Filosofia e a festa no apê

Se eu pudesse recomendar, diria pra todo mundo fazer faculdade de publicidade. Depois vai lá fazer o que você realmente queria fazer como carreira, medicina, engenharia, dançarina do Gugu, mas antes, se dá o prazer de fazer o curso de publicidade.

Tenho certeza de que a grade curricular do curso de publicidade foi escolhida por um cara meio reitor / meio mestre dos magos que decidiu juntar todas as matérias mais prazerosas, divertidas e sem-noção num curso só e ver o que daria. E então você tem criação, sociologia, semiótica, fotografia, umas aulas dentro de um supermercado fictício, ó que bacana – e filosofia.

O que me traz ao meu ponto principal. A filosofia, como se pode imaginar, não tem lá muita aplicação pro dia a dia de marketing em multinacional vendendo espuma de barbear, mas ela é boa pra basicamente todo o resto das situações cotidianas. Aliás, se você não foi convencido a fazer um curso de publicidade de quatro anos pelos meus dois parágrafos iniciais, pelo menos me concede um curso online de filosofia.

Eu sei que numa dessas aulas maravilhosas de filosofia às 7 da manhã eu aprendi o conceito de Utilitarismo. Vamos lá, conceituando as coisas, pessoal, porque blog também é cultura: o Utilitarismo é uma teoria da ética normativa que determina que a melhor ação moral a se fazer é aquela que maximiza a utilidade.

‘Mé que é?

Bom, basicamente diante de uma situação de dilema ético, se deveria somar todo o prazer derivado da situação por todas as pessoas envolvidas e diminuir todo o sofrimento também derivado de todas as pessoas envolvidas e com isso decidir que ação tomar. É uma filosofia que se baseia na felicidade ou no bem comum do maior número de pessoas possível, ainda que uma pessoa tenha que sofrer por isso.

Yes, tem um zilhão de questões morais que derivam dessa filosofia, já que ela se baseia numa visão racional pra estruturar as questões éticas. Tipo: “você deveria torturar uma pessoa se essa tortura pode ajudar a salvar várias vidas”? Ou o clássico exemplo: “você jogaria uma pessoa na frente de um trem para pará-lo se isso o impedisse de ter um acidente que mataria muita gente dali a alguns quilômetros?”

Eu sempre entendi a questão moral por traz destes problemas mas ela nunca me incomodou o suficiente pra eu invalidar a teoria filosófica. Provavelmente porque no fundo eu sabia que as chances de eu estar na situação de ter que torturar alguém ou ter que jogar um gordo na frente de um trem pra salvar geral era menos provável do que o Roberto Justus ter sucesso na carreira de cantor.

E pro resto das situações na vida o Utilitarismo vem me sendo bem… útil. Me faz pensar sempre no coletivo e às vezes abdicar de uns prazerzinhos pequenos – como ouvir Justin Bieber no talo no metrô – pensando no impacto pra maioria de pessoas (entendendo que algumas pessoas talvez possam – imagine só – não pirar no menino Justin).

Só que a filosofia é fácil de aplicar quando o esforçim envolvido é pequeno e não tem realmente um impacto negativo na sua vida. Fim de semana passado eu entendi que pra realmente você colocar à prova uma filosofia de vida ela tem que pisar no seu calo, te encher o saco, dar um tapa na sua zona de conforto. Daí a história muda.

Vem comigo.

Tô eu sabadão passado chegando de um aniversário tranquilo na casa de um amigo lá pela meia noite. Entrando em casa eu já fraguei que estava rolando festinha no meu vizinho de cima – do meu apê se escuta cada passo do apê de cima. Táva um barulho alto e complicado pra dormir. Mas como eu fiz 30 anos há pouco tempo e fico querendo dar uma de “tia bacana pra cima da juventude”, encarei com um “ah gente, a vida é pra ser curtir mesmo, YOLO, que essa molecada se divirta”.

Até lá pelas 3 da manhã.

O que se faz as 3 da manhã quando a festinha parece estar no auge, galera pulando de salto alto no quarto em cima do seu e “I got a feeling” tocando pela quinta vez? Eu táva pra botar pantufa e rodar a baiana com o vizinho sem noção quando me veio o pensamento: devem ter umas 30 pessoas nessa festa, curtido pra caralho, felizes demais. E eu aqui, essa pessoinha só que sou, mal humorada. A felicidade de 30 pessoas menos a infelicidade de 1. Puts. Perdi.

Conformada, botei um tapa ouvidos e foquei nessa pessoa maravilhosa que eu estava sendo, deixando geral se divertir. É verdade que a muvuca acabou logo depois e o dia seguinte era domingo e minha principal atividade do dia seria fazer um review das celebridades no baile do Met, mas essa situação me fez pensar em como a nossa noção de moral é bacana naquela situação mais hipotética do mundo ou quando a gente não tem um sofrimento significativo por conta daquilo. Me fez pensar que a minha filosofia de vida, que eu aplico no dia a dia, não deveria considerar “e se EU tivesse que torturar alguém” ou “e se EU tivesse que jogar uma pessoa na frente de um trem” mas sim “e se ME torturassem ou ME jogassem na frente do trem usando uma justificativa filosófica super legalzona?”

Eu fico aqui pensando que em época de crise política e de preconceito religioso pipocando por aí rola de se botar diariamente nos sapatos do outro. E se você fosse pedido pra sair de um avião porque um passageiro te achou suspeito? Se você acha que o cara que apóia o outro partido não merece o direito ao voto porque ele “obviamente não sabe nada de política”, isso valeria pra você também?

Mas se tiver difícil chegar a uma epifania político-social revolucionária, também rola de começa por pensar no vizinho de baixo baixar o volume do som na festinha do fim de semana. É um primeiro passo.

 

 

Advertisements

Donald Trump – uma teoria

Ultimamente, a pergunta do milhão dos jornalistas aqui nos EUA – e talvez pelo mundo afora, é: como diabos o Donald Trump consegue se manter na crista da onda da popularidade nessa altura do campeonato? O sujeito sai ofendendo mulheres, mexicanos, muçulmanos e até o Papa mais bacana da história e segue aí com mais prestígio que peru na ceia.

Fui outro dia numa palestra de um jornalista político foda daqui, que segue a Casa Branca há um bizilinhão de anos e entende tudo do riscado e ele foi direto: nenhum jornalista político previu que o Donald Trump chegaria aonde ele está agora.

No princípio, ninguém dava crédito pro cara, um cidadão totalmente inexperiente politicamente, sem nenhuma afiliação concreta com o partido e que errava a mão no jet-bronze: um peixe fora d’água. Daí ele foi ganhando visibilidade aqui, popularidade acolá mas ainda não convencia.

E então ele começou a botar a boca no mundo, Trump style. Já no começo da campanha ele foi escrachadamente machista pra cima de uma jornalista. Parece que nesse momento pessoal que acompanhava política de perto já pensou: “perdeu, playboy” – ou algo nessa linha mas algo menos malaqueiro. Nada. Nosso amigo Donald só ganhou foi eleitorado. Depois ele começou a chamar mexicanos de estupradores, veio com a ideia de construir um muro na fronteira e mandar a conta pros próprios… mexicanos. “Puts, já era, essa foi pedir pra sair.” Não, não – o danado só arrebanhou mais voto pro lado dele. E daí foi uma debandada de ofender, ameaçar processar e peidar-na-mão-e-jogar-na-cara pra cima de qualquer entrevistador, adversário político ou líder religioso que passasse pela frente.

