Como dar feedback, American style

Como bem já se sabe, o sistema de encontrar trabalho a la american style não tem sido lá meu amigo e entre uma enviada de currículo e outra (#euaindaacreditonoRH), eu tenho muito tempo pra ir em aula, palestra, conferência, torneio de buraco e – meu tipo de evento preferido: apresentação de livro.

Mas vejam bem, não estou falando de evento tipo coquetel, happy hour, noite de autógrafos ou qualquer nome que se queira botar pros eventos estilo “vem aqui comprar meu livro que o folhado de camarão é por minha conta”.

O que rola é o seguinte: você chega lá, numa livraria qualquer, e não tem nada de aperitivo. Fica todo mundo sentado enquanto o autor lê uns trechos do livro, botando o tom dele na leitura, fazendo uns comentários de pé de página que não estão no pé de página, meio que interpretando os personagens do livro mesmo. É bacana. Mas até aí ok, nada demais.

Mas é que daí depois disso eles abrem o espaço pra perguntas. Ah… as perguntas.

Antes de continuar, um parênteses: pra mim tem várias coisas da cultura americana que não fazem muito sentido, uns troços que se contradizem. Mas se tem uma coisa que os Estados Unidos diz (diz?dizem?? nunca sei) que é e, de fato, é assim mesmo, é o fato de ser um país livre. Me parece que aqui realmente todo mundo faz meio o que tiver afim, contanto que seja legal. Então geral sai de pijama na rua pra levar menino na porta da escola, vai soltando comentário sobre a roupa alheia no ponto de ônibus, genuinamente troca ideia com o mendigo na porta do supermercado e coisas do tipo. Então o que eu vou contar a seguir já não deveria ser surpresa pra mim. Mas sempre é.

Pega só: o que rola é que sempre, mas eu digo SEMPRE que abre pro pessoal fazer pergunta, necessariamente vai ter pelo menos um sujeito que vai levantar a mão, pegar o microfone e falar algo do tipo: “seguinte: seu livro não tá bom não. Achei meio mal escrito, não curti o personagem principal, o final foi nada a ver”.

Ok, normalmente é alguma versão mais elaborada disso.

Nesse momento, eu que tava presenciando essa pilantragem pela primeira vez, pirei. Eu comecei a olhar pros lados, esperando uma reação de choque da platéia, uns cochichos, um pessoal indignado. Nada! Galera de boa, achando aquilo ali bacana mesmo, o autor na tranquilidade, reagiu com um “beleza, não curtiu? Quis expressar sua opinião livremente? Tamo num país livre, cumpadi, vai nessa mesmo, #respect. Próxima pergunta”.

Gente. Fala se não tem um valor incrível nisso?

Eu me dei conta de como eu vinha de duas culturas (pelo menos na minha experiência, tanto no Brasil quanto na Espanha) de feedback modelo ursinhos carinhosos, que quando a gente quer criticar o trabalho de uma pessoa você acaba falando mais tempo das coisas ‘super bacanas e positivas’ que você achou pra no final dizer que “talvez, quem sabe, se a pessoa refizer todo o trabalho seria uma oportunidade de fazer algo ainda melhor”. Pois é. A definição do termo bullshit.

Eu sei que aquilo de sair dando pitaco no livro alheio abriu minha cabeça de uma maneira linda!

Poder falar, na frente de uma galera e de um autor que trabalhou uns 10 anos escrevendo o caraleo do livro que você não curtiu mesmo, que você não concorda, que achou fraco. Falar na lata mesmo, sem desrespeitar, claro, mas sem encher linguiça. Maravilhoso!

Pois eis que eu, franga que sou e encantada com a proeza desses indivíduos de espírito livre, resolvo dia desses pegar o microfone, levantar na frente de umas 40 pessoas e do autor ali, logo na minha frente e soltar um: “é, então, curti não”. (ou alguma versão mais elaborada disso).

Eu sei, eu sei. Não tava dando feedback pro secretario geral da ONU, nem tava na frente da platéia de um show da Taylor Swift. E mesmo assim eu me senti prestes a ter uma dos momentos mais cara de pau da vida, frio na barriga.

E num é que eu falei ali que que eu achava mesmo, sem meias palavras, e foi de boa? Ninguém olhou feio, o autor achou de boa, partiu pra próxima, a vida de todo mundo ali seguiu exatamente como se nada tivesse acontecido.

Só eu própria que tava pirando com aquilo, achando o máximo, mais libertador que nadar no mar pelado. Sentei triunfante na minha cadeira, sentindo que inclusive podia sim de repente bater um papo reto com o secretário geral da ONU, porque não?

Então fica aqui a dica: quer levar um tiquim do estilo americano de viver pro dia a dia? Taca-lhe menos Lattedo Starbucks e mais opinião direta nessa vida!! É libertador.

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