Como dar feedback, American style

Como bem já se sabe, o sistema de encontrar trabalho a la american style não tem sido lá meu amigo e entre uma enviada de currículo e outra (#euaindaacreditonoRH), eu tenho muito tempo pra ir em aula, palestra, conferência, torneio de buraco e – meu tipo de evento preferido: apresentação de livro.

Mas vejam bem, não estou falando de evento tipo coquetel, happy hour, noite de autógrafos ou qualquer nome que se queira botar pros eventos estilo “vem aqui comprar meu livro que o folhado de camarão é por minha conta”.

O que rola é o seguinte: você chega lá, numa livraria qualquer, e não tem nada de aperitivo. Fica todo mundo sentado enquanto o autor lê uns trechos do livro, botando o tom dele na leitura, fazendo uns comentários de pé de página que não estão no pé de página, meio que interpretando os personagens do livro mesmo. É bacana. Mas até aí ok, nada demais.

Mas é que daí depois disso eles abrem o espaço pra perguntas. Ah… as perguntas.

Antes de continuar, um parênteses: pra mim tem várias coisas da cultura americana que não fazem muito sentido, uns troços que se contradizem. Mas se tem uma coisa que os Estados Unidos diz (diz?dizem?? nunca sei) que é e, de fato, é assim mesmo, é o fato de ser um país livre. Me parece que aqui realmente todo mundo faz meio o que tiver afim, contanto que seja legal. Então geral sai de pijama na rua pra levar menino na porta da escola, vai soltando comentário sobre a roupa alheia no ponto de ônibus, genuinamente troca ideia com o mendigo na porta do supermercado e coisas do tipo. Então o que eu vou contar a seguir já não deveria ser surpresa pra mim. Mas sempre é.

Pega só: o que rola é que sempre, mas eu digo SEMPRE que abre pro pessoal fazer pergunta, necessariamente vai ter pelo menos um sujeito que vai levantar a mão, pegar o microfone e falar algo do tipo: “seguinte: seu livro não tá bom não. Achei meio mal escrito, não curti o personagem principal, o final foi nada a ver”.

Ok, normalmente é alguma versão mais elaborada disso.

Nesse momento, eu que tava presenciando essa pilantragem pela primeira vez, pirei. Eu comecei a olhar pros lados, esperando uma reação de choque da platéia, uns cochichos, um pessoal indignado. Nada! Galera de boa, achando aquilo ali bacana mesmo, o autor na tranquilidade, reagiu com um “beleza, não curtiu? Quis expressar sua opinião livremente? Tamo num país livre, cumpadi, vai nessa mesmo, #respect. Próxima pergunta”.

Gente. Fala se não tem um valor incrível nisso?

Eu me dei conta de como eu vinha de duas culturas (pelo menos na minha experiência, tanto no Brasil quanto na Espanha) de feedback modelo ursinhos carinhosos, que quando a gente quer criticar o trabalho de uma pessoa você acaba falando mais tempo das coisas ‘super bacanas e positivas’ que você achou pra no final dizer que “talvez, quem sabe, se a pessoa refizer todo o trabalho seria uma oportunidade de fazer algo ainda melhor”. Pois é. A definição do termo bullshit.

Eu sei que aquilo de sair dando pitaco no livro alheio abriu minha cabeça de uma maneira linda!

Poder falar, na frente de uma galera e de um autor que trabalhou uns 10 anos escrevendo o caraleo do livro que você não curtiu mesmo, que você não concorda, que achou fraco. Falar na lata mesmo, sem desrespeitar, claro, mas sem encher linguiça. Maravilhoso!

Pois eis que eu, franga que sou e encantada com a proeza desses indivíduos de espírito livre, resolvo dia desses pegar o microfone, levantar na frente de umas 40 pessoas e do autor ali, logo na minha frente e soltar um: “é, então, curti não”. (ou alguma versão mais elaborada disso).

Eu sei, eu sei. Não tava dando feedback pro secretario geral da ONU, nem tava na frente da platéia de um show da Taylor Swift. E mesmo assim eu me senti prestes a ter uma dos momentos mais cara de pau da vida, frio na barriga.

E num é que eu falei ali que que eu achava mesmo, sem meias palavras, e foi de boa? Ninguém olhou feio, o autor achou de boa, partiu pra próxima, a vida de todo mundo ali seguiu exatamente como se nada tivesse acontecido.

Só eu própria que tava pirando com aquilo, achando o máximo, mais libertador que nadar no mar pelado. Sentei triunfante na minha cadeira, sentindo que inclusive podia sim de repente bater um papo reto com o secretário geral da ONU, porque não?

Então fica aqui a dica: quer levar um tiquim do estilo americano de viver pro dia a dia? Taca-lhe menos Lattedo Starbucks e mais opinião direta nessa vida!! É libertador.

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Sobre a arte de viajar

Tava papeando outro dia com um fellow Americano, comentando um tiquim as coisas que me pareciam “curiosas”, “interessantes, não é mesmo?” sobre o dia a dia em Boston, falando sobretudo sobre detalhes que eu curto da minha vida aqui. Aliás, eu acredito que quando for se falar do país alheio pro digno morador desse país, prevalece a regra de xingar-mãe-do-outro-não-vale: por mais que se fale de verdades universally acknowledged, “epa, epa, quem pode falar mal do meu país aqui sou eu”.

E até porque sem dúvida tem coisas maravilhosas da vida Bostoniana pra se falar, desde você ter acesso a aulas incríveis, dos assuntos mais variados, numas das Universidades mais tretas do país; a uma programação cultural constante e foda; ao transporte público bem bacana.

Mas me peguei comentando mesmo sobre umas coisas pequenas dessa vida: como todo mundo abre a porta pra todo mundo – gentileza boba, mas que sempre faz meu dia; como a temperatura das manhãs de outono é oficialmente A MAIS prazerosa a ser registrada no planeta; como não tem nada mais legal do que sentar ao ar livre no campus de Harvard no começo do semestre, e ir fragando os alunos novos super empolgados, sentindo uma nostalgia dessa época de faculdade – e uma invejinha ligeira desse povim safado que tem 10 anos menos e 2 startups mais que você.

