Compro, logo existo

Alguns posts atrás eu falei sobre como os EUA são especialmente foda em viver feriado como nenhum outro lugar. Pode ser Natal, Thanksgiving, Halloween ou o que a Coca-Cola decidir inventar a seguir; esse povo se joga de cabeça na vibe temática e vive aquilo com uma satisfação que dá gosto. Dá pra antecipar qualé o feriado ou a data comemorativa que tá vindo pelo sabor do latte edição limitada no Starbucks, a decoração do supermercado coreano da esquina e pela parafernália de objetos de consumo de teor do mais variado que se encontra na farmácia.

E eu disse que acho sim que isso tudo pode desandar prum consumismo do tinhoso e fazer a gente acumular poeira no armário em cima da geladeira com peru de papel machê, abóbora de plástico e Rudolph de neon. Mas também acho que dá só pra curtir a empolgação americana com feriado sem entrar nessa de comprar bugiganga e sem se endividar caindo na pegadinha do pack especial de dia dos namorados do bistrozinho descolado.

Mas sim, tenho que admitir que a ideia por trás dessa overdose de celebração é motivar o consumo. Pensar em todos os produtos e serviços que poderiam meramente se relacionar com o feriado da vez e botar num pacotinho bacana, subir uma propaganda com a Kendall Jenner no Youtube e – pimba! Fica quase irresistível querer dois de cada.

Na minha inocência, eu considerei que com um tiquim de bom senso, com valores sólidos e com as prioridades arrumadinhas na cabeça qualquer cidadão poderia, de livre e espontânea vontade, se esquivar da tentação de comprar um urso de pelúcia abraçando um coração quando se está pelejando pra pagar o aluguel no fim do mês.

O negócio é que assumir que a grande massa da população teve uma base sólida pra construir esses valores é lorota. Ainda mais morando num país onde a mídia tem um poder do caramba, onde no evento esportivo mais celebrado do ano rola mais comercial do que esporte. A pressão externa é tão absurda que entendo como tem muita gente que acaba cedendo. Acaba aceitando a oferta de – yet another – cartão de crédito que chega pelo correio cada semana e acaba acumulando uma dívida bizonha pra ter aquela satisfaçãozinha tão momentânea do consumo.

O mercado entende isso e o grande desafio vira descobrir como, cada ano, vender mais e mais caro. Aqui nos EUA, como em qualquer outro lugar desse mundão afora, estagnar não é uma opção. E eu achei que, nesse quase ano de viver em terras gringas, já tinha visto de tudo. Não mesmo.

Se há de dar crédito ao povo americano por uma coisa: eita povim creativo.

Um exemplo aqui de Boston – e de quebra uma palhinha de história: aqui foi onde se iniciou o movimento do “Boston Tea Party” em 1773, com os Sons of Liberty jogando no mar o equivalente a $700.000 de chá como maneira de protestar contra a tirania dos impostos ingleses. Pois hoje em dia você pode ir no porto de Boston e – por apenas $25! – reviver a experiência de 1773! Simule que você mesmo está jogando caixas de chá no mar! Fala se não é brilhante? Esse povo não tá de brincadeira não.

Mas o que mais me chamou a atenção, o que me fez entender que não existe limite em se tratando de fazer circular doletas no mercado, rolou no dia dos namorados.

Vai me dizer que você achava uma caixinha de trufas da Cacao Show era um presente bacana? Caiu naquele truque do urso de pelúcia com coração afinal? Shame on you. Para quê comprar rosas se você pode comprar… uma estrela?!

Não é metáfora não, tô falando de estrela mesmo, esses corpos celestes brilhantes que tão aí no céu há tanto tempo dando bobeira pra virar mercadoria.

Pois a partir de $54 você pode “comprar” ou “dar de presente” uma estrela. Ou pelo menos isso é o que a propaganda diz. Na verdade se trata de dar o nome que você quiser a uma estrela aleatória do universo e receber um certificado de que rola uma estrela na profundidade do cosmos (ou provavelmente a luz de uma estrela que já não existe há milhares de anos, aliás) nas coordenadas xyz com o seu nome. Ó que bacana.

Ah, bom, ok, esse é o preço do pacote básico. Por que não fazer logo um upgrade pro deluxe e receber o certificado em uma moldura dourada metálica e um cartão pra levar no bolso com as coordenadas da sua estrela, em caso de emergência? Dá pra comprar constelação e botar o nome de cada membro da família. Bota a coordenada da estrela num pingente de coração, já que tamo nessa mesmo. As oportunidades são tão infinitas como… bom, como o universo mesmo.

Eu sei que enquanto pra muita gente essa oferta disparatada de consumo só atiça aquela vontade de lascar a mão no cartão de crédito, pra mim tem cada vez mais gerado o efeito contrário. Quanto mais eu me dou conta da banalização do consumo, mais eu quero comprar menos. Acho que rola um medo de me deixar levar se eu cedo um pouquinho e uma antipatia de me pegar caindo em tentação sabendo como tá tudo programado pra me fazer escorregar na armadilha. Eu fico sem saber se quero comprar aquele troço mesmo ou se me deixei influenciar de alguma maneira e acabo deixando tudo no provador e indo embora de mão vazia.

Proponho aí o desafio pra quem tá vindo pros EUA de férias, quem vai passar uma semana em NY, uns dias em Miami. Entra nessa não. Pensa bem se você precisa mesmo comprar tanta coisa, vai usar quando? Não tem outro parecido? Volta pra casa com a mesma mala que trouxe, larga mão do outlet e se esmera pra ver as outras mil coisas legais que se pode fazer por aqui.

E se pegar um vôo noturno voltando pra casa, da uma espiada no céu estrelado pela janelinha do avião – aproveita que olhar ainda é de graça.

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