Felicidade é questão de benchmark

Fim de semana passado eu descobri um fato novo interessante pra dividir com aqui vocês, pessoal: -40 graus é a temperatura onde celsius e fahrenheit se encontram.

Ó que bacana.

E você pode me perguntar, “mas que loucura gente, como é que funciona a equação que relaciona celsius e fahrenheit então?”. Mas o que você deveria estar me perguntando, até porque eu obviamente não teria noção de como te responder uma pergunta dessas, #soudehumanas, é: “why the hell você perdeu tempo pesquisando quanto é -40 graus em celsius, moça?” E a resposta é simples: Google me disse que a sensação térmica em Boston este fim de semana seria de -40 fahrenheit e eu pensei por um segundim só que de repente isso poderia significar +22 em celsius, vai que.

Pois é, não. Resignada e de pé gelado, eu acordei no sábado e fui checar o tempo no aplicativo do celular pra ver se o clima ainda estava humanamente suportável pra sair pra comprar leite condensado pra fazer canjica. É aquele velho ditado: “Se a vida te der -40 graus, faça uma canjica”.

Agora, contexto: em dezembro eu viajei pra Colômbia e, pra ficar a par do clima por lá eu adicionei “Cartagena” à minha lista de cidades no aplicativo de Tempo no celular.

Não façam isso. Jamais.

Cartagena é uma cidadezinha sem-vergonha onde o clima, durante todo o fuckin’ ano, varia entre 26 e 35 graus, com sol. Todo o ano. Spoiler: se você for pra Cartagena nesse inverno, vai fazer 26 graus à noite e 35 graus ao meio dia. Por conta de uma preguiça marota, eu deixei aquela cidade ali, gravadinha na memória do aplicativo do celular. E então cada vez que vou olhar a temperatura em Boston, o que eu encontro é: Cartagena: 28 graus, Boston: -7. Cartagena: 32 graus, Boston: -12. E cada vez que eu penso que tem alguém em Cartagena arrastando havaiana e tomando mojito enquanto eu tô me mumificando em cachecol pra ir ao supermercado da esquina eu fico um tiquim mais triste. Não é uma tristeza profunda não, é só aquele mini-segundo mesmo de bater-mindinho-na-esquina-da-mesa, depilar-canela-com-cera-fria que logo vai embora. Mas acontece cada vez.

Ok. Voltemos ao sábado de manhã. De saco cheio dessa raivinha diária – principalmente por saber que Boston nem no verão vai se vingar de Cartagena, resolvi adotar uma nova tática: lasquei o delete em “Cartagena: 34 graus” e busquei uma cidade ali no meio da Sibéria, que fossa razoavelmente habitada e que tivesse um inverno nos trinques: Novosibirsk. Um milhão e meio de pessoas moram nessa beleza de cidade. Um milhão e meio de pessoas estão, agora, a -22 graus. Boston: -5, Novosibirsk: -22. Boston: -12, Novosibirsk: -28.

Muahaha!!

Desde então, tô de lua de mel com Boston. Que clima mais agradável. Temperatura amena. Que sorte a minha! Em Novosibirsk, sol nasce: 11AM. Sol se põe: 11:17AM. E Boston com essa claridade até 4 da tarde, que luxo!

Agora observe, meu caro leitor, que básica, ingênua e cretina é a felicidade humana. Observem que absolutamente NADA mudou nas circunstâncias do meu dia a dia. Não é que tá fazendo mais calor em Boston, percebe? Só mudei o benchmark, a base de comparação mesmo. Na tentativa de me aclimatar a esse inverno do tinhoso, olhe veja: descobri um atalho mutreta pra felicidade!

“Então, ok, mas o que eu posso tirar disso se eu moro em Belo Horizonte, Barcelona ou Palmas e não preciso me comparar com Novosibirsk pra ficar feliz sobre a temperatura na minha cidade?”