Pois o americano em questão, num descaso que só vendo, me diz que “ihhh, povo em Boston é antipático, galera gente fina mesmo tá é no Texas” e que “cruz-credo do outono, odeio ter que sair de luva em novembro, trocava Boston por Miami”.

Vendo a animosidade do cidadão diante dos meus comentários super-bacanas-escolhidos-a-dedo, escapei do papo antes do vinho subir e eu já querer entrar na discussão do “me conta então como você lava seu banheiro sem ralo”. Mas fiquei pensando em como aquele rapaz tava perdendo, todo dia, a oportunidade de ver as coisas mega bacanas do lugar onde ele mora. E como tem gente que viaja de longe só pra ver essa cidade que, pra ele, não fede nem cheira.

Dias depois, tô embarcando numa viagem de 27 horas de avião (fato que se escreve com mais tranquilidade do que se faz), com um livro que, bem a propósito, me deram de presente debaixo do braço: “A arte de viajar”, do Alain de Botton.

Ok, antes de mais nada, recomendo esse livro pra qualquer pessoa que vá fazer qualquer viagem nos próximos meses (Natal taí, minha gente!), de Aspen a Guarapari. Esse autor consegue elaborar de um jeito muito genial as expectativas e frustrações que todo mundo já passou numa viagem e te dá uma perspectiva bem foda sobre como apreciar a beleza dos lugares que a gente visita.

E ele vai mostrando como na real, fato é que essa beleza está mais na nossa perspectiva do que na viagem em si: fácil fácil a viagem pra Pousada Golfinho Encantado em Guarapari pode ser mais sensacional que as férias num resort em Aspen.

No final do livro, o cara fala justamente sobre como essa perspectiva que a gente tem quando viaja, de “achar um café em Chicago super charmoso” ou “pirar numa ruazinha de lojas em Melbourne” é simplesmente, meu amigo, porque a gente tá com o “grama do vizinho é mais verde” mode on. A gente tem uma perspectiva de fora que faz a gente saber apreciar cada detalhe bacana do lugar que a gente está conhecendo.

Porque, quem diria, no nosso próprio bairro, na nossa própria cidade, chances are, tem um café – talvez até o seu café, onde você toma todo dia o pingado com pão de queijo – que um visitante de Chicago vai pirar e uma ruazinha charmosa que você cruza passivamente no caminho pro trabalho que o Melbourniano desavisado vai curtir demais.

Trust me, já presenciei o brilho nos olhos de um francês diante de um PF com ovo frito. Pegou a ironia?

Pois enfim, volto pra Boston com esse comichão, com uma vontade de cruzar com o americano aí de cima e falar “meu amigo, descobri uma coisa: Boston é de fato, foda demais, tu é que já se acostumou e não tá sabendo olhar!” assim como BH, Barcelona, Aspen ou Guarapari.

Uma das frases finais do livro é uma citação de Nietzsche (rá, enfim um nome mais complicado de soletrar que Massachusetts!) que vai mais ou menos assim: “…e ficamos tentados a dividir a humanidade entre uma minoria daqueles que sabem como fazer muito de pouco e de uma maioria daqueles que fazem pouco de muito”.

Bora tentar fazer parte dessa minoria, né não?

 

 

 

Check list de compatibilidade com a vida americana

Os Estados Unidos são um país incrível, maravilhoso, diverso, foda e tudo mais. Mas também é um lugarzinho, digamos, muito polarizante. Têm algumas características do dia a dia nos Estados Unidos, do americano e da cultura daqui em geral que se tornam muito marcantes na sua vida quando você mora aqui.

Com certeza cada país tem a sua maneira de ser, seus costumes e tal, mas têm algumas coisas nos Estados Unidos que são tão, mas tão presentes, que você tem que considerar se estiver pensando em mudar pra cá.

Porque uma vez que você já estiver aqui, vai ser difícil tentar se esquivar dessas coisas. Não são coisas ruins. São coisas. Então assim, é bom saber já, por que daí você já se prepara e já sabe o que esperar.

Então aí vai, um checklist pra você verificar a sua compatibilidade com a awesome! american life.