Enfim, quem vê de fora e não cai na lábia do garoto Trump não entende nada: como assim esse cara me faz umas declarações dessas, dá um tapa na luvas no que é ser politicamente correto e é o líder da candidatura do partido Republicano?

Ninguém sabe muito bem explicar. Ninguém decifrou muito bem qualé a fórmula, como cada vez que parece que o barco vai afundar, ele só navega com mais tranquilidade em direção a uma tragédia anunciada de proporções globais. Pois eis aqui a minha teoria.

Eu me baseio em dois fatos absolutamente não relacionados entre si ou relacionados às eleições americanas mas que me fizeram pensar nesse bizarro e sempre tão surpreendente comportamento humano.

O primeiro é um comportamento costumeiro do meu pai: volta e meia ele está vendo um filme na TV eu chego ali na porta do quarto e pergunto: “e aí pai, tá curtindo o filme?” Às vezes ele está dormindo e não me responde, o que não vem ao caso, mas enfim, pra minha surpresa, às vezes ele me fala: “Tá ruim demais, minha filha. Tô assistindo só de raiva”.

Hm.

Observe, meu caro leitor, quanta complexidade e contradição existe neste deliberado comportamento. A lógica diria que “o filme está ruim” + “gosto de assistir filmes bons” = “logo, mudo de canal e paro de assistir o filme”. E no entanto… não. Se tivéssemos que fazer um gráfico sendo o eixo “x – qualidade do filme” e o eixo “y – vontade de assistir”, ele seria mais ou menos assim:

donald trump teoria.jpg

Minha teoria é a de que chega um certo ponto em que o filme está tão absurdamente horroroso que uma parte desconhecida e pouco estudada do nosso cérebro descobre um certo prazer naquela atividade. De tão ruim, mas tão ruim, ele fica… bom. A gente não consegue parar de ver.

Ok, fato dois: tô eu fragando o Instagram por recomendação da minha irmã – que surpreendentemente encontra tempo pra fragar Instagram, sabe-se lá como – e acabo, como não, no perfil de Kim Kardashian. Aliás, ainda escrevo um post com minha teoria de que todos os links da Internet levam em última instância ao Instagram da Kim Kardashian.

O que rola é que a Kim Kardashian posta fotos absurdas no seu Instagram. Tudo é tão absurdamente curado e maquiado e preparado e posado que faz com que o cabelo do Silvio Santos pareça uma ode à naturalidade. Entre o closet com uma quantidade “vergonha-alheia” de roupas pra ir pra academia, à maquiagem de salão-em-dia-de-casamento que ela usa pra ir pegar um Starbucks na esquina às poses semi-nuas provocantes numa periodicidade semanal, é tudo tão absurdo que você não consegue parar de olhar. Você quer ver a próxima foto sem noção, o próximo exagero. Voltando àquela curva do exemplo anterior, ela passa esse umbral de absurdidade extrema e pimba! Te pegou.

Então daí vem a minha teoria sobre o Trump: o sujeito consegue ser tão, mas tão absurdamente polêmico, sem noção, ofensivo, polarizante, extremo, tão da pá virada que ele… prende sua atenção. Quase como quem espera pela 5a temporada de House of Cards, o sujeito se pega esperando pela 2a temporada do Show do Trump – A Presidência. Pra mim ele foi tão rápido passando de “candidato sem chance nenhuma” a “você viu o que que o Trump falou ontem?” que ele conseguiu saltar a impopularidade e o desinteresse e alcançar esse efeito de: “Não gosto. Mas vejo de raiva”. E daí todo mundo, a favor ou contra o Trump se pega vendo debate republicano, lendo entrevista com ele no jornal e tuitando as suas “frases célebres” só pra alimentar essa safada dessa raivinha-prazerosa.

Eu acho que assim ele conseguiu duas vantagens: primeiro, ganhar a atenção da mídia e do público de maneira alucinante, atingindo uma audiência maior do que qualquer campanha paga poderia chegar e aumentando as chances de converter um punhado de gente dentro dessa audiência; e segundo: espetacularizar a campanha. Independente de que se o que ele está falando tem sentido ou não, o público quer manter ele na corrida só pela vontade de ver o que vem pela frente, só pra ver o circo pegar fogo.

E viciada nessa série tragicômica, a população vai encaminhando pra assinar um mês mais de Netflix, digo, escolher o futuro presidente.

 

 

 

Sobre copos de papel e o sonho americano

Não sei se sou só eu, mas olhando de fora, eu pensava que a vida nos EUA não seria tão diferente da vida na Europa. Talvez porque meu olhar brazuca dividia o mundo entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento, daí que o estilo de vida, o conforto e a segurança da galhiera desenvolvida, do hemisfério norte, do G7 ou qualquer outra denominação que tivessem em comum, me fazia achar que era tudo farinha do mesmo saco. Tirando o centro histórico antigão, o jamón de primeira e as festas com touros muitcho loucos correndo soltos pela rua, eu táva achando que minha vida nos EUA seria basicamente como a minha vida na Espanha, só que sem filme dublado no cinema.

Ahh minha gente, vou te falar uma coisa. A vida muda da água pro vinho – ou do vinho pra coca-cola, talvez? – quando se muda da Espanha pros EUA. Tipo, seria como se um gringo achasse que a vida no Peru, no Brasil, no Timor Leste ou em Ghana seria a mesma coisa, só porque são países assim meio na pindaíba e com um clima tropical. Sim, esse nível de nada a ver.

Enfim, esse descobrimento de que qualquer semelhança entre (o sul da) Europa e EUA é mera coincidência não te vem na forma de um tapa na cara quando você desembarca do avião. Não, não. Eu tô falando de pequenez mesmo, coisa miúda do dia a dia que parece besteira, mas que vai acumulando igual uva passa no canto do prato.

Uma delas é a cultura do descartável. Vem aqui pros EUA rapidinho e entra em qualquer lanchonete de esquina. Pede um prato pra comer no restaurante mesmo, sentadinho ali na mesa, nada de take away. Quê que eles vão te trazer? Um lanche servido num prato de papel e um talher de plástico. No refeitório da universidade, centenas e centenas de pessoas comendo todo dia em – prato de papelão, talher descartável e copo de cartolina. Soma isso ao canudinho, devidamente embalado um a um em embalagem de papel e pira na quantidade de lixo que se acumula nesse país a cada dia.

Nem me vem com o argumento de que essa quantidade absurda de embalagem é “mais ecológico” do que a quantidade de água e sabão que se usaria pra lavar um prato que até a Dilma me inventa desculpa melhor que essa. A verdade é que dá uma pena danada ver uma quantidade alucinante de papel se acumulando no lixo no final do almoço na faculdade. E argumentos ecológicos à parte: me diz qualé a graça de tomar um vinho numa taça de plástico ou de ficar espetando a lasanha porque o garfo fubá perdeu uns dois dentes tentando pescar a cenoura?

