Visita

Visita é a melhor coisa que tem pra tem tá morando longe. É uma maneira de ter um pedacinho de casa ou de uma lembrança, de uma história, por um tempinho só que seja, de novo, na sua vida.

Aliás, se você conversar com qualquer pessoa que mora fora do seu país, e que te diz que morre de saudades, que pensa em voltar, que vive num limbo e num conflito eterno sobre essa questão de morar fora do país, essa pessoa com certeza vai te falar que se levassem a família e os melhores amigos pra cidade onde ela está vivendo, onde quer que seja no mundo, acabô. Resolveu o conflito, todos vivem felizes para sempre e ninguém mais sobe num avião transatlântico ou peleja com as falhas de conexão das ligações com vídeo no skype.

Então sim, a gente fala que sente falta do guaraná diet, do pão de queijo congelado, de tomar café da manha assistindo Mais Você, mas isso tudo são detalhes muito pequenos da saudade. A gente sente falta mesmo é das pessoas.

Então quando tem visita é uma maravilha, porque é aquele sonho que você adoraria realizar de ‘lugar bacana que eu moro + pessoas bacanas que eu amo’ por uma fração pequena da vida que vira realidade.

É lindo.

Mas tem coisa que visita faz que irrita.

E não são as visitas que vem na minha casa. Ou na sua casa. São visitas. Conceitualmente. Eu e você faremos essas coisas quando formos visitas. Porque é assim que funciona.

Tudo começa quando a visita te pergunta como estará o clima na cidade quando ela estiver visitando. Daqui a um mês e meio. Você não tem nem ideia. Obviamente. Então você vai fazer o que a visita deveria ter feito que é consultar o Google weather. E aí pronto.

A partir desse momento a visita vai te ter como um guru,  como uma fonte de informações inesgotáveis sobretodos os aspectos da sua cidade. Ela vai te jogar indiscriminadamente todas as perguntas e as dúvidas que ela tiver ao longo da viagem.

Vocês vão entrar em um restaurante que você nunca tinha ido antes e ela vai perguntar “você sabe onde é o banheiro?” ou “será que as porções aqui são grandes?”.  Hm.

Ela também vai te perguntar informações de prédios e construções em geral na cidade, qualquer coisa que ela for vendo na rua. Tipo “que que é aquele prédio alto, bege ali?”. Nem ideia. Porque no caso, não, você não conhece a história e razão de ser de cada prédio na cidade onde você mora há poucos meses.

E com certeza a pessoa também não sabe esse tipo de informação sobre a própria cidade onde ela mora há anos, mas ela ainda assim vai te dar um olhar de soslaio de “que falta de interesse você tem sobre sua nova cidade”. E você vai se sentir mal, você vai se sentir culpado mesmo.

Um fenômeno que não acontece com 100% das visitas, mas com um percentual bem relevante é o fato de que as pessoas quando vão visitar um amigo ou um parente elas agem de uma maneira muito diferente de quando elas vão viajar sozinhas pra ficar num hotel. No sentido de que quando alguém vem te ver ela normalmente não pesquisa absolutamente nada sobre o lugar.

E ela não tem interesse em realmente entender como se locomover no lugar.

Então ela só te segue, ela é incapaz de entender placas, sinais ou ler um mapa de metrô.

Ela acorda cada manhã com a pergunta: “E aí o que vamos fazer hoje?” esperando um itinerário elaborado do dia à la programação de verão de hotel fazenda (e você quase se sente coagido a imprimir um flyer indicando que o dia começa com o encontro na recepção para uma caminhada ecológica as 7 da manhã).

Um comportamento também muito recorrente é que a pessoa pode ficar o tempo que for na sua casa, tipo 6 meses hospedado na sua casa, ela vai inevitavelmente lembrar de alguma coisa que ela esqueceu de comprar pra prima dela no último dia de viagem, à tarde. E vocês vão sair como loucos de casa procurando essa coisa, vai ser um stress desnecessário. Mas acontece.

Muita visita também se recusa a adaptar a algumas normas locais. Por exemplo, nos Estados Unidos, tem que dar gorjeta. Tem que dar. E de tipo 15, 20%. E isso é muita coisa, eu sei, ainda mais quando você tá multiplicando tudo por 3,20 por causa do dólar que sobe todo dia. E então visita normalmente não dá gorjeta. Ela arredonda a conta, se enganando de que esta deixando uma gorjeta, mas ela tá deixando um 2% de gorjeta, que não vale nada, na verdade.

Já quando eu morava na Espanha a visita brasileira normalmente não entendia o espanhol como um idioma diferente do português. Então ela simplesmente falava português com as pessoas. Jogando um sotaque ali, umgracias acolá. E aí aconteciam coisas do tipo pedir vinho tinto e vir um mojito, pedir frango e vir um petit gateau e outras anedotas que nunca impediram a visita de mudar a dinâmica dos pedidos, mesmo quando o garçom tentava mudar pro inglês.

Mas nada disso importa.  São detalhes pequenos, anedotas. Visita é sempre bom demais e eu só fico lembrando dos “perrengues” pra ver se alivia a saudade.

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