  1. TV: Com certeza, número 1 da lista. É um aparelhinho do tinhoso que vai cruzar seu caminho uma média de 17 vezes por dia. E como, você me pergunta, se eu não passar por 17 lugares diferentes num dia? Ahá! Aí é que tá. Num ambiente normal de boteco/restaurante/banco/supermercado você vai encontrar umas 8 TVs ligadas ao mesmo tempo. Papel de parede pra quê quando se pode pendurar uma tela plana?
  1. Boné: Não tem que gostar de usar boné. Se gostar, ótimo e aliás um plus pra fazer amigos e se passar como local neste país. Mas na verdade você só tem que estar ok com o uso alheio de bonés. À noite, povo de boné. Restaurante, galera de boné. Cinema! Geral de boné. É uma coisa que você pode imaginar que não vai te afetar em nada e nem deveria estar sendo listado aqui. Mas quando a quantidade de bonés no seu campo visual eé tão fora da normalidade, aquilo tem que ser digerido por você de alguma maneira. E se você odiar boné, é complicado.
  1. Sociabilidade extrema de pessoas alheias: Se você se incomoda em ter pessoas puxando papo com você ou interagindo na sua conversa de bar com um amigo, melhor vai pro Canadá (nem sei como é no Canadá, tô chutando que é menos ultra-sociável que os Estados Unidos, por mera probabilidade). Aqui, se prepara pra ouvir alguns comentários aleatórios – sempre simpáticos, por sinal – de pessoas igualmente aleatórias na rua.
  1. Carro: Boston eu acho que é das poucas cidades que dá pra se locomover ou de carro ou caminhando e dá pra se virar bem. Mas saiu do perímetro urbano, meu amigo, você vai estar dentro de um carro, necessariamente.
  1. Leve 16 pague 12: A não ser que você tenha uma ressalva aguda em relação a compra em “bulk”, ou em outras palavras, compra tamanho família/ leite no galão/ latas de atum na dúzia, você vai se apaixonar por este conceito. Você vai cultivar uma dispensa invejável E aprender pelo menos umas 24 maneiras diferentes de comer atum enlatado.
  1. Ar condicionado no talo: Eu li uma matéria aqui outro dia sobre a questão do ar condicionado – sempre no talo absoluto em supermercados, restaurantes e hotéis. Segundo a matéria, quando mais “fancy” o lugar, teoricamente mais frio o ar condicionado no verão. Mito. tenho que ir pro supermercado fubá coreano da esquina de polainas em pleno agosto. Se prepara pra choques térmicos importantes.
  1. Kim Kardashian: É tipo a Giovanna Antonelli dos EUA. Prepare-se para vê-la na grande maioria das capas de revista na fila do supermercado e nas (lembrando – múltiplas) TVs espalhadas por cada canto da cidade, enquanto não estiver rolando baseball.
  1. Discussão eleitoral: Tema constante, já que quando um presidente se elege já é hora de começar a campanha (e a correspondente cobertura midiática) das próximas eleições.
  1. Copo de café de 1litro: notem que eu não quero dizer: gostar de tomar litros de café. A relevância não está na bebida em si, meu caro, MAS no fato de ter sempre, invariavelmente, um copo descartável de um litro de café na mão. Não precisa estar cheio de café. Pensa como se fosse mais um item pessoal, praticamente uma vestimenta, como uma bolsa ou um relógio legal. Para fit in logo no começo aconselho já descer do avião carregando um copo descartável do Starbucks do aeroporto de Guarulhos. E, porque não, bota também um boné.

 

A safadeza da data invertida

Tem coisas grandes que mudam na sua vida quando você muda de país. Coisas relevantes mesmo às quais você tem que se adaptar por mais diferentes que elas sejam do seu estilo de vida anterior. Você escolheu mudar, você se adapta.

Por exemplo, eu tenho que me adaptar à maneira de transporte nos Estados Unidos, que é muito diferente da Espanha – aqui o transporte público é muito mais limitado. Principalmente se você quer sair da cidade, não dá com transporte público.

Ou dá, mas demora umas 3 horas, 2 metrôs e 4 ônibus pra chegar num lugar onde você chegaria em 20min de carro. Outro esquema. E isso influencia muito o dia a dia.

Outra coisa: o preço das coisas. A vida nos Estados Unidos (ou Boston, no caso) é muito, mas muito mais cara do que em Barcelona. Em números absolutos, que é como eu tenho que analisar os preços já que eu ainda não tenho um salário gringo, tudo é 3 vezes mais caro. Mesmo. 3 vezes, pá, assim, tudo. E isso também, grande impacto na vida.

Isso tudo eu táva meio que esperando já, são coisas pras quais eu já tinha me preparado – ok, talvez mais emocionalmente do que financeiramente.

Mas tem umas coisinhas, uns detalhes da vida que te pegam de surpresa, porque são detalhezinhos pequenos, mas que vão gerando pouco a pouco uma ligeira e constante irritação no dia a dia.

No caso dos Estados Unidos pra mim é como todo o sistema de medida de tudo é diferente. Você tem: fahrenheit no lugar de celsius, pés no lugar de metros, ounces no lugar de alguma coisa que eu ainda nem entendi o que é, pounds no lugar de quilos, uma escala totalmente nada a ver com o resto do mundo pra sapatos e roupas e uma medida diferente pra quantidade de café. Pra quem estiver vindo pros EUA, fica aqui a informação de que a tradução de “small coffee” em bom português é: “tamanho garrafa térmica familiar”.

Mas o que mais me irrita, de tudo isso: a tal da data invertida.

Por quê? Por quê inverter um padrão tão estabelecido no mundo inteiro pra uma coisa que é usada no dia a dia de todas as pessoas? Isso já é querer gerar confusão, é querer ver o circo pegar fogo, ver a cobra fumar.

Eu imagino o tanto de erro que já deve ter acontecido por essa mania de inverter a data. Porque quando você fala de algum sistema de medida mais formal, normalmente você coloca a escala que você tá utilizando. Então não tem tanta confusão. Tipo “6 feet tall”. Ahh tá, não é metro, é pés. Ok, entendi.

Mas na data não rola essa marcação, e é super confundível. Tipo você vai fazer um negócio com um brasileiro, tá falando por e-mail e diz que a mercadoria x vai chegar no porto, sei lá, dia 08-07-15. O brasileiro tá achando que vai chegar dia oito de julho. Mas não, você, americano, tá falando que vai chegar dia sete de agosto.

Pega a treta que vai dar. Por quê?

E parece uma coisa simples de se adaptar, mas você já tá tão acostumado a pensar de um jeito, já tem aquele sulco feito no cérebro, aquele caminho mental, que te faz pensar dessa maneira tão logica que é dia > mês > ano (tipo do mais pequeninho ao maior. A lógica em sua plenitude) que requer um esforço tão tremendo forçar a cabeça a pensar mês > dia > ano. Valor médio, volto pro pequeno e vou pro grande. Confuso demais. Tipo escovar o dente com a mão esquerda, faz isso não.

Então é isso, só queria desabafar, porque diariamente eu fico me culpando por não conseguir me adaptar a essa história de mês>dia>ano, mas eu percebi que não é minha culpa. É esse povo que fica inventando inverter as coisas pra complicar a vida alheia, zoar os negócios internacionais e fazer você chegar 2 meses mais tarde pra sessão de jet-bronze que tinha marcado. Me diz pra quê isso?

 

 

A safadeza da gorjeta

Meses atrás meu pai veio me visitar. Agora, meu pai é um cara tolerante, compreensivo, boa praça, sujeito bacana mesmo. Tem pouca coisa nesse mundo que tira ele do sério.

