Sobre a arte de viajar

Tava papeando outro dia com um fellow Americano, comentando um tiquim as coisas que me pareciam “curiosas”, “interessantes, não é mesmo?” sobre o dia a dia em Boston, falando sobretudo sobre detalhes que eu curto da minha vida aqui. Aliás, eu acredito que quando for se falar do país alheio pro digno morador desse país, prevalece a regra de xingar-mãe-do-outro-não-vale: por mais que se fale de verdades universally acknowledged, “epa, epa, quem pode falar mal do meu país aqui sou eu”.

E até porque sem dúvida tem coisas maravilhosas da vida Bostoniana pra se falar, desde você ter acesso a aulas incríveis, dos assuntos mais variados, numas das Universidades mais tretas do país; a uma programação cultural constante e foda; ao transporte público bem bacana.

Mas me peguei comentando mesmo sobre umas coisas pequenas dessa vida: como todo mundo abre a porta pra todo mundo – gentileza boba, mas que sempre faz meu dia; como a temperatura das manhãs de outono é oficialmente A MAIS prazerosa a ser registrada no planeta; como não tem nada mais legal do que sentar ao ar livre no campus de Harvard no começo do semestre, e ir fragando os alunos novos super empolgados, sentindo uma nostalgia dessa época de faculdade – e uma invejinha ligeira desse povim safado que tem 10 anos menos e 2 startups mais que você.

Pois o americano em questão, num descaso que só vendo, me diz que “ihhh, povo em Boston é antipático, galera gente fina mesmo tá é no Texas” e que “cruz-credo do outono, odeio ter que sair de luva em novembro, trocava Boston por Miami”.

Vendo a animosidade do cidadão diante dos meus comentários super-bacanas-escolhidos-a-dedo, escapei do papo antes do vinho subir e eu já querer entrar na discussão do “me conta então como você lava seu banheiro sem ralo”. Mas fiquei pensando em como aquele rapaz tava perdendo, todo dia, a oportunidade de ver as coisas mega bacanas do lugar onde ele mora. E como tem gente que viaja de longe só pra ver essa cidade que, pra ele, não fede nem cheira.

Dias depois, tô embarcando numa viagem de 27 horas de avião (fato que se escreve com mais tranquilidade do que se faz), com um livro que, bem a propósito, me deram de presente debaixo do braço: “A arte de viajar”, do Alain de Botton.

Ok, antes de mais nada, recomendo esse livro pra qualquer pessoa que vá fazer qualquer viagem nos próximos meses (Natal taí, minha gente!), de Aspen a Guarapari. Esse autor consegue elaborar de um jeito muito genial as expectativas e frustrações que todo mundo já passou numa viagem e te dá uma perspectiva bem foda sobre como apreciar a beleza dos lugares que a gente visita.

E ele vai mostrando como na real, fato é que essa beleza está mais na nossa perspectiva do que na viagem em si: fácil fácil a viagem pra Pousada Golfinho Encantado em Guarapari pode ser mais sensacional que as férias num resort em Aspen.

No final do livro, o cara fala justamente sobre como essa perspectiva que a gente tem quando viaja, de “achar um café em Chicago super charmoso” ou “pirar numa ruazinha de lojas em Melbourne” é simplesmente, meu amigo, porque a gente tá com o “grama do vizinho é mais verde” mode on. A gente tem uma perspectiva de fora que faz a gente saber apreciar cada detalhe bacana do lugar que a gente está conhecendo.

Porque, quem diria, no nosso próprio bairro, na nossa própria cidade, chances are, tem um café – talvez até o seu café, onde você toma todo dia o pingado com pão de queijo – que um visitante de Chicago vai pirar e uma ruazinha charmosa que você cruza passivamente no caminho pro trabalho que o Melbourniano desavisado vai curtir demais.

Trust me, já presenciei o brilho nos olhos de um francês diante de um PF com ovo frito. Pegou a ironia?

Pois enfim, volto pra Boston com esse comichão, com uma vontade de cruzar com o americano aí de cima e falar “meu amigo, descobri uma coisa: Boston é de fato, foda demais, tu é que já se acostumou e não tá sabendo olhar!” assim como BH, Barcelona, Aspen ou Guarapari.

Uma das frases finais do livro é uma citação de Nietzsche (rá, enfim um nome mais complicado de soletrar que Massachusetts!) que vai mais ou menos assim: “…e ficamos tentados a dividir a humanidade entre uma minoria daqueles que sabem como fazer muito de pouco e de uma maioria daqueles que fazem pouco de muito”.

Bora tentar fazer parte dessa minoria, né não?

 

 

 

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