E eu fico querendo olhar essa experiência aqui nos EUA com um olhar antropológico, “linkar” as coisas pequenas à grande filosofia de vida do país. E vou chegando à conclusão de que essa cultura do descartável é um reflexo muito claro de dois aspectos mais profundos da sociedade – aham, sim, estou tirando conclusões profundas sobre o estilo de vida americano depois de ter passado um ano morando em apenas uma cidade do país e convivendo 90% desse tempo com estrangeiros. É meu blog então é isso aí mesmo.

 

A primeira, é de que essa cultura do descartável reflete como o americano não tem muito essa de cultivar a joie de vivre, o dolce far niente, o “relaxing café con leche” dos países do sul da Europa – quer prova maior do que a falta de expressões gringas pro assunto? Parece que a ideia por aqui é estar sempre on-the-go, sempre indo fazer algo, cumprir um prazo, produzir. Até porque o próprio lugar de se tomar um café com leite e supostamente relaxar – pense num Starbucks ou similar – já virou lugar de trabalho por aqui. A ideia de sentar com os colegas do trabalho pra fazer um almoço de uma hora e “comentar la jugada”, reclamar do cliente sem noção ou discutir os comentários da Glória Pires no Oscar parece completamente despropositada. Não que não exista um coleguismo bacana por aqui, claro que sim. Mas é mais no vapt-vupt. Então tanto faz se o talher é de plástico, o prazer da refeição em si fica mais secundário. Parece que ninguém tá ali só pra curtir o momento, inclusive nos programas de lazer mesmo. Parece que rola um fenômeno de DDA coletivo, onde ninguém tá lá muito concentrado numa coisa só ao mesmo tempo. Já comentei por aqui a quantidade de TV que rola nos restaurantes, o nível alucinante de entretenimento nos intervalos dos jogos de basquete, tem sempre mil estímulos acontecendo ao mesmo tempo e até o momento de ficar de boa tem que ser extremamente entertaining – tipo a tela da Bloomberg, quanto mais conteúdo, melhor. Me parece que não tem muito essa história de só sentar pra tomar uma, pedir um petisco, bebericar um vinho – numa taça de verdade – e deixar a noite passar marota. Até porque depois de cada cerveja o garçom já vai trazer a conta pra mesa – “no pressure, guys”.

A segunda, e mais óbvia, é a ideia de que esse hábito do descartável reflete uma cultura que ao mesmo tempo idolatra e banaliza o consumo. Esse descaso com a quantidade de embalagem que se joga fora pra mim reflete o descaso com o objeto em si. Quebrou? Compra outro no próximo Black Friday. Enjoou da roupa que nunca usou? Chega ali no outlet e compra umas 5 mais. A combinação de uma oferta enorme de produtos relativamente baratos ao fato de que a cada semana você recebe uma oferta de cartão de crédito pré-aprovado pelo correio é um coquetel molotov pro bom senso no consumo. No princípio, eu achava incrível como por aqui é super fácil devolver alguma coisa que você comprou e que simplesmente desistiu de ter. Hoje em dia eu vejo como isso banaliza a compra. Você acaba levando pra casa porque pode trocar quando quiser, então, whatever.

Sigo achando que esse país tem coisas muito fodas, incríveis, legais pra caramba? Sim. Principalmente depois de ter assistido a 4a temporada de House of Cards, é muita competência pra produzir conteúdo, valha-me deus.

Mas também vou vendo aos poucos que esse american dream parecia mais bonito nos filmes de adolescente que eu assistia na sessão da tarde do que na vida real. Tem muita coisa que, de longe, parece lindo – mas vendo de perto assim, pegando na mão mesmo – a gente vê que é tudo meio… descartável.

 

 

O post mais incrível já escrito*

*disclaimer: na opinião do meu pai.

Tenho uma má notícia para quem quer morar em Boston: aqui não se pode lamber paredes. Puts, foda, eu sei. A prática de lamber paredes taí tão difundida por esse mundão afora e o cidadão chega aqui e me encontra um impedimento desses, onde já se viu!?

Achou o parágrafo aí de cima meio surreal!? Eu também. Mas eu de fato tive que assinar um documento, junto com o contrato de aluguel do meu apartamento, dizendo que eu estava consciente do risco de lamber paredes de apartamentos na cidade de Boston, já que a tinta usada nas paredes há uns 90 anos tinha uma quantidade de chumbo que poderia ser nociva para a saúde.

A pergunta que me veio a cabeça foi: qual a chance? Quantas pessoas já devem ter lambido a parede do apartamento pra essa cláusula ter sido incluída no contrato? Minha gente, eu tenho duas sobrinhas de 2 anos e meio: até elas sabem que parede, ao contrário do balanço do parquinho, não se lambe. O negócio é que basta uma pessoa fazer algo que contradiz o bom senso e o pensamento minimamente crítico, se dar mal, processar e ganhar uma grana preta – porque afinal “ninguém me avisou que eu podia queimar a língua com café quente” – pruma enxurrada de situações bizarras entrarem pra lista de disclaimers – ou Avisos Legais – do produto em questão.

Então sim, provavelmente alguém, em algum momento, lambeu uma parede, passou mal pra caceta, achou aquilo o fim da picada e meteu um processo na corretora irresponsável que tinha esquecido de mencionar uma instrução tão relevante.

Ok. A gente assina o documento, sem problemas.

Mas agora imagina a lógica da lambida de parede aplicada a TODOS os produtos e serviços prestados nesse país? Eu entendo que a ideia por trás do disclaimer é, em princípio, proteger o consumidor: é pensando no consumidor que o copo de papel no Dunkin’ Donuts tem um aviso parecido a um “Epa, cuidado! Este café está quente. Café quente pode queimar a língua. Sua língua pode ser queimada por este café”. Mas a gente encontra tanto disclaimer pelo caminho que aquilo já vira ruído branco, vira Facebook de ex-BBB – com o tempo todo mundo deixa de prestar atenção.

Nesse momento a prerrogativa se inverte e o esquema vira um “lavo minhas mãos” por parte do fabricante. Não leu o artigo 118 das condições de risco sobre comer um muffin de chocolate na padaria da esquina e passou mal? Azar o seu. O dono tá cobertinho desde um ponto de vista legal e é isso que importa.

Assumir que todo mundo vai ler todos os avisos – do tipo, “não aproximar este material ao fogo” em letra Arial 5 na etiqueta interior da calça jeans, é um desatino. E acaba tirando o poder de argumentação do consumidor já que ele, em teoria, foi avisado.

Ok, talvez isso não tenha um impacto muito relevante no caso da “lambeção” de parede – querendo acreditar que 99,9% da população já não ia fazer isso mesmo – o bicho pode pegar quando a gente fala de serviço de empréstimo ou hipoteca.

O anúncio de rádio pra esse tipo de serviço por aqui se divide entre 25 segundos de uma mensagem bacana, promissora e confiável, seguidos de 5 segundos em que se cospem 17 disclaimers sobre os riscos do serviço e juros-do-capeta no caso de atraso no pagamento. A ideia é até bacana: é obrigatório que os disclaimers sejam efetivamente locutados por uma pessoa, não pode gravar e botar a fita pra acelerar na hora de passar o anúncio. Mas te juro que os bancos e as seguradoras contratam ex-narrador de rinha de galo pra essas locuções, porque na prática o texto é basicamente ininteligível pros ouvidos do cidadão médio.

O resultado: uma população mal informada e totalmente desprotegida legalmente.