Descobri que uma delas é o sistema americano da gorjeta.

Pensa o seguinte: pra começar, meu pai chega em Boston já tendo que multiplicar o preço de tudo por 4. Quatro! O café da Starbucks (olha ele aqui ‘traveiz!) que já é caro pra qualquer assalariado classe média americano fica, pro turista brasileiro, com preço de filé mignon. Vai um café com leite por R$20?

Então o sujeito já chega ressabiado, doído de pedir uma Budweiser long neck por 8 dólares (yep, 32 reais. Só em Boston e no terminal internacional de Guarulhos) e quando vai acertar a conta, olhe veja: tem que pagar na verdade $9,50. Isso mesmo, passa pra cá mais 6 reais assim, de graça, deixa pro santo.

O-QUÊ?!

Tenho que dizer também que meu pai é… assertivo com dinheiro, então qualquer tentativa de golpe, tumé ou pegadinha do Malandro nesse sentido ele já roda a baiana. E nessa situação não deu outra, ele ficou indignado – não só pelo preço absurdo da cerveja pra começo de conversa– mas por sentir que não estavam sendo honestos com ele botando “Budweiser – $8” no cardápio. Porque já não dizer $9,50? Que palhaçada é essa?

Então bora explicar pro papi uma das primeiras lições que eu aprendi chegando aqui: acontece que na maioria das vezes, o preço que você vê em restaurantes, lojas e lugares de consumo em geral, não inclui impostos. No caso da cerveja aí de cima, o imposto é de uns 6%, que já dá uns 50 centavos. Num sei porque é assim, só sei que é. Então você pouco a pouco vai se acostumando a calcular uns 5-10% no preço inicial da etiqueta ou do cardápio. Ok.

Só que além disso, quando você vai pra qualquer – digo QUALQUER – bar, restaurante, botequim, muquifo, lanchonete, café, food-truck e variedades hipster do gênero – qualquer estabelecimento pra comer ou beber alguma coisa, automaticamente, você vai incluir na conta 15% de gorjeta. Não é gentileza, simpatia, não depende da malemolência do garçom. A não ser que o serviço tenha sido absolutamente fubá, leia-se cuspe no hambúrguer, espera de 2 horas pela comida ou o garçom ofendendo a sua mãe, esses 15% do serviço são simplesmente esperados.

E pasmem: no caso de você chegar diretamente pra sentar na bancada do bar e pedir uma singela Budweiser long-neck, e ter o “serviço” braçal de valor imensurável do sujeito abrir a garrafa pra você, o que acontece? Pimba! $1 PRA CADA CERVEJA que você pedir. Uhum.

Então imagina só a indignação do meu pai ao perceber que o esquema da gorjeta é esperado 100% das vezes é incluído no preço original das comidas no cardápio…nunca! What? Ou, na reação mais precisa do meu pai: Uai!?

Concordei demais, não faz o menor sentido. Eu tentei argumentar que garçom nos EUA recebe de salário fixo menos que a mesada semanal da minha prima de 7 anos, que é um pessoal que tá ali trabalhando pra pagar a dívida do empréstimo da faculdade, que eles podiam estar roubando, podiam estar matando, podiam estar tocando flauta peruana no seu trajeto de 50min no metrô pro aeroporto, mas estão ali, ralando pra tentar ser algo na vida e contam com o dinheiro da gorjeta pra pagar o aluguel.

Mas o argumento de papis é claro: porque colocar impostos e gorjeta como algo a parte? Porque essa enganação pro consumidor gente fina, honesto, falando que a cerveja vai custar $8 se necessariamente o preço final vai ser $9,50? É pai, tô contigo. Mais uma pra antologia de “Mistérios da cultura americana”.

Tô passando umas semanas de visita na Austrália e, devo dizer, recuperei o prazer em comprar comida. Vejo “Sanduíche por $9”. Pago $9. Café $3,50? Táqui três-e-cinquenta. Sim, o Universo faz sentido outra vez.

“É, aproveita, minha filha, que Boston te espera. Com impostos, gorjetas… e um frio de -20”.

 

Esse grande mistério que nos une

Imagina isso: você esta andando pela rua, num país qualquer que não seja o Brasil e vem vindo um grupo de brasileiros. Ou um casal, ou uma pessoa sozinha – qualquer brasileiro em qualquer circunstância.

O que vai acontecer:

Você vai sentir uma sensação inexplicável, uma certeza profunda e louca de que aquela pessoa é brasileira.

Num impulso incontrolável, você vai se aproximar daquela pessoa, porque você quer comprovar sua hipótese. Mesmo que aquilo não tenha nenhuma relevância na sua vida. Você não precisa nem falar com a pessoa, mas tem algo que te move a se aproximar daquele brasileiro só pra comprovar sua tese. Você chega mais perto e – batata! Tá falando português. “É. É brasileiro. Eu sabia”.

Sim, esse fenômeno pode parecer completamente despropositado, mas ainda assim é muito fascinante, não da pra negar. É um mistério que une a todos nós, brasileiros, no exterior. Então bora explorá-lo.

Vamos lá, primeiro: você não é a única pessoa capaz de identificar pessoas do seu país na rua. Eu sei, você sabe, seus amigos sabem, seu primo sabe. Todo mundo sabe isso. A gente meio que nasce sabendo. Ao parecer nosso cérebro tem uma areazinha pequena, um cantinho ali, destinado a “identificar-pessoas-do-nosso-país-de-origem-na-rua-quando-estamos-no-exterior.” Curioso? Específico? Inútil? Sim. Fascinante, de qualquer maneira.

Segundo, isso não é uma “capacidade” exclusiva dos brasileiros. Porque eu sei que você já vinha teorizando sobre como você é capaz de identificar conterrâneos. Talvez você tenha pensado “ brasileiro sempre anda de tênis de academia quando faz turismo”. Uhum, pode ser, boa parte sim, mas não é um critério fundamental. Talvez porque “brasileira costuma ter cabelo comprido-liso-com-luzes. Logo, viu esse perfil, é brasileira” Uhum, também, verdade, muita brasileira é assim, mas tá bem longe de ser todo mundo, obviamente. Então de novo, não existe na real um critério comum.