Aí que tá. O negocio é que a técnica do benchmark pode ser utilizada pra tudo nessa vida. E digo mais, ela JÁ modela nossa visão de felicidade sem a gente saber. Truco que a maioria de nós, que chegou até este post através do Facebook sofre com a exposição silenciosa ao “benchmark destrutivo”, que pouco a pouco – no caso, post a post – faz com que a gente pense que a nossa vida é a menos legal, nossas férias as menos bacanas e nossos amigos os menos parceiros de shot de tequila.

Essa filtrada de informação que rola através do Facebook-da-vez faz com que a vida alheia seja uma constante Cartagena enquanto a nossa é Boston no inverno. E não é justo isso, porque, por lógica, veja bem, se muitos de nós sentimos isso, isso não pode ser verdade. Mas como ninguém posta o momento “Peidando de cueca vendo reprise de Seinfield” e todo mundo posta “Fim de semana com os melhores amigos do mundo esquiando nos alpes suíços” a gente fica com aquele ranço no fundo da garganta de que a nossa vida é meio… medíocre.

E eu acho que o maior problema aqui é que a gente não se dá conta disso. Até eu trocar o Cartagena por Novosibirsk eu não tinha percebido o tanto que aquela comparação estava afetando o meu humor no dia a dia. E eu acho que aqueles 15 minutos de patinar o indicador na timeline podem parecer inofensivo mas eles são perverso pra caramba. Cada mochilão alheio pela Europa, cada amigo que curte um job novo do trabalho como quem curte o aniversário do sobrinho, cada Fulanito que corre 5,3km com Nike vai acumulando uma tristezinha que, na minha opinião, contribui pra uma geração inteira se pressionando pra “viver intensamente”, “trabalhar com o que ama”, “ser feliz hoje como se fosse o último dia da vida”. Porque nessa história a gente se ilude que tem muita gente, ou pior – muito dos nossos amigos, os nossos colegas da faculdade, o cara da baia do lado – que está o tempo todo surfando na crista da onda dessa vida.

Te contar uma coisa: um bocado de gente que mora em Cartagena de vez em quando fica de saco cheio do calor. Então assim, vamos parar de fantasiar que a vida alheia é – só – maravilhosa em 3,2,1?

Ah, claro, mas como faz? Rola de adicionar aquele conhecido que passa férias em num hotel fazenda em Brumadinho pra se sentir melhor sobre seu carnaval pra Cabo Frio? Ok. Rola de convidar o amigo desempregado pra te fazer mais felizim no Linkedin? Adiciona lá meu perfil!

Mas enquanto eu acho que a tática é eficaz (íssima!) pra apaziguar o mau-humor com o inverno, aconselho algo mais longo-prazo pras questões mais importantes da vida: se compara menos com o amigo do colégio, especula menos sobre a vida alheia, deleta o aplicativo do facebook do celular e… olha que bonito – seja seu próprio benchmark!

É possível?! Confere, produção?! Hell, yeah!!

Tá se sentindo meio “socorro, acordei em Boston no inverno”? Pensa o tanto que você cresceu no trabalho desde que o chefe sem noção entrou no ano passado; pega como seu espanhol melhorou desde que você começou a assistir Narcos; gasta um pouquinho mais de tempo revendo fotos de viagens boas antigas do que no Instagram da Giovanna Ewbank; se compara menos com o amigo que é profissa no snowboard e lembra que pra quem há um ano tremia nas bases quando botava um esqui, descer a pista de criança é foda pra caralho (se precisar de benchmark pra se sentir melhor no esqui, tenho uns vídeos pessoais que eu posso te mandar).

E eu sei que isso tem cheiro de papo nostálgico de “antes do iphone todo mundo era brother no metrô” mas não é nada disso, não acho que a culpa é toda do menino Zuckerberg. Acho que esse impulso de se comparar com o coleguinha do lado faz parte da natureza humana mesmo, só que com facebook e instagram fica mais fácil o acesso à “intimidade” alheia e à recauchutada da imagem que a gente projeta, então a gente precisa fazer um esforço maior pra vida do vizinho não ocupar muito espaço no nosso imaginário.

Mas enfim, se nada disso der certo, meu amigo, não se avexe: compra um vôo pra Cartagena que tudo se resolve.

 

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