super fácil devolver alguma coisa que você comprou e que simplesmente desistiu de ter. Hoje em dia eu vejo como isso banaliza a compra. Você acaba levando pra casa porque pode trocar quando quiser, então, whatever.

Sigo achando que esse país tem coisas muito fodas, incríveis, legais pra caramba? Sim. Principalmente depois de ter assistido a 4a temporada de House of Cards, é muita competência pra produzir conteúdo, valha-me deus.

Mas também vou vendo aos poucos que esse american dream parecia mais bonito nos filmes de adolescente que eu assistia na sessão da tarde do que na vida real. Tem muita coisa que, de longe, parece lindo – mas vendo de perto assim, pegando na mão mesmo – a gente vê que é tudo meio… descartável.