O post mais incrível já escrito*

*disclaimer: na opinião do meu pai.

Tenho uma má notícia para quem quer morar em Boston: aqui não se pode lamber paredes. Puts, foda, eu sei. A prática de lamber paredes taí tão difundida por esse mundão afora e o cidadão chega aqui e me encontra um impedimento desses, onde já se viu!?

Achou o parágrafo aí de cima meio surreal!? Eu também. Mas eu de fato tive que assinar um documento, junto com o contrato de aluguel do meu apartamento, dizendo que eu estava consciente do risco de lamber paredes de apartamentos na cidade de Boston, já que a tinta usada nas paredes há uns 90 anos tinha uma quantidade de chumbo que poderia ser nociva para a saúde.

A pergunta que me veio a cabeça foi: qual a chance? Quantas pessoas já devem ter lambido a parede do apartamento pra essa cláusula ter sido incluída no contrato? Minha gente, eu tenho duas sobrinhas de 2 anos e meio: até elas sabem que parede, ao contrário do balanço do parquinho, não se lambe. O negócio é que basta uma pessoa fazer algo que contradiz o bom senso e o pensamento minimamente crítico, se dar mal, processar e ganhar uma grana preta – porque afinal “ninguém me avisou que eu podia queimar a língua com café quente” – pruma enxurrada de situações bizarras entrarem pra lista de disclaimers – ou Avisos Legais – do produto em questão.

Então sim, provavelmente alguém, em algum momento, lambeu uma parede, passou mal pra caceta, achou aquilo o fim da picada e meteu um processo na corretora irresponsável que tinha esquecido de mencionar uma instrução tão relevante.

Ok. A gente assina o documento, sem problemas.

Mas agora imagina a lógica da lambida de parede aplicada a TODOS os produtos e serviços prestados nesse país? Eu entendo que a ideia por trás do disclaimer é, em princípio, proteger o consumidor: é pensando no consumidor que o copo de papel no Dunkin’ Donuts tem um aviso parecido a um “Epa, cuidado! Este café está quente. Café quente pode queimar a língua. Sua língua pode ser queimada por este café”. Mas a gente encontra tanto disclaimer pelo caminho que aquilo já vira ruído branco, vira Facebook de ex-BBB – com o tempo todo mundo deixa de prestar atenção.

Nesse momento a prerrogativa se inverte e o esquema vira um “lavo minhas mãos” por parte do fabricante. Não leu o artigo 118 das condições de risco sobre comer um muffin de chocolate na padaria da esquina e passou mal? Azar o seu. O dono tá cobertinho desde um ponto de vista legal e é isso que importa.

Assumir que todo mundo vai ler todos os avisos – do tipo, “não aproximar este material ao fogo” em letra Arial 5 na etiqueta interior da calça jeans, é um desatino. E acaba tirando o poder de argumentação do consumidor já que ele, em teoria, foi avisado.

Ok, talvez isso não tenha um impacto muito relevante no caso da “lambeção” de parede – querendo acreditar que 99,9% da população já não ia fazer isso mesmo – o bicho pode pegar quando a gente fala de serviço de empréstimo ou hipoteca.

O anúncio de rádio pra esse tipo de serviço por aqui se divide entre 25 segundos de uma mensagem bacana, promissora e confiável, seguidos de 5 segundos em que se cospem 17 disclaimers sobre os riscos do serviço e juros-do-capeta no caso de atraso no pagamento. A ideia é até bacana: é obrigatório que os disclaimers sejam efetivamente locutados por uma pessoa, não pode gravar e botar a fita pra acelerar na hora de passar o anúncio. Mas te juro que os bancos e as seguradoras contratam ex-narrador de rinha de galo pra essas locuções, porque na prática o texto é basicamente ininteligível pros ouvidos do cidadão médio.

O resultado: uma população mal informada e totalmente desprotegida legalmente.

E pra mim essa história toda mostra um lado meio esquisito do modus operandi gringo: em vez de estimular o senso crítico e trabalhar para que cada dia menos pessoas pensem que lamber parede ou tacar uma calça jeans no fogão aceso é uma boa ideia, se decidiu foi tapar o sol com a peneira. O caminho escolhido foi o de simplesmente botar um novo disclaimer na lista a cada processo milionário que um cidadão meio sem noção ganha contra uma empresa. Mas será o benedito, desenvolver o bom senso da população não seria um tiquinho mais eficiente?

Afinal de contas, não estamos falando mais do perigo do meu vizinho não ter senso crítico pra manusear uma calça jeans e acidentalmente tacar fogo no segundo andar do prédio.

Estamos falando que, na falta de senso crítico, ele acidentalmente pode eleger o Trump.

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