Até porque, meu amigo, eu te digo que como um brasileiro enxerga outro de longe, um alemão faz a mesma coisa. Oh yeah. Um coreano, igual. Ingleses, também. E enfim, eu tenho bastante certeza de que russos, argentinos e papua-nova-guineanos também tem esse mesmo feeling. Bizarro, eu sei.

Então vamos lá, por que diabos o nosso cérebro decidiu dedicar um punhado de neurônios nessa funçãozinha tão pilantra? Acho que a gente precisa entender, porque a gente poderia estar lendo mentes com esses neurônios, aprendendo a jogar xadrez, investindo na bolsa e ganhando dinheiro, mas não, estamos por aí nessa de ficar identificando turistas brasileiros, e pra quê? A gente tem que achar uma função pra isso.

A minha suposição é que nessa história toda o nosso cérebro tá super bem intencionado, a gente que não tá sabendo fazer bom uso dessa habilidade.

Se você parar pra pensar, ser capaz de identificar uma pessoa do seu país na rua, te dá duas possibilidades que, quando bem utilizadas, podem sim ser incrivelmente relevantes.

A primeira é no caso de você, como turista, de fato querer encontrar alguém que fale o seu idioma, entenda sua cultura e possivelmente saiba onde encontrar uma churrascaria rodízio nas proximidades (ou um Biergarten, ou um Pub ou o como quer que se chame “bar típico” pra galera da Papua-nova-guiné).

Nesse caso, o que você não percebeu talvez é que você não precisa sair perguntando informação inadvertidamente pra qualquer pessoa na rua e ficar recebendo chega pra lá de gringo que não entende o seu sotaque.

Usa o feeling, mermão! Vai pra uma rua movimentada, posicione-se numa localização central e só começa a observar as pessoas. Dentro de minutos o feeling de “aquele ali é” vai vir a tona. E você pode ir já lascando um português sem medo e vai ser bem acolhido pelo conterrâneo! Vai conseguir informação, vai começar uma amizade, experiência super satisfatória. Lindo.

A segunda é no caso de você não querer correr o risco de se juntar com pessoas da sua nacionalidade enquanto está passando suas férias em Paris e acha que seu estilo blasé vai te fazer passar por local, e você acha isso glamuroso e bacana. (Aliás, essa história de “aff-pessoas-da-minha-nacionalidade-dão-vergona-alheia-quando-são-turistas” também é uma sensação bastante universal).

Nesse caso e só ficar de olho, quando o alarme de “opa, lá vem vindo um” acionar, cruza a rua, olha pro chão, solta umas palavras soltas num idioma qualquer e, maravilha, evitou o approach.

Taí, pronto, solucionado o mistério. Não tem nada de subconsciente coletivo, de brasilidade que ultrapassa fronteiras, de uma união mágica entre pessoas que estão destinadas a se encontrar pelo mundo.

E só nosso cérebro. Cumprindo seu papel.

Reagindo num instinto bem básico de querer poupar a gente de pagar mico no exterior. Só isso.

 

Revisando conceitos – ou “e você que achava que sabia o que é um currículo”

Vamos revisar uns conceitos hoje pessoal, porque têm algumas coisas que a gente acha que têm um sentido universal mas na prática não têm, mas não têm mesmo. E então é bom a gente entender que umas coisas que são verdade pra gente não são verdade pros outros. No caso, pros gringos.

Vejamos o exemplo de um currículo.

O que é um currículo?

Uma pessoa poderia pensar que de repente um currículo é um documento onde você resume sua experiência profissional e acadêmica de maneira a tentar convencer um futuro empregador de que você é capaz de fazer um certo tipo de trabalho. Pode ser?

Ou seja, um currículo seria então um instrumento fundamental pra quem tá buscando um trabalho. Eu diria até meio que A principal ferramenta dessa pessoa.

Mas num é bem assim não.

Esses nossos queridos amigos americanos, auspiciosos como são, vão lá e – toma! – mais uma vez mudam o sentido da coisa. Dão uma reviravolta naquela coisinha que táva ali bunitinha, estabelecida, positiva e operante e simplesmente tiram todo o sentido pré-concebido daquele objeto.

Mas deixa eu explicar: não é que os americanos não utilizem o currículo. Eles usam sim e dentro do contexto busca de emprego, inclusive. Mas a função do currículo aqui não é te ajudar a encontrar um trabalho. Ninguém nunca jamais em toda a história da América conseguiu um trabalho enviando um documento Word pro departamento de RH de uma empresa. Nunca. A função do currículo aqui é fazer com que a pessoa que está buscando trabalho se sinta produtiva e tangibilize a sua busca de trabalho.

É um instrumento apaziguador do desempregado. E só isso.

E não para por aí, porque você normalmente não só tem que enviar um currículo, o que teoricamente te levaria uns 15 segundos entre redigir um emailzinho e anexar um documento. Nada disso.

O pessoal aqui quer garantir que o desempregado ocupe a maior parte do seu tempo nessa função. Talvez eles acham que quanto mais tempo você fica nessa de enviar currículo, mais você fica tranquilinho, achando que tá fazendo alguma coisa realmente produtiva pra conseguir um trabalho.

Então você, além do currículo, tem que enviar uma carta de apresentação personalizada, explicando porque você especificamente tem interesse naquela empresa, especificamente. Já dá um trabalhinho. Tem que pesquisar a empresa, pensar em como você se encaixa ali e tal.

Daí você junta a isso um questionário que foi elaborado por psicólogos muito competentes e sádicos pra deixar o candidato desajuizado de agonia. Esse tal questionário te pergunta não só vários dados pessoais completamente irrelevantes (signo? Praia ou montanha? Prato favorito? Livro favorito do Paulo Coelho?) mas ele te faz preencher a mão TODA a informação que JÁ ESTÁ no currículo anexado. WHAT? Sim, você tem que digitar sua experiência profissional: onde trabalhou, de quando a quando, quais eram suas funções… TUDO. Digitar TUDO que já está no currículo de novo. Coisa de louco.

