A farsa do churrasco

Dia desses me convidaram pra um churrasco.

Então, a primeira coisa que se tem que entender é que aqui nos Estados Unidos não é todo dia que se recebe um convite pra churrasco. Num existe essa convidação de um pra casa do outro todo fim de semana, menos ainda pra ficar comendo carne igual louco, bebendo cerveja e se jogando bêbado na piscina alheia.

Isso pode parecer um fim de semana default na vida de um brasileiro, mas não é o caso por aqui.

Mas eu também tenho que esclarecer que antes de mudar pros Estados Unidos eu fui imoralmente mimada por um grupo de gaúchos em Barcelona que SIM fazia churrasco bem regularmente, daqueles que a picanha fica maturando na churrasqueira por 14 horas e fica aquele festival lindo e fluido de carne rolando até acabar o vinho e daí o pessoal vai comprar mais vinho no supermercado até que o supermercado fecha em algum momento e daí é a hora de ir pra casa. Bons tempos.

Então por mais que o convite pro churrasco tenha atiçado toda uma nostalgia e saudosismo, também existia uma expectativa bastante alta da minha parte.

É com essa premissa que a gente chega no churrasco.

Primeira diferença crucial num programa de churrasco EUA vs. Brasil – a hora da chegada. O brasileiro médio, como todo mundo bem sabe – sim, somos eu e você – ele entende o convite com hora marcada como uma coisa mais simbólica, uma referência vaga, uma abstração mesmo. Então o convite pra duas da tarde prum almoço com churrasco, pode totalmente ser entendido por um brasileiro como “chega aí às 2. Ou às 6 e meia, já almoçado e meio bêbado e traz aí uns amigos se quiser”. E é isso ai, a gente leva a coisa dessa maneira e como todo mundo meio que pensa igual então acaba dando certo mesmo.

Mas num vem fazer isso aqui não. Tá loco? Aqui um atraso de 15-20 minutos é entendível, depois disso, e melhor tu ter um álibi foda pra não ficar mal com o seu amigo, porque ele vai te perguntar, genuinamente preocupado, o que que foi te aconteceu. Vai estar todo mundo te esperando pro almoço começar. Tipo, encara um convite pra comer na casa de alguém com a seriedade de quem vai pegar um vôo internacional, que tem que chegar direitinho na hora – não vale atrasar porque senão, nem precisa aparecer.

Bom, mas sem problemas, chegamos lá, bonito, 2:14.

Primeira surpresa:  churrasqueira apagada. Medo. Quê que tá acontecendo?

Isso não estava previsto. Você tomou só um suco leve de laranja de manhã justamente porque você estava indo pra um churrasco, e você não queria gastar barriga com fruta, aveia e pão francês com philadelphia.

E você sabe bem que churrasco já demora pra começar a rolar e se a churrasqueira não está nem acessa, você calcula que o pão de alho vai começar a sair lá pelas 4 da tarde a picanha então, lá pelas 8:30. Pânico. O que fazer?

Você olha ao seu redor: ninguém parece preocupado, tá todo mundo sussa, tomando seu vinhozinho, sua cerveja. Será que você aborda o dono da casa? De repente ele esqueceu de acender o fogo. De repente o fogo apagou e ele num tá sabendo. De repente um esquilo tropeçou e ligou a mangueira sem querer, acidentalmente apagando o fogo da churrasqueira e o dono da casa não percebeu e você avisa ele e ele te agradece muito e reacende a churrasqueira e tudo volta ao normal e você ganha a primeira fornada de pão de alho por ter avisado sobre a churrasqueira apagada. Vai que.

Mas daí o dono da casa comenta que ele vai esperar uns fulanitos chegarem pra começar a preparar o churrasco (ahá, tá vendo como você pode azedar o almoço alheio chegando tarde aqui??). Você não tem saída e aquele apetite guardado com todo carinho pra alcatra com farofa é desperdiçado numas Pringles sabor barbecue (quanta ironia…) que você tem que comer pra não se jogar no vinho de barriga vazia. Porque claro, se não tem carne, vamos pelo menos tomar todas para gerar uma ilusão mínima de que estamos, efetivamente, num churrasco.

Mas, vem comigo, que esse atraso na churrasqueira não foi nada.

É quando a churrasqueira acende que cai a ficha da crucial diferença do churrasco Americano: ele não é um churrasco.

Raaaa ilusão essa de ir num churrasco em pleno Boston, organizado por gringos! O que eu estava pensando? Que ilusão vaga, vadia, vã. A churrasqueira não precisa ser acendida com tempo, porque ela não tem o propósito de “churrascar”, ela é nada mais que uma grelha pra assar hambúrguer e esquentar um pão com gergelim. Podia ser uma churrasqueira tanto quanto podia ser um forno, uma George Foreman, uma misteira de canto de cozinha.

O ASPASchurrascoASPAS consiste em basicamente deste hambúrguer com salada, milho, bolo de milho e macarrão de forno com queijo.

Ok, eu não tenho problema com isso. Foi uma comida ótima, de verdade, o macarrão tava incrível, a salada! – eu curto salada. Eu não tenho problema com a comida. Meu problema é chamar de churrasco. Por que? É como eu te dizer “chega aí que eu vou fazer sushi” e eu cozinho um macarrão a bolonhesa. “Vem aí tomar um vinho” e eu te faço uma limonada e fica por isso mesmo. Tem que fazer isso? Tem que gerar essa expectativa falsa no coração de um pobre brasileiro?

Pois então ficam aqui dois pedidos: primeiro, uma sugestão de um nome que se adeque melhor a uma refeição que consiste de hambúrguer, milho e macarrão, só pra gente esclarecer melhor as coisas e amenizar relações diplomáticas Brasil-EUA. E segundo, por favor, que alguém me passe o contato de algum brasileiro em Boston, de preferencia gaúcho e que faça churrascos como deus manda.

 

 

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