E pra mim essa história toda mostra um lado meio esquisito do modus operandi gringo: em vez de estimular o senso crítico e trabalhar para que cada dia menos pessoas pensem que lamber parede ou tacar uma calça jeans no fogão aceso é uma boa ideia, se decidiu foi tapar o sol com a peneira. O caminho escolhido foi o de simplesmente botar um novo disclaimer na lista a cada processo milionário que um cidadão meio sem noção ganha contra uma empresa. Mas será o benedito, desenvolver o bom senso da população não seria um tiquinho mais eficiente?

Afinal de contas, não estamos falando mais do perigo do meu vizinho não ter senso crítico pra manusear uma calça jeans e acidentalmente tacar fogo no segundo andar do prédio.

Estamos falando que, na falta de senso crítico, ele acidentalmente pode eleger o Trump.

The universal art of Fake Working

this-is-how-I-look

So here I am, this serious and committed person that I am, sitting at the library trying to find any logic behind the declination of adjectives without articles in this oh-so-pleasant language called German and I catch myself being constantly distracted by a girl sitting in front of me, two chairs to the right.

I must have been in the library for about 3 hours now, time needed to start dipping my tippy toes into the basic concepts of the German grammar and this girl has been sitting there the whole time. Book, notebook and pen tidily placed, our friend has spent the entire 3 hours typing on her cell phone, chatting. Ok, ok, there’s a small probability that she has been reading War and Peace while writing some ground- breaking-awesome academic notes, but you and I know that she is really on Whatsapp, not to say Tinder.

Now, I don’t have any problem whatsoever with spending 3 hours chatting on Whatsapp. Just yesterday I watched 4 episodes of The Office in a row, so I’m not really in a position to be judging other people’s time management skills. But what I’m not capable of understanding is why this person would change out of her pyjamas, leaver her house, catch a bus, arrive at the library, pick a book, open her notebook and take her Bic 4 colour pen out of her backpack when all she wanted to do was chat with her friends and re-read the #HappyBirthdayJustinBieber tweets.

Why would she do that?

I guess I got this sense of justice combined with an extreme nerdiness and I get really mad with the fact that this person will meet her friend for lunch in a few moments and will complain on how she was busting her ass off working at the library, followed by an obviously fail on her test, her friend will find this whole thing unfair, mean even, and will key their teacher’s car making yet another innocent victim of the syndrome of “procrastination disguised as work”, also known as Fake Working.

Fake Working is an old phenomenon, and it’s estimated that 100% of the population will suffer from a Fake Working attack at some point in their lives. Maybe it will hit you on a Friday, 6:30PM, when you’re waiting for your boss to ask you for the last couple of changes (will never be) on that power point presentation; maybe on a Thursday at the office after lunch, when the hangover of that last beer kicks in or maybe even on that group work with that perfectionist colleague that you know is going to re-do the whole thing on his own. Sooner or later, it will happen to you.

But the thing is that with the arrival of the smart phone, Fake Working has become mundane. It has spread to never before imagined aspects of our society, like gyms and bars, just to name a couple.

I’m talking about that guy that gets to the gym, does a couple of abs, 15 minutes of Facebook. Lifts some weight here and there, checks out Snapchat. And in the end, that person spends 2 hours at the gym and leaves with the idea of “oh my god, just did a major work out” which leads him to post #nopainnogain #mondayworkout #gratitude on Instagram and feel great about it.

That’s called the Fake Working Out

And you can tell me that 5 push-ups or 15 minutes of slow texting/walking on the treadmill is better than nothing. Yep. But the tricky thing about Fake Working Out is that many times it manages to convince the “worker” himself that he actually did something. So this guy will leave the gym and go for a whopper with large fries because he really believes he worked out like a pro.

Just like that girl who will meet with some friends for a beer and will spend half of the time half listening to the conversation and half of the time checking out Whatsapp, Facebook, Tinder, Cara Delevinge’s Instagram and looking for a 3-day-old Leo-Oscar meme to retweet.

Let me tell you, this is not spending time with friends. Do not fool yourself thinking that you’re super enjoying yourself with your girls; that you’re investing on high school friendships, that’s not what you’re doing. That’s just Fake Socializing.

And the great irony behind all this is that you can start a routine of constant Faking, because you’ll be Faking Working at the office while talking to your friends, Faking Socializing with your friends while you’re answering an email from your dad, Faking Being An Awesome Son with your dad while liking your girlfriend’s photo on Instagram and… to infinity and beyond.

Oh, those good old days when Fake Working meant leaving the excel open on a 2003 spreadsheet while we daydreamed about our next weekend’s date. Faking went from being a harmless work distraction to becoming a life style.

And the deal is: Fake Working is not cool for anyone. Ok, maybe for Mark Zuckerberg. Definitely for Mark Zuckerberg. But besides him, it just leaves innocent victims along the way, it’s just sad. It’s sad for the person who thinks he/she is doing something when they actually aren’t, they are just patronizing themselves only to feel frustrated further down the road because the results of “such hard work” didn’t come along. It’s also sad for the people who don’t want to fake, who actually want to have a nice conversation or study peacefully. Because they end up loosing their time talking to someone who only replies with “Yeah. Totally” or distracted from something serious and cool like studying the German declination of adjectives without articles and start writing posts like this one.

So here’s what I ask of you: if you know that you have a tendency to Fake Working and you’re going through a Fake Working phase in your life, do us all a favour and stay home. Please, keep this foolish-procrastination-disguised-as-interest-and-proactivity to yourself. Tell your boss you’ll finish the power point over the weekend, it will be better for everyone.

And there’s no need to feel guilty about it. Procrastination is normal, it’s a part of our lives. It’s only dangerous when we think that tagging it with #workhardplayhard is actually going to change something.

A universal arte do embromation

this-is-how-I-look

Tô aqui eu, pessoa séria e comprometida que sempre fui, sentada na biblioteca tentando encontrar alguma lógica por trás da declinação de adjetivos sem artigos nessa língua delícia que é o alemão e me pego constantemente distraída pela moça sentada na minha frente, duas cadeiras pra direita.

Eu devo estar na biblioteca há umas 3 horas, tempo necessário pra começar a molhar o dedo do pé nos conceitos básicos da gramática alemã e quando eu cheguei a dita menina já estava ali, sentadinha. Livro, caderno e caneta à frente, nossa querida companheira de biblioteca, acredita em mim, me passou todo este tempo teclando no celular, batendo papo. Ok, existe uma pequena possibilidade dela estar lendo Guerra e Paz na telinha do Iphone5, e escrevendo comentários super acadêmicos e fodas, mas eu e você sabemos que ela tá é no Whatsapp, pra não dizer Tinder.

Eu não tenho nenhum problema em passar 3 horas batendo papo no Whatsapp. Ontem mesmo eu vi 4 episódios seguidos de The Office, então ninguém aqui tá podendo jogar pedra no time management alheio. Mas o que eu não sou capaz de entender é porque a pessoa troca de roupa, sai de casa, pega o ônibus, chega na biblioteca, escolhe o livro, abre o caderno e tira a Bic 4 cores da mochila se a intenção era só trocar ideia com os amigos e ler os hashtags do #HappyBirthdayJustinBieber no Twitter. Por quê que faz isso?