E como cereja no bolo, ele encerra com aquelas perguntas típicas que os americanos sempre tem que fazer por conta de alguma lei que existe por aí. Como: “Você se considera latino o descendente de europeus?” Raaa, e aí brasileirada, sinuca de bico ou num é?

Enfim, você sabe que a probabilidade de conseguir um trabalho indo por esse processo é a mesma de cruzar com a Beyoncé no metrô, mas isso é o que você tem nas mãos, então você entra na dinâmica, não tem outra.

Mas então, você me pergunta, COMO se consegue um trabalho nos EUA? Ahhh meus amigos, a palavra é networking. Você tem que ir a todo tipo de evento minimamente relacionado com a sua área, pregar uma etiqueta que diz “Hello, I’m Camila!” no peito (o que pra mim sempre gera um desconforto inicial de “como assim está todo mundo olhando pro meu peito, que isso?” e daí eu lembro da etiqueta e fico tranquilo) e sair puxando papo geral.

Meu deus, tem algo mais desconfortável do que essa situação? Fica aquele um speed date trabalhístico, você tem que ficar pensando em assunto; em como resumir sua experiência de trabalho em 3 frases e ainda parecer amaaaziiing; em como abordar cada pessoa e como dar uma desculpa quando percebe que o cara ta olhando pro seu peito por mais tempo do que o necessário para ler seu nome na etiqueta.

Eita sisteminha safado de buscar trabalho, tá loco!

Pra que sujeitar as pessoas a isso, gente? Eu digo, voltemos ao bom e velho sistema de enviar o Word pro RH resumão da vida, bate o olho e já dá pra ver se o candidato é bom pra vaga ou não, olha que beleza!

Agora deixa eu ir que eu encontrei a Beyoncé ali no metrô e ela veio aqui em casa me ajudar a enviar uns currículos.

Como comprar remédio, American Style

Ok, ok, eu sei que eu venho bitching about vários aspectos da adaptação nos Estados Unidos.

E isso não é legal, porque os Estados Unidos tem muita, muita coisa boa também e eu tô aqui e tô sendo super bem recebida e tudo mais e daí eu volto pra casa e fico escrevendo coisas meios ruinzinhas sobre o país, de acordo com a minha perspectiva.  E não é porque eu tô achando que esse país só tem coisas ruinzinhas, mas não mesmo. É só porque essas coisas são as coisas legais de escrever.

Mas chega, bora mudar isso hoje!

Então, ok, Estados Unidos tem coisas não super bacanas, como todo país tem suas coisas pouco bacanas. Tipo, banheira do Gugu. Tipo calçada esburacada. Né? Ou a profissão de amolador, que é uma pessoa tem que ficar gritando na rua e acaba interrompendo cochilos da tarde. Ou tipo uma cidade onde as pessoas falam 2 idiomas e você só fala um desses idiomas e as pessoas cismam em se comunicar com você justo no idioma que você não fala.

Enfim, esse tipo de coisa. Mas os Estados Unidos tem umas coisas incríveis, fodas mesmo. E elas te pegam de surpresa, e te fazem ignorar todas as coisas não bacanas e você pensa “porra, esse país é foda”.

Uma das coisas mais impressionantes que eu vivi até agora é o sistema americano de comprar remédio. Vamos fazer um pouquinho de role playing aqui comigo:

Como se compra remédio no Brasil:

Você marca hora no médico, chega no médico, espera. Espera. Lê uma Caras inteira. Espera. Faz a consulta, faz um exame. Marca outra hora pra voltar, pra pegar o resultado. Volta. Espera. Folheia a mesma Caras da consulta passada. Espera. Tem uma consulta que dura 10 minutos que é basicamente o médico falando “Tem que tomar 2 semanas de Amoxilina, 1 cápsula de manhã e duas de noite”. Ok. Pega a receita com o médico. Pega o carro. Vai na drogaria Araújo da Av. do contorno. Não tem onde parar o carro. Para meio na fila dupla. Entrega a receita pro moço da farmácia. Ele não entende a letra do médico. Chama o outro moço, outra menina também chega. Juntos, eles concluem que provavelmente deve ser Amoxilina. Você pensa ‘jesuis’ e pede o remédio. Você precisa de 42 cápsulas mas o moço diz que só tem em embalagem de 60. Ele pode pedir na central pra chegar dali a uns dias. Você: “Não, daí a de 60 mesmo”. Volta pro carro chega em casa, esquece como que tinha que tomar o remédio. Liga pro médico, fala com a secretária, espera ele ligar de volta. Ele te liga. Boa, ok esclareceu. Começa a tomar o remédio.

Procedimento pa-drão de compra de remédio no Brasil. Nem te passa pela cabeça que pode existir outra maneira de se conseguir remédios no mundo.

Pois chego nos Estados Unidos.

E como se compra remédio por aqui:

Você marca hora no médico. Chega na consulta. É atendido (!?!). Faz a consulta, faz um exame. Depois de 3 dias o médico te liga, falando: “Saiu o resultado aqui, já sei que remédio você tem que tomar. Qual a farmácia mais conveniente para você?” Você diz que tem uma farmácia CVS na rua da sua casa, mas não sabe direito o número. O médico consulta alguma fucking awesome database do tinhoso e diz: “Claro, a CVS número 546”. Você incrédulo não consegue nem responder. O médico te diz que em meia hora você pode passar na farmácia.

Você vai na farmácia a pé de boa, chega, meio que sem saber o que tá acontecendo e só joga assim no ar: “Oi eu sou a Camila, será tem algum remédio aí pra mim? Porra! Se tem. Eles te entregam simplesmente um tubinho com exatamente o número de pastilhas que você vai ter que tomar, etiquetado com seu nome, o nome e telefone do seu médico e as instruções de como tomá-lo.

