Assunto sério, urgente e importante

A gente as vezes utiliza nossa capacidade criativa prumas coisas que não têm muito sentido, não é mesmo? Elas podem até ser engraçadinhas, simpáticas, te fazem dar aquele “hen” acompanhado de um sorriso amarelo, enquanto você está perdido em algum lugar obscuro da sua timeline mas elas não mudam muito a nossa vida.

Tipo os memes da Renata Sorrah roubando a taça da copa do mundo depois do jogo contra a Alemanha ou o vídeo no Youtube da Dilma falando sobre “estocar vento” versão remix. Diz se aquilo tem algum impacto na vida?! Tem não. E ainda assim alguém passou uma quantidade boa de tempo fazendo aquilo, um tempo que poderia ter sido empregado pra tipo fazer coleta seletiva, pruma discussão realmente profunda sobre política, pra fazer tutorial de como se lava banheiro sem ralo. Quantas árvores poderiam ter sido plantadas naquele tempo, eu me pergunto!? Mas daí eu penso que a gente também precisa desse bom humor, a gente precisa ter um vídeo desses guardado no celular pra ficar vendo no mute durante a convenção de vendas da empresa. Pode não ser o propósito mais nobre, mas ele tem lá seu sentido.

Mas tem umas coisas que a gente pode tentar olhar com a melhor boa vontade do mundo, mas que simplesmente não tem como encontrar um sentido praquilo. Algumas coisas pras quais a gente deve falar: chega, humanidade. Pa-rô, pessoal. Vamos deixar agora de tentar ser criativo com isso e ficar inventando moda porque isso não tá levando a absolutamente lugar nenhum.

Pois bem, desde que cheguei nos EUA, eu tenho percebido a diversidade descabida de criatividade e tecnologia aplicadas a banheiros públicos que rola por aqui. Desde o sinal de Homem/Mulher da porta, até métodos dos mais variados de descarga, maneiras impensáveis de se abrir uma torneira e sistemas mil pra se secar as mãos. E eu fiquei pensando aqui por que o pobre coitado do banheiro atrai tanto capital criativo? Que ânsia é essa das galera do design de expressar o espírito inovador o “thinking out of the box” justo no lavabo? Por que isso?

Então vamos lá, vamos dar uma analisada e estabelecer umas regras aqui porque o negócio ta descambando e tá passando da hora de alguém fazer alguma coisa a respeito.

Primeiro: Indicador de banheiro feminino e masculino. Como fazer? Vamos estabelecer aqui de uma vez por todas: homem/mulher. Ou feminino/masculino. No máximo damas/cavalheiros, porque já começa aí a ficar uma rocambolescada desnecessária, até porque qual foi a última vez que você comentou que “Aquele cavalheiro ali roubou meu lugar na fila” não é mesmo? Então não vale eles/elas, azul/rosa, desenho de flor de pupunha/cravo da Índia. Não tem porque. A regra tá estabelecida já, ela não precisa ser melhorada. Todo mundo entende, ninguém quer ser surpreendido com um desenhozinho gracioso porém confuso de um flamingo no pôr-do-sol e ter que tentar adivinhar se tá entrando no lugar certo. O-key?! Diretor de criação, cancela o job: mete ali um homem/mulher em letra Arial 36 e morreu assunto.

Mas isso não é nada. Porque a cada banheiro que você entrar, você vai se deparar com certeza com uma tecnologia nova, que era pra ser super bacana, prática e higiênica mas que no fundo só te impede de fazer um xixizinho ali em paz.

Aqui nos EUA por exemplo tá rolando bem uma fase de descargas automáticas. Pipocando descarga com sensor pra tudo quanto é canto. Aham, ótima ideia. Imagino a reunião de diretoria no silicon valley com a galera do departamento de engenharia apresentando essa grande inovação pro diretor de marketing. Aplausos, lágrimas de emoção. Teve alguém que virou CEO por causa da descarga com sensor com certeza absoluta. Na prática, te conto que uma das duas opções vão acontecer: ou a descarga vai ser acionada 8 vezes durante os 45 segundos do seu xixi, espirrando água adoidado, ou você vai ter ficar sambando na frente da privada por uns bons minutos até ter a sorte de ativar o famigerado do sensor.

“Ok, vambora, vamo lavar a mão e sair desse lugar pelo amor de deus”.

Quem disse?

A inovação maior, o foco máximo da criatividade e esforço da engenharia do século 21, não é self-driving-car, meu amigo, nem nada de Google glass, nada disso. É configuração de pia de banheiro público.

MEU DEUS.

Eu comecei a contar desde a semana passada e já vi 17 maneiras diferentes de se abrir uma torneira em banheiros públicos por aqui: tem o sensorzinho também, tecnologia queridinha dos designers de banheiro, ao parecer. Tem o que você aperta e daí: ou fica rolando água, sem parar, e não tem como fazer parar e você fica mal com o desperdício absurdo de água que você ta causando; ou sai aquele fiozinho minguado de água que só ajuda a fazer mais espuma no sabonete e melecar a mão. Tem um que você puxa um pino pra cima. O old school, que você abre mesmo. O que ativa com o pé – com certeza o hit da convenção de designers de banheiro de 2009. Mas o problema não é tanto que eles normalmente não funcionam bem. O problema é que você não consegue identificar de cara diante de qual tecnologia você está e fica meio que rebolando a mão, meio apertando tudo, meio tentando um comando de voz até que acaba desistindo e ficou por mesmo. Tá pegando a seriedade do assunto?! Questão de higiene e saúde pública.

Enfim, queridos amigos do design. Engenheiros do meu coração. Faz isso não. Seja a voz da mudança na sua comunidade e diga: basta! Vamo parar de inventar coisa inútil, tanto talento, gente! Vamos aplicar tipo na popularização da energia solar, numa caneta bic que não estoura na bolsa, numa função search pro chat do whatsapp.

Vamos parar de perder tempo e vamos usar nossa vida pra resolver alguma questão realmente urgente, séria e importante pra sociedade.

Tipo esse post, por exemplo.

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