Tem um espírito meu de justiça e ‘nerdisse’ que se irrita com o fato de que essa pessoa vai encontrar com o amigo pra almoçar daqui a pouquinho e vai reclamar do tanto que táva ralando na biblioteca nas últimas 3 horas, e daí vai se dar mal pra caralho na prova, o amigo vai achar isso tudo uma injustiça, uma sacanagem, vai arranhar o carro do professor com a chave do escaninho e uma pessoa perfeitamente inocente vai ser mais uma vítima da síndrome da procrastinação disfarçada de trabalho, também conhecida como embromation.

A embromation é um fenômeno antigo e estima-se que 100% da população sofrerá um surto de embromation em algum momento da vida. Seja na sexta-feira às 6:30 da tarde quando você está esperando o chefe te pedir as últimas mudanças (jamais serão) no power point da apresentação de segunda; na quinta-feira no escritório depois do almoço quando a ressaca daquela saideira bater ou naquele trabalho de grupo com o coleguinha que vai acabar refazendo tudo do jeito dele. Mais cedo ou mais tarde, vai rolar.

Mas acontece que o advento do smart phone banalizou a embromation e possibilitou que ela se espalhasse pra âmbitos jamais esperados da nossa sociedade, tipo academias, bate papo no bar ou até no trânsito, pra citar aqui só uns exemplos da ponta da língua.

Fala se não é cada vez mais frequente a cena do sujeito que chega na academia, faz ali um abdominal, 15min de Facebook. Puxa ali um pesinho, bora postar vídeo no Snap. E nessa, a pessoa passa 2 horas na academia, sai com aquela leveza de “malhei demais”, posta um #ralação, #segundaédia, #nopainnogain no Insta e ficou por isso mesmo. Você pode me dizer que 5 abdominais ou 15 minutos caminhando na esteira é melhor que nada, né não? Sim. Mas acontece que o tiro no pé da embromation é que muitas vezes ela deixa o próprio embromador com a sensação de dever cumprido. E daí esse sujeito me sai da academia e manda ver num whopper com batata grande porque ele realmente acredita que malhou como deus manda.

Assim como aquele brother que encontra com a galera pra tomar uma e fica metade do tempo meio ali meio no Whats, meio no Face, meio no Tinder, dá uma passadinha rápida no Insta da Gabriela Pugliese e retwitta um meme engraçadinho do Leonardo DiCaprio no Oscar. Amigo, isso não é passar tempo com as pessoas. Não se engane achando que tá super curtindo a galera, investindo na amizade com o pessoal do colégio, o nome disso é embromation social. E a grande ironia é que, nesse esquema, a vida pode passar a ser uma grande embromation, porque você tá no trabalho falando com os amigos, tá com os amigos respondendo um e-mail do seu pai, tá com o seu pai dando um like na foto da namorada e por aí vai.

Ah, que nostalgia daquele tempo em que embromar era deixar o Excel aberto numa planilha de 2003 e ficar mentalizando o encontro com o paquera no finde.

A embromation deixou de ser um passatempo inofensivo do trabalho e virou um estilo de vida.

E o negócio é o seguinte: a embromation não é bacana pra ninguém. Ok, talvez pro Mark Zuckerberg. Com certeza pro Mark Zuckerberg. Mas além dele, ela só deixa vítimas pelo caminho, é uma tristeza danada. Tanto pra pessoa que tá achando que tá fazendo alguma coisa mas num tá nada, tá só se auto-dando-um tapinha-nas-costas de dever-cumprido e depois vai se frustrar porque o resultado daquele esforço todo não chegou; quanto pras pessoas que tão ali de peito aberto, sem querer saber de embromação, a fim de ter uma conversa bacana, de estudar tranquilo. Porque elas acabam perdendo o tempo conversando com uma pessoa que só te responde “Aham. Top.” ou te distraem de uma coisa séria e bacana que é estudar a declinação de adjetivos sem artigos do alemão pra escrever um post desses, vê só.

Então, o seguinte: você, que já sabe que tem tendência à embromação e está passando por uma fase embromadora, faz um favor: fica em casa. Guarda essa procrastinação safada vestida de interesse e proatividade pra você. Fala pro chefe que acaba a planilha no fim de semana, vai ser melhor pra todo mundo. E não precisa se sentir culpado. A procrastinação é normal, faz parte da vida mesmo.

O perigo é achar que só sair etiquetando #workhardplayhard pela vida afora vai realmente mudar alguma coisa.

 

 

I shop, therefore I exist

A few months ago I realized how the US are especially competent when it comes to enjoying a holiday. They do it better than anyone else. Be it X-mas, Thanksgiving, Halloween or whatever Coca-Cola decides to come up with next; these guys really go for it. And you can tell which holiday is coming next by the new flavour of Starbucks’ limited edition latte, the décor at the Korean supermarket around the corner and by the amount of random themed products that you’ll find at CVS.

So I thought that yep, sure this could all get sort of out of control and get us stocking dusty papier-maché turkeys, plastic pumpkin lanterns and neon Rudolphs. But I also thought that we could just enjoy the super excited approach to holidays without necessarily having to buy into the consumerism behind it and get a loan just to take our significant others to that fancy French bistro on Valentine’s Day.

But I guess I have to admit that the idea behind this overdosed celebration is, indeed, to fuel consumerism. The goal is to think of all the possible products and services that could remotely relate to the holiday in question, wrap it into a nice package, get Kendall Jenner to share it on her Instagram and… bang! Almost impossible not to want two of it.

I was naïve to think that everyone has the common sense, solid values and their priorities set straight, and could free willingly duck away from the temptation to buy an expensive teddy-bear-holding-a-heart if they’re having a hard time to get the rent in the end of the month.

But to assume that a great part of the population has had access to the solid education and upbringing that takes to build those values is ludicrous. Especially when we’re talking about a country where media has such a substantial power; a country where, in the most important sports event of the year, you get more adds than… sports. The pressure is just so vile that I understand how people give in. Give in to that offer of yet another credit card that’s mailed weekly to your front door, ending up with a crazy debt just to have that tiny moment of shopping bliss.

Every manufacturer gets that and the great challenge lays in discovering, each year, how to sell more and how to charge more for it. Here in the US, as in any other country, stagnating is not an option. But here’s what I find special about America: they are far more creative than other countries.

One example from Boston: the city where the Sons of Liberty threw tea into the sea in 1773 as a way to protest against Britain’s taxation tyranny, initiating the Boston Tea Party movement. Well, did you know that today, “for the small amount of $25” you can actually take the Boston harbour Museum tour and simulate that you’re throwing the tea into the water yourself! Now ain’t that brilliant? I mean it, really ingenious people.

But what caught my attention the most, what made me understand that there’s no limit when it comes to finding new sources of income happened on Valentine’s Day.

Now, please don’t tell me you thought a Lindt chocolate box was a good valentine’s gift. Did you fall for that teddy-bear-with-a-heart thing? Shame on you. Why buying roses when you can buy… a star!?

No, this is not metaphorical. I’m talking about an actual star, these shinning celestial bodies that have been hanging around for such a long time, just waiting to be a part of our great free economy game.

Well, with $54 dollars you can “buy” or “give the gift of” a star. Or at least that’s what the ad says. Actually what you do is you name a random star in the Universe (actually most likely the fading light of an already “dead” star) with whatever name you feel like so you can hang on your bedroom wall a certificate stating that somewhere out there, in the most profound depths of the Universe lays a star named “Bill & Susan forever”. Because isn’ t that the coolest thing ever?

