Esse grande mistério que nos une

Imagina isso: você esta andando pela rua, num país qualquer que não seja o Brasil e vem vindo um grupo de brasileiros. Ou um casal, ou uma pessoa sozinha – qualquer brasileiro em qualquer circunstância.

O que vai acontecer:

Você vai sentir uma sensação inexplicável, uma certeza profunda e louca de que aquela pessoa é brasileira.

Num impulso incontrolável, você vai se aproximar daquela pessoa, porque você quer comprovar sua hipótese. Mesmo que aquilo não tenha nenhuma relevância na sua vida. Você não precisa nem falar com a pessoa, mas tem algo que te move a se aproximar daquele brasileiro só pra comprovar sua tese. Você chega mais perto e – batata! Tá falando português. “É. É brasileiro. Eu sabia”.

Sim, esse fenômeno pode parecer completamente despropositado, mas ainda assim é muito fascinante, não da pra negar. É um mistério que une a todos nós, brasileiros, no exterior. Então bora explorá-lo.

Vamos lá, primeiro: você não é a única pessoa capaz de identificar pessoas do seu país na rua. Eu sei, você sabe, seus amigos sabem, seu primo sabe. Todo mundo sabe isso. A gente meio que nasce sabendo. Ao parecer nosso cérebro tem uma areazinha pequena, um cantinho ali, destinado a “identificar-pessoas-do-nosso-país-de-origem-na-rua-quando-estamos-no-exterior.” Curioso? Específico? Inútil? Sim. Fascinante, de qualquer maneira.

Segundo, isso não é uma “capacidade” exclusiva dos brasileiros. Porque eu sei que você já vinha teorizando sobre como você é capaz de identificar conterrâneos. Talvez você tenha pensado “ brasileiro sempre anda de tênis de academia quando faz turismo”. Uhum, pode ser, boa parte sim, mas não é um critério fundamental. Talvez porque “brasileira costuma ter cabelo comprido-liso-com-luzes. Logo, viu esse perfil, é brasileira” Uhum, também, verdade, muita brasileira é assim, mas tá bem longe de ser todo mundo, obviamente. Então de novo, não existe na real um critério comum.

Até porque, meu amigo, eu te digo que como um brasileiro enxerga outro de longe, um alemão faz a mesma coisa. Oh yeah. Um coreano, igual. Ingleses, também. E enfim, eu tenho bastante certeza de que russos, argentinos e papua-nova-guineanos também tem esse mesmo feeling. Bizarro, eu sei.

Então vamos lá, por que diabos o nosso cérebro decidiu dedicar um punhado de neurônios nessa funçãozinha tão pilantra? Acho que a gente precisa entender, porque a gente poderia estar lendo mentes com esses neurônios, aprendendo a jogar xadrez, investindo na bolsa e ganhando dinheiro, mas não, estamos por aí nessa de ficar identificando turistas brasileiros, e pra quê? A gente tem que achar uma função pra isso.

A minha suposição é que nessa história toda o nosso cérebro tá super bem intencionado, a gente que não tá sabendo fazer bom uso dessa habilidade.

Se você parar pra pensar, ser capaz de identificar uma pessoa do seu país na rua, te dá duas possibilidades que, quando bem utilizadas, podem sim ser incrivelmente relevantes.

A primeira é no caso de você, como turista, de fato querer encontrar alguém que fale o seu idioma, entenda sua cultura e possivelmente saiba onde encontrar uma churrascaria rodízio nas proximidades (ou um Biergarten, ou um Pub ou o como quer que se chame “bar típico” pra galera da Papua-nova-guiné).

Nesse caso, o que você não percebeu talvez é que você não precisa sair perguntando informação inadvertidamente pra qualquer pessoa na rua e ficar recebendo chega pra lá de gringo que não entende o seu sotaque.

Usa o feeling, mermão! Vai pra uma rua movimentada, posicione-se numa localização central e só começa a observar as pessoas. Dentro de minutos o feeling de “aquele ali é” vai vir a tona. E você pode ir já lascando um português sem medo e vai ser bem acolhido pelo conterrâneo! Vai conseguir informação, vai começar uma amizade, experiência super satisfatória. Lindo.

A segunda é no caso de você não querer correr o risco de se juntar com pessoas da sua nacionalidade enquanto está passando suas férias em Paris e acha que seu estilo blasé vai te fazer passar por local, e você acha isso glamuroso e bacana. (Aliás, essa história de “aff-pessoas-da-minha-nacionalidade-dão-vergona-alheia-quando-são-turistas” também é uma sensação bastante universal).

Nesse caso e só ficar de olho, quando o alarme de “opa, lá vem vindo um” acionar, cruza a rua, olha pro chão, solta umas palavras soltas num idioma qualquer e, maravilha, evitou o approach.

Taí, pronto, solucionado o mistério. Não tem nada de subconsciente coletivo, de brasilidade que ultrapassa fronteiras, de uma união mágica entre pessoas que estão destinadas a se encontrar pelo mundo.

E só nosso cérebro. Cumprindo seu papel.

Reagindo num instinto bem básico de querer poupar a gente de pagar mico no exterior. Só isso.

 

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