Revisando conceitos – ou “e você que achava que sabia o que é um currículo”

Vamos revisar uns conceitos hoje pessoal, porque têm algumas coisas que a gente acha que têm um sentido universal mas na prática não têm, mas não têm mesmo. E então é bom a gente entender que umas coisas que são verdade pra gente não são verdade pros outros. No caso, pros gringos.

Vejamos o exemplo de um currículo.

O que é um currículo?

Uma pessoa poderia pensar que de repente um currículo é um documento onde você resume sua experiência profissional e acadêmica de maneira a tentar convencer um futuro empregador de que você é capaz de fazer um certo tipo de trabalho. Pode ser?

Ou seja, um currículo seria então um instrumento fundamental pra quem tá buscando um trabalho. Eu diria até meio que A principal ferramenta dessa pessoa.

Mas num é bem assim não.

Esses nossos queridos amigos americanos, auspiciosos como são, vão lá e – toma! – mais uma vez mudam o sentido da coisa. Dão uma reviravolta naquela coisinha que táva ali bunitinha, estabelecida, positiva e operante e simplesmente tiram todo o sentido pré-concebido daquele objeto.

Mas deixa eu explicar: não é que os americanos não utilizem o currículo. Eles usam sim e dentro do contexto busca de emprego, inclusive. Mas a função do currículo aqui não é te ajudar a encontrar um trabalho. Ninguém nunca jamais em toda a história da América conseguiu um trabalho enviando um documento Word pro departamento de RH de uma empresa. Nunca. A função do currículo aqui é fazer com que a pessoa que está buscando trabalho se sinta produtiva e tangibilize a sua busca de trabalho.

É um instrumento apaziguador do desempregado. E só isso.

E não para por aí, porque você normalmente não só tem que enviar um currículo, o que teoricamente te levaria uns 15 segundos entre redigir um emailzinho e anexar um documento. Nada disso.

O pessoal aqui quer garantir que o desempregado ocupe a maior parte do seu tempo nessa função. Talvez eles acham que quanto mais tempo você fica nessa de enviar currículo, mais você fica tranquilinho, achando que tá fazendo alguma coisa realmente produtiva pra conseguir um trabalho.

Então você, além do currículo, tem que enviar uma carta de apresentação personalizada, explicando porque você especificamente tem interesse naquela empresa, especificamente. Já dá um trabalhinho. Tem que pesquisar a empresa, pensar em como você se encaixa ali e tal.

Daí você junta a isso um questionário que foi elaborado por psicólogos muito competentes e sádicos pra deixar o candidato desajuizado de agonia. Esse tal questionário te pergunta não só vários dados pessoais completamente irrelevantes (signo? Praia ou montanha? Prato favorito? Livro favorito do Paulo Coelho?) mas ele te faz preencher a mão TODA a informação que JÁ ESTÁ no currículo anexado. WHAT? Sim, você tem que digitar sua experiência profissional: onde trabalhou, de quando a quando, quais eram suas funções… TUDO. Digitar TUDO que já está no currículo de novo. Coisa de louco.

E como cereja no bolo, ele encerra com aquelas perguntas típicas que os americanos sempre tem que fazer por conta de alguma lei que existe por aí. Como: “Você se considera latino o descendente de europeus?” Raaa, e aí brasileirada, sinuca de bico ou num é?

Enfim, você sabe que a probabilidade de conseguir um trabalho indo por esse processo é a mesma de cruzar com a Beyoncé no metrô, mas isso é o que você tem nas mãos, então você entra na dinâmica, não tem outra.

Mas então, você me pergunta, COMO se consegue um trabalho nos EUA? Ahhh meus amigos, a palavra é networking. Você tem que ir a todo tipo de evento minimamente relacionado com a sua área, pregar uma etiqueta que diz “Hello, I’m Camila!” no peito (o que pra mim sempre gera um desconforto inicial de “como assim está todo mundo olhando pro meu peito, que isso?” e daí eu lembro da etiqueta e fico tranquilo) e sair puxando papo geral.

Meu deus, tem algo mais desconfortável do que essa situação? Fica aquele um speed date trabalhístico, você tem que ficar pensando em assunto; em como resumir sua experiência de trabalho em 3 frases e ainda parecer amaaaziiing; em como abordar cada pessoa e como dar uma desculpa quando percebe que o cara ta olhando pro seu peito por mais tempo do que o necessário para ler seu nome na etiqueta.

Eita sisteminha safado de buscar trabalho, tá loco!

Pra que sujeitar as pessoas a isso, gente? Eu digo, voltemos ao bom e velho sistema de enviar o Word pro RH resumão da vida, bate o olho e já dá pra ver se o candidato é bom pra vaga ou não, olha que beleza!

Agora deixa eu ir que eu encontrei a Beyoncé ali no metrô e ela veio aqui em casa me ajudar a enviar uns currículos.

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