Oh, by the way, this is the price for the basic deal. Why not upload to the Deluxe and get the certificate framed into a beautiful golden frame and a card to go with it, so you can take the coordination of your star’s location with you all the time? What the hell, just get a whole constellation and name all of your family members! Engrave jewellery with your star’s coordination! The possibilities are as infinite as…well as Universe itself!

All I know is that, while for some people this bizarre amount of offers feeds that crave for sliding one’s credit card, for me it has been having the opposite effect. The more I realise how banal consumption has become, the less I want to buy. I guess I’m afraid of letting myself go a little and not knowing when to stop; maybe I just don’t want to feel fooled realizing I felt into a silly “limited time only” trap. All I know is that it got me thinking if I really want to buy all that stuff or if I’m just letting myself get carried away. Most times I end up leaving everything in the dressing room and getting out empty handed. And it feels good.

So my proposal today is: shop less. Think twice if you really need another bag; didn’t you have a shirt just like that at home? Spend less time worrying about what to get for your dad for x-mas and just spend some time with him.  Spend more time enjoying all that stuff that “you wish to do, but never have the time to do it”. I reckon that this sort of bliss is a tiny bit more long lasting than getting a huge deal on that a-mazing last season’s Michael Kors.

Oh, and you might want to include appreciating a starry night once in a while on that list. Just in case, while it’s still free.

Compro, logo existo

Alguns posts atrás eu falei sobre como os EUA são especialmente foda em viver feriado como nenhum outro lugar. Pode ser Natal, Thanksgiving, Halloween ou o que a Coca-Cola decidir inventar a seguir; esse povo se joga de cabeça na vibe temática e vive aquilo com uma satisfação que dá gosto. Dá pra antecipar qualé o feriado ou a data comemorativa que tá vindo pelo sabor do latte edição limitada no Starbucks, a decoração do supermercado coreano da esquina e pela parafernália de objetos de consumo de teor do mais variado que se encontra na farmácia.

E eu disse que acho sim que isso tudo pode desandar prum consumismo do tinhoso e fazer a gente acumular poeira no armário em cima da geladeira com peru de papel machê, abóbora de plástico e Rudolph de neon. Mas também acho que dá só pra curtir a empolgação americana com feriado sem entrar nessa de comprar bugiganga e sem se endividar caindo na pegadinha do pack especial de dia dos namorados do bistrozinho descolado.

Mas sim, tenho que admitir que a ideia por trás dessa overdose de celebração é motivar o consumo. Pensar em todos os produtos e serviços que poderiam meramente se relacionar com o feriado da vez e botar num pacotinho bacana, subir uma propaganda com a Kendall Jenner no Youtube e – pimba! Fica quase irresistível querer dois de cada.

Na minha inocência, eu considerei que com um tiquim de bom senso, com valores sólidos e com as prioridades arrumadinhas na cabeça qualquer cidadão poderia, de livre e espontânea vontade, se esquivar da tentação de comprar um urso de pelúcia abraçando um coração quando se está pelejando pra pagar o aluguel no fim do mês.

O negócio é que assumir que a grande massa da população teve uma base sólida pra construir esses valores é lorota. Ainda mais morando num país onde a mídia tem um poder do caramba, onde no evento esportivo mais celebrado do ano rola mais comercial do que esporte. A pressão externa é tão absurda que entendo como tem muita gente que acaba cedendo. Acaba aceitando a oferta de – yet another – cartão de crédito que chega pelo correio cada semana e acaba acumulando uma dívida bizonha pra ter aquela satisfaçãozinha tão momentânea do consumo.

O mercado entende isso e o grande desafio vira descobrir como, cada ano, vender mais e mais caro. Aqui nos EUA, como em qualquer outro lugar desse mundão afora, estagnar não é uma opção. E eu achei que, nesse quase ano de viver em terras gringas, já tinha visto de tudo. Não mesmo.

Se há de dar crédito ao povo americano por uma coisa: eita povim creativo.

Um exemplo aqui de Boston – e de quebra uma palhinha de história: aqui foi onde se iniciou o movimento do “Boston Tea Party” em 1773, com os Sons of Liberty jogando no mar o equivalente a $700.000 de chá como maneira de protestar contra a tirania dos impostos ingleses. Pois hoje em dia você pode ir no porto de Boston e – por apenas $25! – reviver a experiência de 1773! Simule que você mesmo está jogando caixas de chá no mar! Fala se não é brilhante? Esse povo não tá de brincadeira não.

Mas o que mais me chamou a atenção, o que me fez entender que não existe limite em se tratando de fazer circular doletas no mercado, rolou no dia dos namorados.

Vai me dizer que você achava uma caixinha de trufas da Cacao Show era um presente bacana? Caiu naquele truque do urso de pelúcia com coração afinal? Shame on you. Para quê comprar rosas se você pode comprar… uma estrela?!

Não é metáfora não, tô falando de estrela mesmo, esses corpos celestes brilhantes que tão aí no céu há tanto tempo dando bobeira pra virar mercadoria.

Pois a partir de $54 você pode “comprar” ou “dar de presente” uma estrela. Ou pelo menos isso é o que a propaganda diz. Na verdade se trata de dar o nome que você quiser a uma estrela aleatória do universo e receber um certificado de que rola uma estrela na profundidade do cosmos (ou provavelmente a luz de uma estrela que já não existe há milhares de anos, aliás) nas coordenadas xyz com o seu nome. Ó que bacana.

Ah, bom, ok, esse é o preço do pacote básico. Por que não fazer logo um upgrade pro deluxe e receber o certificado em uma moldura dourada metálica e um cartão pra levar no bolso com as coordenadas da sua estrela, em caso de emergência? Dá pra comprar constelação e botar o nome de cada membro da família. Bota a coordenada da estrela num pingente de coração, já que tamo nessa mesmo. As oportunidades são tão infinitas como… bom, como o universo mesmo.

Eu sei que enquanto pra muita gente essa oferta disparatada de consumo só atiça aquela vontade de lascar a mão no cartão de crédito, pra mim tem cada vez mais gerado o efeito contrário. Quanto mais eu me dou conta da banalização do consumo, mais eu quero comprar menos. Acho que rola um medo de me deixar levar se eu cedo um pouquinho e uma antipatia de me pegar caindo em tentação sabendo como tá tudo programado pra me fazer escorregar na armadilha. Eu fico sem saber se quero comprar aquele troço mesmo ou se me deixei influenciar de alguma maneira e acabo deixando tudo no provador e indo embora de mão vazia.

Proponho aí o desafio pra quem tá vindo pros EUA de férias, quem vai passar uma semana em NY, uns dias em Miami. Entra nessa não. Pensa bem se você precisa mesmo comprar tanta coisa, vai usar quando? Não tem outro parecido? Volta pra casa com a mesma mala que trouxe, larga mão do outlet e se esmera pra ver as outras mil coisas legais que se pode fazer por aqui.

E se pegar um vôo noturno voltando pra casa, da uma espiada no céu estrelado pela janelinha do avião – aproveita que olhar ainda é de graça.

Happiness is a matter of benchmark

Last week I discovered a new fun fact that I just have to share with you guys: -40 degrees is the temperature where Celsius and Fahrenheit meet.

