De novo no Ikea

Tempos atrás eu fui apresentada ao conceito de não-lugar. O não-lugar é, ironicamente, qualquer lugar que te dá a sensação de que você pode estar naquele exato momento em qualquer cidade do mundo, de São Paulo a Governador Valadares a Paris. Exemplos típicos de não-lugar são um McDonald’s ou um Starbucks (ou uma churrascaria Fogo de Chão, como eu recentemente descobri), enfim, qualquer lugar que foi desenhado especificamente com a ideia de te dar a sensação de “já estive aqui”. Nesses lugares você se sente em casa e você sabe exatamente o que esperar daquela experiência – ou que café-com-preço-de-caviar você vai pedir.

O Ikea é assim, e quando você entra nessa de ficar mudando de país, ele passa a ser um não–lugar bem habitual.

Pra quem não sabe, o Ikea é uma empresa gigante sueca que fabrica móveis de design com preço bem acessível. Se você mora na Europa ou nos Estados Unidos, não pretende ficar na mesma cidade por muito tempo e tem um salário chinfrim/está desempregado – no meu caso: check, check, check! – o Ikea é ouro.

Mas o processo todo de ir ao Ikea é foda, sempre. Eu acho que o dono do Ikea pensou que tava moleza demais te permitir comprar aquelas belezuras de móveis por um milésimo do preço de uma loja normal de móveis-belezura e decidiu zoar um pouco o processo, porque sim.

Pois eis aqui a dor e a delícia de ir a um Ikea:

O dia tem que começar cedo. Você vai calcular inicialmente que uma ida ao Ikea vai demorar 4, 5 horas no máximo. Rá! Não. Você pode estar mobiliando só um quarto ou ir só pra comprar uma coisinha muito específica, mas uma visita ao Ikea dura no mínimo umas 9 horas, necessariamente.

Você provavelmente vai alugar uma van ou um carro grande pra ir ao Ikea. Principalmente se você for comprar cama, sofá, armário e quer manter algo da visão do retrovisor no caminho de volta.

O visitante rotineiro do Ikea sabe que tem que levar uma barrinha de cereal ou um sanduíche pro “passeio” – bota aspas nisso – para não acabar comendo um cachorro-quente de $1 com gosto de meia.

O trajeto de uma pessoa pelo Ikea é uma experiência interessantíssima, porque ela é capaz de trazer a tona todas as reações mais profundas do temperamento humano. Você começa com uma excitação: você está decorando uma casa nova, esta super animado, se inspira nos ambientes decorados da loja, anota bonitinho as referências de tudo que você gosta com aquele mini-lápis que você vai acabar colecionando em casa. Tá tudo ótimo.

La pelas tantas, vem uma angústia. Tem muita opção, muita gente, muito barulho, você não sabe bem como combinar o sofá com a mesa de jantar, o armário de que você gostou é caro, mas o armário barato é feio e aí você se paralisa e fica alguns minutos incapaz de tomar qualquer decisão.

Daí vem o cansaço. De repente você percebe que já esta há 4 horas no Ikea e não tem quase nada no carrinho, só umas referencias aleatórias de móveis anotadas num papelzinho amassado. Nessa altura você provavelmente está lá pela sessão de colchões, então você deita, relaxa, esvazia a mente. E prossegue.

Você aproveita pra acelerar pela sessão de “cozinha planejada” que não interessa a ninguém, nem sei porque tá ali, eu diria que quem tem dinheiro pra fazer cozinha planejada não é o consumidor médio do Ikea – e daí o ânimo renasce e você recupera a sensação de “you can do this”. Até porque você chegou na parte legal de acessórios decorativos. É aqui que você se joga nos guardanapos, nos utensílios desnecessários pra cozinha e nas velas com aroma de banana. Até chegar na etapa final que é pegar os móveis no armazém.

Esse momento é o verdadeiro desafio pra mim e poucas vezes eu consegui manter uma atitude zen-positiva-bacana nessa etapa, porque ela junta o cansaço extremo de estar dentro da loja há o que já são a essa altura umas 7 horas ao esforço braçal de ter que carregar uma estrutura de uma cama de madeira da prateleira pro carrinho. Foda.

É aquela sensação de estar num avião em turbulência, que você pensa “porquê eu estou aqui? Porquê? Não quero mais, nunca mais vou pegar um avião, nunca mais passo por isso de novo” e o momento passa e você esquece e você volta a pegar avião. Como você volta ao Ikea.

Enfim, agora não tem como desistir, seria morrer na praia. Você faz um esforço final, pega todos os móveis, paga e ainda encontra um chorume de energia pra ir na lojinha de comidas do Ikea comprar um pacote de salmão defumado congelado extremamente barato!!

Acabou.

Não. Está apenas começando.

O que segue daí é um põe-tudo-no-carro, tira-tudo-do-carro, sobe com tudo pra casa, desempacota tudo e acumula uma quantidade absurda de papelão em casa, monta móveis que são mais complicados de montar do que parecem, sempre, toma uma cerveja e come um sanduiche de salmão defumado pra relaxar, esfola o dedo de tanto parafusar móveis com ferramentas obviamente não aptas pra isso, ignora os parafusos que você encontrou na caixa depois que o móvel já está montado e lembra de uns 4 itens essenciais que “como assim você esqueceu de comprar” e vai ter que voltar ao Ikea. De novo.

É complicado. E cansativo, e trabalhoso, e umas 87% das casas que você vai visitar daqui pra frente vão ter a mesma cadeira Poang que você achou super original pra decoração da sua casa.

Mas o pior é que a gente muda de novo. Precisa de móveis de novo e velas com aroma de frutas exóticas. E volta pro Ikea. De novo.

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