O que acabou de acontecer?

Eu não sei. Não sei até hoje, não sei como, como o médico se comunica com a farmácia ali da minha esquina, como um sistema tão elaborado com pode ser feito num fluxo tão pleno? Aliás, falando sobre aceitar que alguns países fazem as coisas melhor do que outros: mundo, bora adaptar o sistema americano de conseguir remédios.

Esse país é foda ou num é?

 

A farsa do churrasco

Dia desses me convidaram pra um churrasco.

Então, a primeira coisa que se tem que entender é que aqui nos Estados Unidos não é todo dia que se recebe um convite pra churrasco. Num existe essa convidação de um pra casa do outro todo fim de semana, menos ainda pra ficar comendo carne igual louco, bebendo cerveja e se jogando bêbado na piscina alheia.

Isso pode parecer um fim de semana default na vida de um brasileiro, mas não é o caso por aqui.

Mas eu também tenho que esclarecer que antes de mudar pros Estados Unidos eu fui imoralmente mimada por um grupo de gaúchos em Barcelona que SIM fazia churrasco bem regularmente, daqueles que a picanha fica maturando na churrasqueira por 14 horas e fica aquele festival lindo e fluido de carne rolando até acabar o vinho e daí o pessoal vai comprar mais vinho no supermercado até que o supermercado fecha em algum momento e daí é a hora de ir pra casa. Bons tempos.

Então por mais que o convite pro churrasco tenha atiçado toda uma nostalgia e saudosismo, também existia uma expectativa bastante alta da minha parte.

É com essa premissa que a gente chega no churrasco.

Primeira diferença crucial num programa de churrasco EUA vs. Brasil – a hora da chegada. O brasileiro médio, como todo mundo bem sabe – sim, somos eu e você – ele entende o convite com hora marcada como uma coisa mais simbólica, uma referência vaga, uma abstração mesmo. Então o convite pra duas da tarde prum almoço com churrasco, pode totalmente ser entendido por um brasileiro como “chega aí às 2. Ou às 6 e meia, já almoçado e meio bêbado e traz aí uns amigos se quiser”. E é isso ai, a gente leva a coisa dessa maneira e como todo mundo meio que pensa igual então acaba dando certo mesmo.

Mas num vem fazer isso aqui não. Tá loco? Aqui um atraso de 15-20 minutos é entendível, depois disso, e melhor tu ter um álibi foda pra não ficar mal com o seu amigo, porque ele vai te perguntar, genuinamente preocupado, o que que foi te aconteceu. Vai estar todo mundo te esperando pro almoço começar. Tipo, encara um convite pra comer na casa de alguém com a seriedade de quem vai pegar um vôo internacional, que tem que chegar direitinho na hora – não vale atrasar porque senão, nem precisa aparecer.

Bom, mas sem problemas, chegamos lá, bonito, 2:14.

Primeira surpresa:  churrasqueira apagada. Medo. Quê que tá acontecendo?

Isso não estava previsto. Você tomou só um suco leve de laranja de manhã justamente porque você estava indo pra um churrasco, e você não queria gastar barriga com fruta, aveia e pão francês com philadelphia.

E você sabe bem que churrasco já demora pra começar a rolar e se a churrasqueira não está nem acessa, você calcula que o pão de alho vai começar a sair lá pelas 4 da tarde a picanha então, lá pelas 8:30. Pânico. O que fazer?

Você olha ao seu redor: ninguém parece preocupado, tá todo mundo sussa, tomando seu vinhozinho, sua cerveja. Será que você aborda o dono da casa? De repente ele esqueceu de acender o fogo. De repente o fogo apagou e ele num tá sabendo. De repente um esquilo tropeçou e ligou a mangueira sem querer, acidentalmente apagando o fogo da churrasqueira e o dono da casa não percebeu e você avisa ele e ele te agradece muito e reacende a churrasqueira e tudo volta ao normal e você ganha a primeira fornada de pão de alho por ter avisado sobre a churrasqueira apagada. Vai que.

Mas daí o dono da casa comenta que ele vai esperar uns fulanitos chegarem pra começar a preparar o churrasco (ahá, tá vendo como você pode azedar o almoço alheio chegando tarde aqui??). Você não tem saída e aquele apetite guardado com todo carinho pra alcatra com farofa é desperdiçado numas Pringles sabor barbecue (quanta ironia…) que você tem que comer pra não se jogar no vinho de barriga vazia. Porque claro, se não tem carne, vamos pelo menos tomar todas para gerar uma ilusão mínima de que estamos, efetivamente, num churrasco.

Mas, vem comigo, que esse atraso na churrasqueira não foi nada.

É quando a churrasqueira acende que cai a ficha da crucial diferença do churrasco Americano: ele não é um churrasco.

Raaaa ilusão essa de ir num churrasco em pleno Boston, organizado por gringos! O que eu estava pensando? Que ilusão vaga, vadia, vã. A churrasqueira não precisa ser acendida com tempo, porque ela não tem o propósito de “churrascar”, ela é nada mais que uma grelha pra assar hambúrguer e esquentar um pão com gergelim. Podia ser uma churrasqueira tanto quanto podia ser um forno, uma George Foreman, uma misteira de canto de cozinha.

O ASPASchurrascoASPAS consiste em basicamente deste hambúrguer com salada, milho, bolo de milho e macarrão de forno com queijo.

Ok, eu não tenho problema com isso. Foi uma comida ótima, de verdade, o macarrão tava incrível, a salada! – eu curto salada. Eu não tenho problema com a comida. Meu problema é chamar de churrasco. Por que? É como eu te dizer “chega aí que eu vou fazer sushi” e eu cozinho um macarrão a bolonhesa. “Vem aí tomar um vinho” e eu te faço uma limonada e fica por isso mesmo. Tem que fazer isso? Tem que gerar essa expectativa falsa no coração de um pobre brasileiro?