Now, ain’t that something?

And you can ask me “wait, but how the hell does the equation that relates Celsius to Fahrenheit work then? – that’s crazy”. I know. But actually what you should be asking me, as I would’t have a clue about how to answer that #foreversocialsciences is: “wait, but why the hell did you lose any time searching the conversion between    -40 Fahrenheit and Celsius?” And the answer is simple: Google told me that the weather in Boston last weekend would “feel like” -40 Fahrenheit and I thought, for just a innocent second, that maybe that meant +22 in Celsius. You never know, right?

Yeap, not the case.

Resigned and with cold feet, I woke up last Saturday and went to check the weather on my cell phone app to see if it was still safe to go out and get some eggs at the supermarket from the corner. It’s that old saying: “If life gives you -40 degrees, you make yourself some eggnog”.

Now, a bit of context: December last year I travelled to Colombia and, to be updated on the weather over there I added “Cartagena” to the list of cities to follow on my phone’s weather app.

Don’t try this at home. Ever.

Cartagena is a nasty little city where the weather dares to vary from 80 to 95 degrees all year long. Spoiler: if you go to Cartagena next winter it will be 80 degrees by night and 95 degrees noon. Out of shameless laziness, I ended up leaving it on my weather app. And ever since, every time I go check the weather in Boston what I find is: Cartagena: 81 degrees, Boston, 19. Cartagena: 89, Boston: 10. And every time I think that there’s someone in Cartagena dragging some flip flops around and drinking mojitos while I’m mummifying myself in scarfs to go to the supermarket around the corner I get a little bid sad. It’s not deep sadness, it’s more that tiny second when of bumping-your-little-toe against-the-coffee-table or waxing-your-calf-with-cold-wax type of thing. But still, it happens every time.

Ok, back to last Saturday morning. I decided I had had enough of this daily dose of grumpiness – specially because I knew Boston could never beat Cartagena, not even in the summer, and I decided to adopt a new tactics: I snapped “delete” onto “Cartagena: 93 degrees” and searched for a city just about in the middle of Siberia, that was reasonably populated and had a satisfying winter weather average: Novosibirsk. 1.5 million people live in this beautiful city. 1.5 million people are, as we speak, at -8 degrees. Boston: 23. Novosibirsk -7, Boston: -25, Novosibirsk: -18, Boston: 20.

Muahaha!!

I’ve been in love with Boston ever since. What a pleasant weather! Delightful afternoon winds! In Novosibirsk the sun rises at: 11AM. Sets at: 11:17AM. And Boston with this wonderful daylight until 4PM, what a luxury!

Now, please observe my dear readers, how basic, naïve and bastard the human happiness can be. Observe that absolutely anything regarding the circumstances of my day has changed. It’s not a degree warmer in Boston, one should note. I’ve just changed the benchmark, my base of comparison, if you will. In the attempt to feel more at ease with Boston’s winter, I found a goddam shortcut to happiness.

“Ok, but why should I care, if I live in Miami, Santa Barbara or Singapore and I don’t have to compare myself to a habitant of Novosibirsk to feel happy about my life?”

That’s the thing. The benchmarking technique can be actually applied to the most various different aspects of life. And I tell you something: it IS already responsible for outlining our happiness without we even realizing it. I bet that most of us, facebook likers and instagram voyers suffer with the silent exposure to a “destructive benchmark” that little by little, post by post, gets us to think that our life is lees cool, our vacation less awesome and our friends less likely to be tequila shots partners.

All this filter of information that happens through the facebook-of-the-season makes it so that everyone else’s lives look a lot like Cartagena while we’re stuck in Boston in the winter. And that’s not fair because, by simple logic, if most of us feel this way, this can not possibly be true. But as nobody posts pictures while “On my boxers, farting and watching Seinfield re-runs” and we all post “awesome weekend at the Suisse alps with the best friends in the world” we end up with this bad “my life is mediocre” taste in our mouths.

I think the biggest issue with all of this is that we’re not entirely conscious about it. Up until I replaced Cartagena for Novosibirsk I hadn’t realized just how much that comparison was affecting my mood every day. And I think that those 15min of sliding our fingers through our timeline can seem harmless, but they’re actually rather perverse. Every backpacking trip around Europe, every friend that comments on an amazing new project at work every, “I’ve just ran 4,3 miles with Nike. Feeling blessed” adds up and builds a little sadness inside of us, and in my view, contributes to have a whole generation pressuring itself to “live life to the fullest”, “do what you love all the time”, “be happy today as if it were the last day of your life”. Because we do get deluded that there are a lot of people, or worse – a lot of our friends, our college classmates, the guy sitting next to us at work – that are just having a blast all the time.

Well, let me tell you something: a lot of people who live in Cartagena do get fed up with the heat from time to time. So, let’s stop fantasizing that everyone else’s lives are – just – wonderful in 3,2,1?

Oh yeah, sure, but how do I do that? Ok, can I start following a friend that has never travelled beyond Kansas so I can feel better about spending my summer at a cheap all-you-can-eat buffet hotel in Florida? Yep. Can I invite an unemployed friend to join LinkedIn so I feel better about my boring job? Sure, add me to your connection’s list, be my guest.

But while I believe this tactic is – highly – effective to calm down winter grumpiness, I do advise something a little more long-term to deal with important life issues: compare yourself a bit less with your high school mate, speculate a bit less about your neighbour’s life, delete facebook from your phone and… wait for it – become your own benchmark!

Wait, what, is that even a thing? Hell yeah!!

Are you feeling a bit “help, just woke up in Boston in the winter”? Think about how much you’ve learned at work ever since that crazy new boss arrived last year; celebrate how much your Spanish has improved ever since you’ve started watching Narcos; spend a little more time going over the photos of your last family trip and less time at Chrissy Teigen’s Instagram; compare yourself less to your professional snowboard friend and remember that, for someone that a year ago couldn’t even stand up in skis, going down the children’s slope is goddam amazing (by the way, if you do need benchmark to feel better about your ski skills, I can send some personal videos).

I know that this smells like those “before iphone everybody talked to each other at the subway” talks, but that’s not what this is about. I really don’t think that that Zuckerberg kid is to blame. This impulse of comparing oneself to ones peers is inherent to our nature. But I do think that with facebook, instagram and other networks it has become a lot easier to access other people’s “intimacy” and curate the image we project to the world, so we do need to make an extra effort so that our neighbours’ super exciting lives don’t occupy too much space in our imagination.

But anyhow, if none of this works, worry not: just get a ticket to Cartagena and you’ll be just fine.

Felicidade é questão de benchmark

Fim de semana passado eu descobri um fato novo interessante pra dividir com aqui vocês, pessoal: -40 graus é a temperatura onde celsius e fahrenheit se encontram.

Ó que bacana.

E você pode me perguntar, “mas que loucura gente, como é que funciona a equação que relaciona celsius e fahrenheit então?”. Mas o que você deveria estar me perguntando, até porque eu obviamente não teria noção de como te responder uma pergunta dessas, #soudehumanas, é: “why the hell você perdeu tempo pesquisando quanto é -40 graus em celsius, moça?” E a resposta é simples: Google me disse que a sensação térmica em Boston este fim de semana seria de -40 fahrenheit e eu pensei por um segundim só que de repente isso poderia significar +22 em celsius, vai que.

