O dia em que eu descobri que Belo Horizonte é Nova Iorque


Belo Horizonte é uma cidade bacana pra se morar quando se é criança. Ela tem ali seus pontos fracos, como qualquer lugar, mas é um lugar legal. Rola um clima de cidade grande mas ao mesmo tempo tá tudo logo ali meio perto; tem sempre padaria com Todinho e pastel de queijo no caminho entre sua casa e a escola de balé; tem capivara na lagoa da Pampulha; tem voo direto pra Cabo Frio. Enfim, vantagens das mais variadas.

E daí você vai crescendo, viaja um pouco aqui, vai numa exposição bacana em SP acolá e BH começa a ficar pequena. Você percebe que acaba indo sempre nos mesmos lugares, com as mesmas pessoas, fazendo a mesma coisa: tomando cerveja, petiscando amendoim e trocando ideia sobre a questão 2 da prova de geografia. E você começa a fantasiar sobre um mundão maravilhoso lá fora, onde pessoas realizam feitos grandiosos, fazem programas incrivelmente legais e variados e tem papos geniais sobre o futuro da humanidade.

Tem uma parte sua que tem uma invejinha de quem tem a sorte de curtir uma vida espetacular neste outro mundo. Mas tem outra parte que já se satisfaz só de pensar que ele existe.

Daí você sai de BH.

No meu caso, eu fui pra São Paulo, e, adivinha só: tapa de luvas, por supuesto.

Spoiler alert para quem nunca morou em SP. Lá também as pessoas estão sempre com os mesmos amigos, nos mesmos lugares, tomando cerveja breja, petiscando amendoim e discutindo a questão 3 da prova de sociologia. Só muda um tiquim o sotaque mesmo.

Então aquela sensação gostosa de “o mundo é um bufê de comida japonesa, e eu só tenho que sair de BH pra curtir a vida adoidado” já foi por agua abaixo. SP pode ter mais opções de coisas pra fazer sim, mas na essência não deixa de ser uma versão maiorzona de BH.

Daí você sai de SP.

Ok, ok, não moro em NY, mas moro em Boston, que tá a uma distancia relativamente pequena de lá (mais perto que BH – Cabo Frio, pra se ter uma referência), fui algumas vezes de visita na cidade no último ano e fico mais por dentro do que rola na cidade desde que moro aqui.

Acho que quando morava em BH, pensar em NY era como ter 15 anos e olhar pro seu primo bacanão de 27 achando que ele era a pessoa mais legal do mundo. Você sonhava em um dia chegar lá e, quando chegasse, tudo seria fluido, lindo, perfumado e bem sucedido. Até que você chega aos 27 e vê que não tem nada disso.

Ainda em BH, lembro de abrir o Jornal da Pampulha – um semanário grátis com as últimas noticias e frissons da vida belo-horizontina – no domingo de manhã, chegar à seção de “Casamentos” e ter, naquele momento, a certeza de que BH era a cidade mais provinciana do planeta.

Porquê? Bom, a descrição dos casamentos no jornal ia mais ou menos assim: “A bela fulanita, filha do juiz fulanito e da jornalista fulanita brilhou em um espetacular desenho da maison Aguida Chaves em suntuosa celebração no Buffet Catarina neste sábado. O descontraído noivo…”. Enfim, segue uma elaborada descrição de como os noivos “abrilhantaram a pista” na “recepção digna de um filme de Hollywood”. Pegou um tom meio cafona e um bairrismo excessivo?

Aquilo pra mim era a prova máxima, o “I rest my case” de que, tristeza do destino: BH era, de fato, incrivelmente provinciana e, por tanto, um fim de mundo. A seção de Casamentos do Jornal da Pampulha me garantia de que nada de fantástico, incrível e maravilhoso poderia acontecer em BH.

Pois eis que, já em Boston, pra mostrar toda minha erudição e interesse pelas notícias do mundo aos meus vizinhos do prédio, eu começo a assinar o jornal New York Times do domingo.

E eis que no domingo passado, às exatas 10:37AM, sentada placidamente na poltrona da sala, café com leite em mãos, abro a seção Sunday Styles do jornal. Minutos depois, chego à pagina 11.

Neste momento, olhe bem, me deparo com o seguinte texto, em tradução livre: “A jovem fulanita, filha de fulanito, sócio na firma de advogados x e da fulanita, diretora de eventos da Universidade x, se casou neste sábado em uma belíssima cerimônia com Ciclanito. Um seleto grupo de elegantes convidados compareceu à idílica recepção ao cair da tarde na propriedade do avô da noiva, um importante magnata da indústria local…”

Oh. No.

Neste momento me dei conta de que era questão de traduzir o New York Times pro português, trocar a tal “firma de advogados x” por “MRV Engenharia” e de repente Nova Iorque se mostrou tão bairrista quanto… BH.

Por um lado, uma tristeza: nada disso de mundão lá fora pra ser descoberto. Esse sentimento provinciano é tão meu quanto do sujeito que mora num loft bacana no Brooklin e que deve ler ressabiado a página 11 do Sunday Styles todo domingo.

Por outro, um alívio: não tem essa de se preocupar em ir morar em NY, Paris ou Singapura pra poder viver uma vida fantástica como deus manda. Esse tal “mundão maravilhoso” é a gente mesmo quem faz, dentro do nosso próprio mundinho provinciano mesmo, onde quer que seja.

Em BH, SP, NY ou Cabo Frio.

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2 thoughts on “O dia em que eu descobri que Belo Horizonte é Nova Iorque

  1. Francisco Mahfuz says:

    Concordo quase 100% contigo. Acho que as pessoas subestimas as coisas que mais fazem diferença nas nossas vidas (vide Maslow’s Hierarchy of Needs), que simplificadas são: ter as tuas necessidades básicas cobertas, se sentir seguro, competente e cercado de gente amada. Especialmente o último ponto se resume a ter amigos/família pra encher a cara, fazer umas jantas, ir pra praia junto, essas coisas. Uma oferta interminável de cultura tem pouco a ver com isso, especialmente depois que a internet se tornou tao omnipresente.

    Tendo vivido em alguns lugares e fora já faz 12 anos, o mais legal de Barcelona é a a praia, segurança pra andar pela cidade, facilidade de se locomover sem carro e tempo bom. Convenhamos que eu não precisava estar aqui pra ter a maioria dessas coisas, e se Porto Alegre tivesse praia, menos crime, um sistema de metro e tempo bom seria igual a Barcelona. Praticamente.

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    • peopleplacesthoughts says:

      Hahaa consegui ler agora a mensagem completa, não sabia direito mexer nesse programa! Então, acho que sim um ponto é pirâmide de Maslow e realmente precisamos de pouca coisa pra sobreviver/ser minimamente feliz. Mas me refiro também ao bom e velho “Ver o copo cheio” – todo lugar tem seu ponto positivo e negativo (claro que em alguns lugares tipo Barcelona a balança pesa mais pra um lado) e acho muito que o pulo do gato está em reconhecer as coisas positivas, meio que tentar ver a beleza das coisas. Acho que quando a gente viaja a gente tem a predisposição de ver as coisas com olhos mais otimistas e acho que rola de trazer essa perspectiva pro dia a dia. Dito isso, voltava pra BCN city amanhã.

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