Pois então ficam aqui dois pedidos: primeiro, uma sugestão de um nome que se adeque melhor a uma refeição que consiste de hambúrguer, milho e macarrão, só pra gente esclarecer melhor as coisas e amenizar relações diplomáticas Brasil-EUA. E segundo, por favor, que alguém me passe o contato de algum brasileiro em Boston, de preferencia gaúcho e que faça churrascos como deus manda.

 

 

De novo no Ikea

Tempos atrás eu fui apresentada ao conceito de não-lugar. O não-lugar é, ironicamente, qualquer lugar que te dá a sensação de que você pode estar naquele exato momento em qualquer cidade do mundo, de São Paulo a Governador Valadares a Paris. Exemplos típicos de não-lugar são um McDonald’s ou um Starbucks (ou uma churrascaria Fogo de Chão, como eu recentemente descobri), enfim, qualquer lugar que foi desenhado especificamente com a ideia de te dar a sensação de “já estive aqui”. Nesses lugares você se sente em casa e você sabe exatamente o que esperar daquela experiência – ou que café-com-preço-de-caviar você vai pedir.

O Ikea é assim, e quando você entra nessa de ficar mudando de país, ele passa a ser um não–lugar bem habitual.

Pra quem não sabe, o Ikea é uma empresa gigante sueca que fabrica móveis de design com preço bem acessível. Se você mora na Europa ou nos Estados Unidos, não pretende ficar na mesma cidade por muito tempo e tem um salário chinfrim/está desempregado – no meu caso: check, check, check! – o Ikea é ouro.

Mas o processo todo de ir ao Ikea é foda, sempre. Eu acho que o dono do Ikea pensou que tava moleza demais te permitir comprar aquelas belezuras de móveis por um milésimo do preço de uma loja normal de móveis-belezura e decidiu zoar um pouco o processo, porque sim.

Pois eis aqui a dor e a delícia de ir a um Ikea:

O dia tem que começar cedo. Você vai calcular inicialmente que uma ida ao Ikea vai demorar 4, 5 horas no máximo. Rá! Não. Você pode estar mobiliando só um quarto ou ir só pra comprar uma coisinha muito específica, mas uma visita ao Ikea dura no mínimo umas 9 horas, necessariamente.

Você provavelmente vai alugar uma van ou um carro grande pra ir ao Ikea. Principalmente se você for comprar cama, sofá, armário e quer manter algo da visão do retrovisor no caminho de volta.

O visitante rotineiro do Ikea sabe que tem que levar uma barrinha de cereal ou um sanduíche pro “passeio” – bota aspas nisso – para não acabar comendo um cachorro-quente de $1 com gosto de meia.

O trajeto de uma pessoa pelo Ikea é uma experiência interessantíssima, porque ela é capaz de trazer a tona todas as reações mais profundas do temperamento humano. Você começa com uma excitação: você está decorando uma casa nova, esta super animado, se inspira nos ambientes decorados da loja, anota bonitinho as referências de tudo que você gosta com aquele mini-lápis que você vai acabar colecionando em casa. Tá tudo ótimo.

La pelas tantas, vem uma angústia. Tem muita opção, muita gente, muito barulho, você não sabe bem como combinar o sofá com a mesa de jantar, o armário de que você gostou é caro, mas o armário barato é feio e aí você se paralisa e fica alguns minutos incapaz de tomar qualquer decisão.

Daí vem o cansaço. De repente você percebe que já esta há 4 horas no Ikea e não tem quase nada no carrinho, só umas referencias aleatórias de móveis anotadas num papelzinho amassado. Nessa altura você provavelmente está lá pela sessão de colchões, então você deita, relaxa, esvazia a mente. E prossegue.

Você aproveita pra acelerar pela sessão de “cozinha planejada” que não interessa a ninguém, nem sei porque tá ali, eu diria que quem tem dinheiro pra fazer cozinha planejada não é o consumidor médio do Ikea – e daí o ânimo renasce e você recupera a sensação de “you can do this”. Até porque você chegou na parte legal de acessórios decorativos. É aqui que você se joga nos guardanapos, nos utensílios desnecessários pra cozinha e nas velas com aroma de banana. Até chegar na etapa final que é pegar os móveis no armazém.

Esse momento é o verdadeiro desafio pra mim e poucas vezes eu consegui manter uma atitude zen-positiva-bacana nessa etapa, porque ela junta o cansaço extremo de estar dentro da loja há o que já são a essa altura umas 7 horas ao esforço braçal de ter que carregar uma estrutura de uma cama de madeira da prateleira pro carrinho. Foda.

É aquela sensação de estar num avião em turbulência, que você pensa “porquê eu estou aqui? Porquê? Não quero mais, nunca mais vou pegar um avião, nunca mais passo por isso de novo” e o momento passa e você esquece e você volta a pegar avião. Como você volta ao Ikea.

Enfim, agora não tem como desistir, seria morrer na praia. Você faz um esforço final, pega todos os móveis, paga e ainda encontra um chorume de energia pra ir na lojinha de comidas do Ikea comprar um pacote de salmão defumado congelado extremamente barato!!

Acabou.

Não. Está apenas começando.

O que segue daí é um põe-tudo-no-carro, tira-tudo-do-carro, sobe com tudo pra casa, desempacota tudo e acumula uma quantidade absurda de papelão em casa, monta móveis que são mais complicados de montar do que parecem, sempre, toma uma cerveja e come um sanduiche de salmão defumado pra relaxar, esfola o dedo de tanto parafusar móveis com ferramentas obviamente não aptas pra isso, ignora os parafusos que você encontrou na caixa depois que o móvel já está montado e lembra de uns 4 itens essenciais que “como assim você esqueceu de comprar” e vai ter que voltar ao Ikea. De novo.

É complicado. E cansativo, e trabalhoso, e umas 87% das casas que você vai visitar daqui pra frente vão ter a mesma cadeira Poang que você achou super original pra decoração da sua casa.

Mas o pior é que a gente muda de novo. Precisa de móveis de novo e velas com aroma de frutas exóticas. E volta pro Ikea. De novo.