Pois é, não. Resignada e de pé gelado, eu acordei no sábado e fui checar o tempo no aplicativo do celular pra ver se o clima ainda estava humanamente suportável pra sair pra comprar leite condensado pra fazer canjica. É aquele velho ditado: “Se a vida te der -40 graus, faça uma canjica”.

Agora, contexto: em dezembro eu viajei pra Colômbia e, pra ficar a par do clima por lá eu adicionei “Cartagena” à minha lista de cidades no aplicativo de Tempo no celular.

Não façam isso. Jamais.

Cartagena é uma cidadezinha sem-vergonha onde o clima, durante todo o fuckin’ ano, varia entre 26 e 35 graus, com sol. Todo o ano. Spoiler: se você for pra Cartagena nesse inverno, vai fazer 26 graus à noite e 35 graus ao meio dia. Por conta de uma preguiça marota, eu deixei aquela cidade ali, gravadinha na memória do aplicativo do celular. E então cada vez que vou olhar a temperatura em Boston, o que eu encontro é: Cartagena: 28 graus, Boston: -7. Cartagena: 32 graus, Boston: -12. E cada vez que eu penso que tem alguém em Cartagena arrastando havaiana e tomando mojito enquanto eu tô me mumificando em cachecol pra ir ao supermercado da esquina eu fico um tiquim mais triste. Não é uma tristeza profunda não, é só aquele mini-segundo mesmo de bater-mindinho-na-esquina-da-mesa, depilar-canela-com-cera-fria que logo vai embora. Mas acontece cada vez.

Ok. Voltemos ao sábado de manhã. De saco cheio dessa raivinha diária – principalmente por saber que Boston nem no verão vai se vingar de Cartagena, resolvi adotar uma nova tática: lasquei o delete em “Cartagena: 34 graus” e busquei uma cidade ali no meio da Sibéria, que fossa razoavelmente habitada e que tivesse um inverno nos trinques: Novosibirsk. Um milhão e meio de pessoas moram nessa beleza de cidade. Um milhão e meio de pessoas estão, agora, a -22 graus. Boston: -5, Novosibirsk: -22. Boston: -12, Novosibirsk: -28.

Muahaha!!

Desde então, tô de lua de mel com Boston. Que clima mais agradável. Temperatura amena. Que sorte a minha! Em Novosibirsk, sol nasce: 11AM. Sol se põe: 11:17AM. E Boston com essa claridade até 4 da tarde, que luxo!

Agora observe, meu caro leitor, que básica, ingênua e cretina é a felicidade humana. Observem que absolutamente NADA mudou nas circunstâncias do meu dia a dia. Não é que tá fazendo mais calor em Boston, percebe? Só mudei o benchmark, a base de comparação mesmo. Na tentativa de me aclimatar a esse inverno do tinhoso, olhe veja: descobri um atalho mutreta pra felicidade!

“Então, ok, mas o que eu posso tirar disso se eu moro em Belo Horizonte, Barcelona ou Palmas e não preciso me comparar com Novosibirsk pra ficar feliz sobre a temperatura na minha cidade?”

Aí que tá. O negocio é que a técnica do benchmark pode ser utilizada pra tudo nessa vida. E digo mais, ela JÁ modela nossa visão de felicidade sem a gente saber. Truco que a maioria de nós, que chegou até este post através do Facebook sofre com a exposição silenciosa ao “benchmark destrutivo”, que pouco a pouco – no caso, post a post – faz com que a gente pense que a nossa vida é a menos legal, nossas férias as menos bacanas e nossos amigos os menos parceiros de shot de tequila.

Essa filtrada de informação que rola através do Facebook-da-vez faz com que a vida alheia seja uma constante Cartagena enquanto a nossa é Boston no inverno. E não é justo isso, porque, por lógica, veja bem, se muitos de nós sentimos isso, isso não pode ser verdade. Mas como ninguém posta o momento “Peidando de cueca vendo reprise de Seinfield” e todo mundo posta “Fim de semana com os melhores amigos do mundo esquiando nos alpes suíços” a gente fica com aquele ranço no fundo da garganta de que a nossa vida é meio… medíocre.

E eu acho que o maior problema aqui é que a gente não se dá conta disso. Até eu trocar o Cartagena por Novosibirsk eu não tinha percebido o tanto que aquela comparação estava afetando o meu humor no dia a dia. E eu acho que aqueles 15 minutos de patinar o indicador na timeline podem parecer inofensivo mas eles são perverso pra caramba. Cada mochilão alheio pela Europa, cada amigo que curte um job novo do trabalho como quem curte o aniversário do sobrinho, cada Fulanito que corre 5,3km com Nike vai acumulando uma tristezinha que, na minha opinião, contribui pra uma geração inteira se pressionando pra “viver intensamente”, “trabalhar com o que ama”, “ser feliz hoje como se fosse o último dia da vida”. Porque nessa história a gente se ilude que tem muita gente, ou pior – muito dos nossos amigos, os nossos colegas da faculdade, o cara da baia do lado – que está o tempo todo surfando na crista da onda dessa vida.

Te contar uma coisa: um bocado de gente que mora em Cartagena de vez em quando fica de saco cheio do calor. Então assim, vamos parar de fantasiar que a vida alheia é – só – maravilhosa em 3,2,1?

Ah, claro, mas como faz? Rola de adicionar aquele conhecido que passa férias em num hotel fazenda em Brumadinho pra se sentir melhor sobre seu carnaval pra Cabo Frio? Ok. Rola de convidar o amigo desempregado pra te fazer mais felizim no Linkedin? Adiciona lá meu perfil!

Mas enquanto eu acho que a tática é eficaz (íssima!) pra apaziguar o mau-humor com o inverno, aconselho algo mais longo-prazo pras questões mais importantes da vida: se compara menos com o amigo do colégio, especula menos sobre a vida alheia, deleta o aplicativo do facebook do celular e… olha que bonito – seja seu próprio benchmark!

É possível?! Confere, produção?! Hell, yeah!!

Tá se sentindo meio “socorro, acordei em Boston no inverno”? Pensa o tanto que você cresceu no trabalho desde que o chefe sem noção entrou no ano passado; pega como seu espanhol melhorou desde que você começou a assistir Narcos; gasta um pouquinho mais de tempo revendo fotos de viagens boas antigas do que no Instagram da Giovanna Ewbank; se compara menos com o amigo que é profissa no snowboard e lembra que pra quem há um ano tremia nas bases quando botava um esqui, descer a pista de criança é foda pra caralho (se precisar de benchmark pra se sentir melhor no esqui, tenho uns vídeos pessoais que eu posso te mandar).

E eu sei que isso tem cheiro de papo nostálgico de “antes do iphone todo mundo era brother no metrô” mas não é nada disso, não acho que a culpa é toda do menino Zuckerberg. Acho que esse impulso de se comparar com o coleguinha do lado faz parte da natureza humana mesmo, só que com facebook e instagram fica mais fácil o acesso à “intimidade” alheia e à recauchutada da imagem que a gente projeta, então a gente precisa fazer um esforço maior pra vida do vizinho não ocupar muito espaço no nosso imaginário.

Mas enfim, se nada disso der certo, meu amigo, não se avexe: compra um vôo pra Cartagena que tudo se resolve.